Por que faziam isso com ela? Será que achavam que
ela não sentia o gosto? Todo dia comiam uma delícia atrás da outra na frente
dela, mas na vasilha sobrava sempre o mesmo amontoado de grãos insossos e
monocromáticos, que se pareciam mais com... Deixa pra lá.
Já tentara diversos artifícios, incluindo greves de
fome periódicas – o máximo que tinha conseguido era que a dona substituísse a
pilha de bolinhas amarronzadas por outras, que variavam no cheiro, cor e
tamanho, mas conservavam o sabor algo rançoso, um combinado de aromas de carnes
indefiníveis com... Deixa pra lá.
É verdade que, laboriosamente, tinha conquistado
alguns avanços, especialmente com o dono. Lena percebeu que quem pede tem a
preferência e que quem se movimenta, recebe. O segredo era estar sempre perto
de onde está a comida – e mais importante ainda, de alguém comendo.
Assim, mantinha-se alerta. Se ouvisse o farfalhar
característico dos sacos que envolviam as delícias, largava o que estivesse
fazendo e corria para a cozinha. O mesmo valia para o ruído abafado que se
ouvia quando o enigmático monolito branco se abria – ali os donos armazenavam
uma série de guloseimas frias e geladas.
Outra oportunidade imperdível era o momento em que
se preparava a comida. Os donos raramente passavam horas remexendo vasilhas
prateadas no fogo, como tantas vezes vira o Tio Cris fazer, mas de vez em
quando isso acontecia. Nesses dias, valia a pena estar por perto.
Quase sempre o encarregado era o dono – picava um
monte daqueles frutos cor vermelho-vivo que Lena adorava. As extremidades
ficavam todas para a salsicha – aparentemente ele gostava de vê-la apanhar os
pedaços no ar, antes de cair no chão. Não se fazia de rogada, saltava e
abocanhava lasca por lasca, saboreando a polpa macia, ácida e levemente
adocicada.
Ainda que dependesse da ração para sobreviver, Lena
aprendeu a negociar sua parcela diária – ou noturna – de guloseimas. O que a
impressionava era que, mesmo com tudo à disposição, a dieta dos donos era quase
tão monótona quanto a dela – todas as noites comiam fatias de pão recheadas com
algo retirado do monólito branco, sentados sobre o sofá, hipnotizados pela tela
luminosa da sala.
Por tentativa e erro, descobriu que a chave ali era
a paciência – e charme. Longe iam os dias em que, ansiosa, cutucava o dono com
a pata, insistente. Não só isso não funcionava, como por vezes a levava a
perder a oportunidade de uma vez, quando ele se irritava e a encarcerava no terraço
até terminar de comer.
O segredo estava na delicadeza e, principalmente, no
olhar... Subia no sofá e sentava sobre as patas traseiras - guardando uma
distância respeitosa, mas com os olhos fixos no dono, caprichando no ar
inocente.
Era só seguir o roteiro, sem esquecer de que é
preciso emocionar a plateia a cada ato, não importa quantas vezes a peça tenha
sido representada. Quando via que metade das fatias de pão já tinham sido
consumidas, dava início ao grand finale:
aproximava-se com graça e pousava a cabeça sobre o colo do dono, os olhinhos
observando-o de baixo para cima, irresistíveis através do prato de vidro
transparente.
Nas suas melhores atuações chegava a ouvir o
murmúrio de aprovação da plateia, partindo do dono, embevecido:
“Amore, olha só o jeito da Lena...”
Aí era só esperar, não precisava nem se erguer para
mastigar o pedaço de pão que recebia na boca, ainda sobre o colo dele.
Garantida a última lasca do sanduíche, às vezes
ainda havia tempo para repetir o ato com a dona, que não costumava se mostrar
tão sentimental, mas invariavelmente cedia.
Lena sabia, o segredo está nos olhos...
Explicação
A
Baleia desenvolveu uma capacidade considerável de manipulação. Seja pedindo aos
saltos os pedaços de tomate, no dia de cozinhar molho, seja esperando com olhar
pidão o bocado de sanduíche, ela sempre acaba conseguindo o que quer.
A
gente só se dá conta do quanto é condicionado pela salsicha quando se pega
reservando o último pedaço do que está comendo para ela, mesmo quando está fora
de casa.
A
Lena é irresistível, e o pior é que ela sabe disso.
Aposto que aí em Lages, hoje, ela vai ganhar vários últimos pedaços da ceia...kkkkkkk
ResponderExcluirAlém de comentar as preferências da Lena vc também faria sucesso como comentarista culinário!
ResponderExcluirAugusto Mattos
Lu querido, o segredo na realidade está no amor! bjs VM
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