Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O começo do fim



Lá estava ela de novo, encerrada dentro da jaula, chacoalhando no interior do carro. Tinha um mau pressentimento sobre aquilo – não havia sinal dos cubos de tecido que apareciam a cada viagem, antes de sair de casa. E, pior, tinham trazido sua caminha e o cobertor quadriculado...
Quando o carro parou e foi carregada para fora, constatou resignadamente que estava certa: encontrava-se em frente aos domínios da grande mulher de branco. Foi levada para dentro do casarão e rapidamente transladada para um dos cubículos gradeados que já conhecia. Os donos se foram e se viu sozinha, de novo na prisão.
Não teve tempo para se lamentar. Mal se ajeitara sobre a caminha e a grande mulher de branco apareceu, agachando-se em frente à jaula térrea.
“Vamos lá, Baleia? Chegou a hora...”
Ela abriu a porta da cela e a carregou para outra sala, colocando-a sobre a gelada mesa prateada da qual não tinha sequer uma boa lembrança. Para piorar, desta vez havia uma forte luz branca sobre a maca, que a obrigava a estreitar os olhos, na tentativa de enxergar alguma coisa. Ofuscada, conseguiu identificar uma outra mulher, um pouco menor, avançando na sua direção. Não havia sinal do dono, que sempre estava do seu lado quando recebia as desagradáveis picadas. Mais de medo do que de frio, começou a tremer.
“Calma, Baleia, não vai doer nada...”, disse a grande mulher de branco, segurando-a com firmeza.
Quando a outra se aproximou, pode ver que ela também estava toda de branco. Então era isso? Devia desconfiar de todo mundo que aparecesse na sua frente nessa cor? Ou não... A dona tantas vezes usava aquele avental branco e nunca lhe fizera mal...
Antes de chegar a uma conclusão sentiu a picada aguda no lombo. Já antecipava a sensação do líquido gelado se espalhando sob a pele quando foi surpreendida por uma quentura perfurante. Tentou se debater, mas as mãos que a seguravam não davam chance. Ensaiava a segunda tentativa de escapar ao sentir as patas fraquejarem, o calor se espalhando dos quartos traseiros pela espinha, preenchendo a barriga e subindo pelo pescoço, indo bater nas orelhas.
Sem forças, fechou os olhos e se deixou afundar naquele torpor convidativo – era quase como adormecer abraçada pela luz calorosa do sol sobre o lombo, só que ainda mais quente...
Lena sentiu-se escorregar por um canal apertado em que não conseguia distinguir mais do que formas desfocadas, reflexos do que parecia existir além das suas paredes. Quando chegou ao final do túnel se deu conta de que estava na casa do Tio Cris. Sim, era isso, mas diferente... O babão e a gigante desengonçada não estavam à vista – aliás, nem os donos, nem ninguém.
Ainda assim, sentia que não estava sozinha... Olhou ao redor e se deparou com outra salsicha, sentada, de frente para ela. Não era possível... Era... Era ela mesma! Viu-se em uma encruzilhada, de onde partiam quatro caminhos pavimentados de concreto no meio do gramado, formando um grande X. Confusa, Lena soltou um latido, respondido instantaneamente pelo seu par.
Irritada, deu um bote em direção à outra salsicha, na esperança de afugentá-la. Foi aí que as coisas começaram a ficar mais estranhas. Ao avançar sobre a encruzilhada, sua projeção sumiu e Lena atravessou uma espécie de membrana luminosa. Do outro lado não havia trilha pavimentada – encontrava-se de novo sozinha, afundada em uma grama muito alta, onde caminhar era dificílimo. Por mais esforço que fizesse para abrir caminho em meio à floresta verde, enroscava as patinhas em raízes e ramos gigantes, derrubando-a seguidas vezes.
Cansada, Lena fechou os olhos por um instante. Só queria sair dali, voltar para a tranquilidade da própria casa... Ao abri-los de novo, o cenário tinha mudado por completo. Aliviada, viu-se sobre o sofá marrom de que tanto gostava. Era ele, sim, mas também estava diferente... O formato era outro. A peça se transformara em um quadrado com um buraco no meio.
Ao se inclinar para olhar o que havia no centro, não conseguiu enxergar o fundo. A fraca luz da sala iluminava as paredes do túnel até certa altura – daí para baixo só se viam sombras e um abismo negro.
Ao olhar ao redor, Lena deparou-se de novo com aquela salsicha. Aquela não, era ela mesma! Apertou os olhinhos entre as patas, na esperança de que tudo sumisse novamente. Quando ergueu a cabeça e se propôs a enxergar, notou que estava no mesmo lugar – só que tinha diminuído! Voltou-se para a almofada em que estava encostada e viu que agora ela parecia umas quatro vezes maior. Tinha voltado a ser uma pequena salsicha arredondada, como nos seus primeiros dias... 
Miniaturizada, Lena se descobriu em uma prisão – antes simples obstáculos, as almofadas do sofá tinham se transformado em muralhas intransponíveis. Não havia outra coisa a fazer... Aproximou-se da borda do fosso central e mergulhou no abismo.
Para sua surpresa, parou de cair assim que atingiu a zona de sombra do túnel. Passou a flutuar confortavelmente, tomada por uma sensação de relaxamento – era tão agradável que podia ficar assim por um bom tempo...

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Quando Lena abriu os olhos estava tudo escuro. A cabeça doía e ondas de náusea acompanhavam o torturante latejar que se espalhava pelo crânio da salsicha, ao ritmo da própria pulsação. Sentia uma sede terrível, mas um torpor ainda mais forte desencorajava qualquer movimento.
Acostumando a vista à penumbra, pode perceber que estava de volta à sala das jaulas. Uma luz tênue escorregava por debaixo da porta, fornecendo claridade suficiente para deixar ver os reflexos prateados da grade que delimitava sua cela. Então não tinha sido tudo um pesadelo, ainda se encontrava na prisão...
O silêncio era total - parecia estar sozinha desta vez. Deitada de lado sobre a caminha, Lena limitou-se a fechar os olhos e deslizar de volta para o sono.
Ao acordar, no dia seguinte, o mal estar tinha passado, embora um resto de dor de cabeça permanecesse. Foi ao se espreguiçar para desentorpecer os músculos que veio a dor. Pondo-se em pé lentamente, sentiu como se lhe tivessem encurtado os movimentos do tronco. Tentou se esticar de novo, mas desistiu, dominada por uma nova pontada na barriga.
Voltou a cabeça para ver o que a atrapalhava e só então notou que estava envolta por um macacão branco, parecido com aqueles que a dona lhe enfiava cabeça abaixo nos dias de frio intenso, mesmo contra sua vontade. E, pior, esse envolvia até as pernas traseiras – não parecia fácil de escorregar para fora, como as outras roupas que conhecia.
Arrastou-se até a vasilha de água e bebeu com vontade, para matar a sede que a atormentava desde a noite anterior. O pote do lado estava cheio de ração, mas nem tocou nos grãos insossos – não tinha a menor fome. Não demorou para a grande mulher de branco vir vê-la. E, pouco depois, os donos apareceram para leva-la para casa.
Chegando ao apartamento, depois de libertada da caixa de transporte, Lena se dirigiu na velocidade que seus movimentos permitiam para o terraço, para patrulhar o território. O que tinham feito com ela? O macacão branco a impedia de ver, mas a sensação era de que tinham amarrado algo dentro da sua barriga. Além da dificuldade em andar, era como se as entranhas tivessem sido remexidas, sem encontrar de novo a posição de origem. E isso doía!
Não conseguiu passar do terceiro degrau da escada que ligava a sala à área externa – uma pontada mais forte forçou-a a se encurvar, deixando escapar um choro sentido. Deu meia volta e capengou até a caminha, deixada ao lado do sofá, sob o olhar compadecido do dono.
“Que foi, Leninha... Tá com dor?”, ele perguntou, acariciando-lhe a cabeça e as orelhas. “Já vai passar...”
O que tinham feito com ela? Sabia que um dia aquelas visitas à mulher de branco ainda iam acabar mal. Agora não conseguia nem mais subir uma escada!
Não, não era mais a mesma. E se perguntava se algum dia voltaria a ser...

Explicação
Apesar de ter ficado meio xôxa no primeiro dia depois da cirurgia, a recuperação da Baleia pós-castração foi tranquila. Foram dois ou três dias de convalescença, tomando sol deitada no tapete - mas em seguida ela voltou a ser a salsicha de sempre.
A Baleia e eu
A gente - e especialmente eu - relutava bastante em castrar a Baleia. No final, a idade (cinco anos), as tentativas frustradas de fazê-la ter filhotes e as recomendações veterinárias falaram mais alto.
Só que, apesar de estar convencido de que era a coisa certa a fazer, bate uma tristeza em saber que definitivamente a Baleia acaba aqui. Claro que um dia ela vai morrer, mas sempre restava a esperança de um filhote para dar continuidade à saga. Agora não. De certa forma, a castração decreta um ponto final, mesmo que futuro.
Para mim, a sensação que ficou depois da operação foi a do começo do fim de Lena...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O segredo dos seus olhos



Por que faziam isso com ela? Será que achavam que ela não sentia o gosto? Todo dia comiam uma delícia atrás da outra na frente dela, mas na vasilha sobrava sempre o mesmo amontoado de grãos insossos e monocromáticos, que se pareciam mais com... Deixa pra lá.

Já tentara diversos artifícios, incluindo greves de fome periódicas – o máximo que tinha conseguido era que a dona substituísse a pilha de bolinhas amarronzadas por outras, que variavam no cheiro, cor e tamanho, mas conservavam o sabor algo rançoso, um combinado de aromas de carnes indefiníveis com... Deixa pra lá.

É verdade que, laboriosamente, tinha conquistado alguns avanços, especialmente com o dono. Lena percebeu que quem pede tem a preferência e que quem se movimenta, recebe. O segredo era estar sempre perto de onde está a comida – e mais importante ainda, de alguém comendo. 
Assim, mantinha-se alerta. Se ouvisse o farfalhar característico dos sacos que envolviam as delícias, largava o que estivesse fazendo e corria para a cozinha. O mesmo valia para o ruído abafado que se ouvia quando o enigmático monolito branco se abria – ali os donos armazenavam uma série de guloseimas frias e geladas.

Outra oportunidade imperdível era o momento em que se preparava a comida. Os donos raramente passavam horas remexendo vasilhas prateadas no fogo, como tantas vezes vira o Tio Cris fazer, mas de vez em quando isso acontecia. Nesses dias, valia a pena estar por perto. 
Quase sempre o encarregado era o dono – picava um monte daqueles frutos cor vermelho-vivo que Lena adorava. As extremidades ficavam todas para a salsicha – aparentemente ele gostava de vê-la apanhar os pedaços no ar, antes de cair no chão. Não se fazia de rogada, saltava e abocanhava lasca por lasca, saboreando a polpa macia, ácida e levemente adocicada. 
Ainda que dependesse da ração para sobreviver, Lena aprendeu a negociar sua parcela diária – ou noturna – de guloseimas. O que a impressionava era que, mesmo com tudo à disposição, a dieta dos donos era quase tão monótona quanto a dela – todas as noites comiam fatias de pão recheadas com algo retirado do monólito branco, sentados sobre o sofá, hipnotizados pela tela luminosa da sala.

Por tentativa e erro, descobriu que a chave ali era a paciência – e charme. Longe iam os dias em que, ansiosa, cutucava o dono com a pata, insistente. Não só isso não funcionava, como por vezes a levava a perder a oportunidade de uma vez, quando ele se irritava e a encarcerava no terraço até terminar de comer.

O segredo estava na delicadeza e, principalmente, no olhar... Subia no sofá e sentava sobre as patas traseiras - guardando uma distância respeitosa, mas com os olhos fixos no dono, caprichando no ar inocente.

Era só seguir o roteiro, sem esquecer de que é preciso emocionar a plateia a cada ato, não importa quantas vezes a peça tenha sido representada. Quando via que metade das fatias de pão já tinham sido consumidas, dava início ao grand finale: aproximava-se com graça e pousava a cabeça sobre o colo do dono, os olhinhos observando-o de baixo para cima, irresistíveis através do prato de vidro transparente.

Nas suas melhores atuações chegava a ouvir o murmúrio de aprovação da plateia, partindo do dono, embevecido:

“Amore, olha só o jeito da Lena...”

Aí era só esperar, não precisava nem se erguer para mastigar o pedaço de pão que recebia na boca, ainda sobre o colo dele.

Garantida a última lasca do sanduíche, às vezes ainda havia tempo para repetir o ato com a dona, que não costumava se mostrar tão sentimental, mas invariavelmente cedia.

Lena sabia, o segredo está nos olhos...


Explicação

A Baleia desenvolveu uma capacidade considerável de manipulação. Seja pedindo aos saltos os pedaços de tomate, no dia de cozinhar molho, seja esperando com olhar pidão o bocado de sanduíche, ela sempre acaba conseguindo o que quer.

A gente só se dá conta do quanto é condicionado pela salsicha quando se pega reservando o último pedaço do que está comendo para ela, mesmo quando está fora de casa.

A Lena é irresistível, e o pior é que ela sabe disso.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Raí e Lana

Aquilo já começou mal. A estridente campainha do interfone tirou Lena da letargia da tarde – era sinal de que chegava alguém estranho. Saltou do sofá e postou-se ao lado da porta aberta pelo dono, preparada para receber as visitas devidamente, com latidos intimidatórios.
Não gostava de estranhos, muito menos na sua própria casa. Mas não há nada tão ruim que não possa piorar: o elevador se abriu e dele saíram um homem e uma mulher, acompanhados de um cachorro!
Ficou tão surpresa que não conseguiu nem latir, apenas foi atrás dos três apartamento adentro, seguidos pelos donos, em direção ao terraço. Acompanhando o cão subir a escada que levava à área externa, Lena notou que ele era parecido com ela. Tinha o mesmo focinho comprido, as orelhas caídas, as patas curtas e encurvadas para fora, além do tronco alongado. A cor era diferente - o dorso, a cabeça e o rabo apareciam cobertos de um pelo negro e lustroso, que na altura do peito dava lugar a um bege claro. Não havia dúvida, era um legítimo salsicha.
Já tinha visto outros cães do tipo na rua, durante os passeios, porém nunca de tão perto. Pareciam ter um grande ódio reprimido, porque nunca houve um que não a recebesse com latidos raivosos, rosnados e até dentadas quando tentava se aproximar.
Aquele não... Mostrava-se estranhamente calmo e amigável caminhando pelo terraço, o focinho rente ao chão, farejando cada canto. Mesmo assim, resolveu manter uma distância prudente.
“Lena, olha só que bonito o Raí...”, disse o dono, sentando-se no chão e estalando os dedos.
Sem cerimônia, o salsicha visitante respondeu ao chamado. Aproximou-se, subiu ao colo e colocou as duas patas nos ombros do dono, disparando uma sequência de lambidas afetuosas no nariz.
“Ah... Tá abraçando...”, a dona murmurou, encantada. “Tá querendo ganhar o sogro!”, completou, gargalhando.
Lena mal podia acreditar. O que era aquilo? Só ela podia lamber o nariz do dono, mais ninguém! Indignada, disparou uma série de latidos em protesto, que o cão entendeu como um convite à aproximação, vindo com a língua para fora em sua direção.
Seus latidos não surtiam efeito nenhum. Teve que passar longos minutos esquivando-se do bicho - que continuava tentando contato -, até que os estranhos decidiram ir embora, levando-o no colo.

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Mal se lembrava da visita desagradável quando foi assaltada pelo turbilhão de sensações, que já aprendera a conhecer bem. Os dias passaram a se arrastar devagar. Dividia o tempo entre tentar estancar o sangue que se esvaía lentamente dela e observar Bob do alto da sacada, com esperança de um contato na próxima saída à rua.
Quando finalmente parou de sangrar, mergulhou diretamente na angústia, em escala crescente. Estava nisso, até que, em um final de tarde, deparou-se com a caminha e a jaula de plástico sendo levadas para o meio da sala. O problema é que não havia sinal dos cubos que a dona enchia de roupas sempre que iam a algum lugar, despertando a desconfiança de Lena. O biscrok passou longe de convencê-la a entrar na caixa de transporte e o dono teve que forçá-la para dentro.
Após uma curta mas ansiosa viagem, o carro parou em frente a uma casa cercada por um portão de ferro, através do qual, ainda de dentro da jaula, pode ver dois cachorros escuros, pacientemente sentados nas patas traseiras, sobre a cobertura de brita do quintal.
Retirada da caixa, do alto do colo do dono, reconheceu um dos cães – mesmo sob a tênue luz dos postes de iluminação da rua teve certeza de que era o insistente visitante que a perseguira no terraço da própria casa, o sorrateiro lambedor de narizes!
Raí
“Olha só, Lena, o Raí...”, disse o dono, apontando o salsicha atrás do portão.
O segundo elemento era muito parecido com Raí - só um pouco maior, tinha pelos um pouco mais compridos, diferentes da pelagem curta e lustrosa do indesejado. Solta no chão do lado de dentro do terreno, Lena ainda teve tempo de perceber que se tratava de uma fêmea, enquanto se esquivava do focinho impertinente do macho. Em movimento, fugindo do perseguidor, foi tomada pelo horror ao ver sua caminha ser levada para dentro do quintal e instalada em um canto da garagem.
O desespero só aumentaria. Estarrecida, observou o homem que parecia ser o dono dos dois cães recolher a salsicha mais peluda e empurrá-la para dentro da sua jaula de plástico, entregando-a depois a Fabi, seguida de uma recomendação carinhosa: “Vê se se comporta, hein, Lana?”
O que estava acontecendo? Ia ficar ali? Os donos iam levar a peluda com eles? Estava sendo trocada... O pensamento foi interrompido pelo contato úmido da língua de Raí na ponta do seu rabo. Retomando a fuga, Lena acompanhou impotente a saída dos donos, que entraram no carro em posse da caixa de transporte e seu novo conteúdo – e se foram.

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No retorno ao apartamento, a nova salsicha não demorou a se sentir em casa. Primeiro empreendeu uma ronda exploratória minuciosa, farejando a presença de Baleia em cada cômodo. Mas, em seguida, já pedia ajuda para alcançar o sofá – de compleição mais robusta que Lena, Lana não tinha agilidade para subir sozinha.
Lana
A peluda obedeceu quase inteiramente à recomendação do próprio dono, a não ser na hora de dormir, quando começou a chorar, isolada no terraço. Fabi se compadeceu da solidão de Lana.
“Tadinha, Amore, ela deve estar acostumada a dormir encostadinha no Raí...”
Convencido, ele franqueou o acesso à salsicha, que se dirigiu diretamente para o quarto, pondo-se em pé nas patas de trás e tentando escalar a cama, com inúteis pulinhos curtos.
“Tadinha, Amore...”, derreteu-se Fabi.
Tendo o esforço reconhecido, Lana foi erguida para cima e passou uma noite de sono tranquilo, deitada aos pés da cama.

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Enquanto isso, na casa, não se podia dizer o mesmo de Lena. Nem teve tempo de considerar a fundo a repentina mudança em sua vida – havia algo mais urgente com que se preocupar.
Raí não dava sinal de que pretendesse desistir, perseguindo-a por todos os cantos do terreno, sob o olhar cúmplice do homem e da mulher, que não pareciam nada dispostos a ajudá-la. Será que eles não entendiam?
Não. Tanto que entraram na casa e fecharam a porta.
Cansada, Lena decidiu tentar uma nova tática. Aproveitando a localização da caminha, no canto da garagem, colocou-se de costas para a junção das duas paredes, mostrando os dentes e caprichando nos rosnados, diante do salsicha que não deixava de encará-la. Pronto, assim estaria segura - bastava estar atenta.
Pode desfrutar de alguns minutos de tenso descanso, até que seus rosnados para afastar o lambão atraíram a mulher. Sem misericórdia, ela espantou-a do canto e carregou a caminha para dentro da casa, deixando-a novamente à mercê do perseguidor.
Não importava... Por mais que sentisse a agonia desesperada pós-sangramento, Lena não deixaria seu vazio ser preenchido por aquele estranho. Ninguém via que era o Bob que ela queria?
Foi uma noite longa, insone, em movimento constante, de botes e escaramuças, de ataques e contra-ataques, ação e dissuasão. Lena estava em muito melhor forma física do que o traiçoeiro lambedor de narizes e emergiu vencedora, resistindo bravamente ao assédio.
Exausta, viu com alívio renovador o carro dos donos se aproximar do portão, trazendo a salsicha peluda na sua própria jaula. Aberta a portinhola, tomou o lugar da concorrente mal ela saíra da caixa, deixando-se tombar, esgotada. Finalmente segura, entregou-se ao sono.

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Lena acordou na chegada ao apartamento. Satisfeita, reconheceu a garagem ainda de dentro da jaula, ao ser retirada do carro. Na sala, depois de libertada, sentiu já no tapete de entrada o cheiro da peluda – foi seguindo a trilha pelo corredor, cômodo a cômodo, acompanhada pelo olhar curioso dos donos.
Então, além de abandoná-la naquela situação desesperadora por uma noite inteira, tinham trazido a outra salsicha para a casa dela?
Dominada pela raiva, rastreou a pista da outra até o quarto do casal – terminava na cama. Alcançou o colchão de um salto e teve a confirmação. Até ali, onde ela raramente era admitida, a concorrente teve acesso permitido!
Raí e Lana (ou seria Lana e Raí?)
Não, isso não ia ficar assim... Ergueu o focinho dos lençóis que farejava furiosamente e lançou um olhar de desafio na direção dos donos. Divertidos, eles observavam a cena parados na porta.
Foi com prazer que viu os sorrisos se transformarem em espanto enquanto se agachava e aliviava todo o conteúdo da bexiga sobre a cama, em um longo xixi.

Explicação
Essa foi a primeira tentativa de fazer a Baleia ter filhotes, sem sucesso. Depois de uma aproximação inicial dela com o Raí no nosso apartamento, levamos ela para a casa do Daniel e da Letícia, e trouxemos a irmã do salsicha (a Lana) conosco, para não atrapalhar.
Não só não deu certo, como a vingança de Lena foi terrível...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Hora de dormir

Ninguém pode ser culpado por tentar. Deitada sob o cobertor vermelho, Lena sentia nas costas o suave ir e vir da barriga da dona, que ressonava no sofá, encostada nela. De olhos fechados na penumbra da sala, estava à espera do momento chave que definiria sua noite.
Era só uma questão de tempo. Atenta, a salsicha monitorava com as orelhas em pé os movimentos do dono, dedicado ao estranho ritual, concentrado na caixa luminosa, única fonte de iluminação do ambiente no momento. Já se assustara muito com aquilo, especialmente quando ouvia os gritos e imprecações tão semelhantes às piores broncas que recebera na vida – mas finalmente compreendera que o escândalo não tinha relação alguma com ela. Aparentemente, a ira do dono estava diretamente relacionada com uma porção de minúsculos homenzinhos que se moviam sobre um fundo verde, ao som de mais gritos, de intensidade variável. Quando o sofrimento dele acabasse chegaria sua hora, o momento de agir.
Finalmente fez-se silêncio na sala. A tela mágica perdeu a cor esverdeada e voltou a assumir o tom negro habitual. Ele se levantou e Lena sentiu as sacudidelas na dona, balançando levemente o sofá:
“Amore, hora de dormir...”
A dona levantou, resmungou alguma coisa e desapareceu pelo corredor. A salsicha permaneceu imóvel debaixo do cobertor, repassando mentalmente os movimentos, até sentir a mão do dono descobrindo-a e os chacoalhões.
“Vamos, Lena, pra caminha.”
Era agora. Fingindo surpresa com a situação, caprichou no olhar de inocência, deitada de barriga para cima, as patinhas da frente recolhidas.
“Lena, pra cama...”
Segundo ato. Saltou para o chão e contornou o sofá, cabisbaixa, bem devagar, encaminhando-se para o corredor que desembocava no quarto do casal.
“Lena, eu disse pra cama!”
Droga.... Ia ter que apelar. Mudou de rumo e, quase se arrastando, alcançou seu tapete preferido, em frente à mesa de jantar. Ali, no conforto, deixou-se cair e rolou devagar, para encarar o dono, carregando os olhinhos da sua melhor expressão de abandono.
“Lena, não faz charme...”
Tomada pela esperança, sentiu a mão dele acariciando o pescoço e as orelhas, antes de colocá-la em pé e aplicar-lhe um tapinha encorajador nos quartos traseiros, encaminhando-a para a escada que dava acesso ao terraço, onde dormia.
“Vai... Pra caminha.”
Lena ainda lançou um último olhar desconsolado para o dono, antes de começar a subir os degraus. Ninguém pode ser culpado por tentar...

Explicação
Desgastada essa, a Baleia desenvolveu outra tática para tentar dormir com a gente. Às vezes a Fabi se irritava com a gritaria dupla do futebol e ia mais cedo para a cama.
Lena tinha tudo planejado. Esperava algum tempo, geralmente o suficiente para a dona cair no sono. Aí se esgueirava pela sala e se encaminhava para o quarto, pata ante pata, e se enfiava sob as cobertas. 
Quando eu chegava para dormir, quase sempre a Fabi acordava e me mandava colocar a Baleia na cama dela. Era levantar o cobertor e se deparar com a salsicha já de barriga para cima, as patinhas encolhidas junto ao peito, com aquele olhar pidão canino, implorando para ficar ali no quentinho.
Mas, de vez em quando, a Fabi não acordava e eu deitava quietinho, aproveitando o calor da barriga da Lena esquentando meus pés, no fundo da cama.
Ninguém pode ser culpado por tentar...

Olha a cena completa da salsicha fazendo seu charme: