Era só uma questão de tempo. Atenta, a salsicha
monitorava com as orelhas em pé os movimentos do dono, dedicado ao estranho
ritual, concentrado na caixa luminosa, única fonte de iluminação do ambiente no
momento. Já se assustara muito com aquilo, especialmente quando ouvia os gritos
e imprecações tão semelhantes às piores broncas que recebera na vida – mas
finalmente compreendera que o escândalo não tinha relação alguma com ela.
Aparentemente, a ira do dono estava diretamente relacionada com uma porção de
minúsculos homenzinhos que se moviam sobre um fundo verde, ao som de mais
gritos, de intensidade variável. Quando o sofrimento dele acabasse chegaria sua
hora, o momento de agir.
Finalmente fez-se silêncio na sala. A tela mágica perdeu
a cor esverdeada e voltou a assumir o tom negro habitual. Ele se levantou e
Lena sentiu as sacudidelas na dona, balançando levemente o sofá:
“Amore, hora de dormir...”
A dona levantou, resmungou alguma coisa e
desapareceu pelo corredor. A salsicha permaneceu imóvel debaixo do cobertor,
repassando mentalmente os movimentos, até sentir a mão do dono descobrindo-a e
os chacoalhões.
“Vamos, Lena, pra caminha.”
Era agora. Fingindo surpresa com a situação, caprichou
no olhar de inocência, deitada de barriga para cima, as patinhas da frente
recolhidas.
“Lena, pra cama...”
Segundo ato. Saltou para o chão e contornou o sofá,
cabisbaixa, bem devagar, encaminhando-se para o corredor que desembocava no
quarto do casal.
“Lena, eu disse pra cama!”
Droga.... Ia ter que apelar. Mudou de rumo e, quase
se arrastando, alcançou seu tapete preferido, em frente à mesa de jantar. Ali,
no conforto, deixou-se cair e rolou devagar, para encarar o dono, carregando os
olhinhos da sua melhor expressão de abandono.
“Lena, não faz charme...”
Tomada pela esperança, sentiu a mão dele acariciando
o pescoço e as orelhas, antes de colocá-la em pé e aplicar-lhe um tapinha
encorajador nos quartos traseiros, encaminhando-a para a escada que dava acesso
ao terraço, onde dormia.
“Vai... Pra caminha.”
Lena ainda lançou um último olhar desconsolado para
o dono, antes de começar a subir os degraus. Ninguém pode ser culpado por
tentar...
Explicação
Desgastada
essa, a Baleia desenvolveu outra tática para tentar dormir com a gente. Às
vezes a Fabi se irritava com a gritaria dupla do futebol e ia mais cedo para a
cama.
Lena
tinha tudo planejado. Esperava algum tempo, geralmente o suficiente para a dona
cair no sono. Aí se esgueirava pela sala e se encaminhava para o quarto, pata
ante pata, e se enfiava sob as cobertas.
Quando
eu chegava para dormir, quase sempre a Fabi acordava e me mandava colocar a
Baleia na cama dela. Era levantar o cobertor e se deparar com a salsicha já de
barriga para cima, as patinhas encolhidas junto ao peito, com aquele olhar
pidão canino, implorando para ficar ali no quentinho.
Mas,
de vez em quando, a Fabi não acordava e eu deitava quietinho, aproveitando o
calor da barriga da Lena esquentando meus pés, no fundo da cama.
Ninguém pode ser culpado por tentar...Olha a cena completa da salsicha fazendo seu charme:
Lu, está demais! Adorável ver a Lena costas com costas com a Fabi, roncando... E o filme do "charme" é impagável. Adorei. bjs VM
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