Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O segredo dos seus olhos



Por que faziam isso com ela? Será que achavam que ela não sentia o gosto? Todo dia comiam uma delícia atrás da outra na frente dela, mas na vasilha sobrava sempre o mesmo amontoado de grãos insossos e monocromáticos, que se pareciam mais com... Deixa pra lá.

Já tentara diversos artifícios, incluindo greves de fome periódicas – o máximo que tinha conseguido era que a dona substituísse a pilha de bolinhas amarronzadas por outras, que variavam no cheiro, cor e tamanho, mas conservavam o sabor algo rançoso, um combinado de aromas de carnes indefiníveis com... Deixa pra lá.

É verdade que, laboriosamente, tinha conquistado alguns avanços, especialmente com o dono. Lena percebeu que quem pede tem a preferência e que quem se movimenta, recebe. O segredo era estar sempre perto de onde está a comida – e mais importante ainda, de alguém comendo. 
Assim, mantinha-se alerta. Se ouvisse o farfalhar característico dos sacos que envolviam as delícias, largava o que estivesse fazendo e corria para a cozinha. O mesmo valia para o ruído abafado que se ouvia quando o enigmático monolito branco se abria – ali os donos armazenavam uma série de guloseimas frias e geladas.

Outra oportunidade imperdível era o momento em que se preparava a comida. Os donos raramente passavam horas remexendo vasilhas prateadas no fogo, como tantas vezes vira o Tio Cris fazer, mas de vez em quando isso acontecia. Nesses dias, valia a pena estar por perto. 
Quase sempre o encarregado era o dono – picava um monte daqueles frutos cor vermelho-vivo que Lena adorava. As extremidades ficavam todas para a salsicha – aparentemente ele gostava de vê-la apanhar os pedaços no ar, antes de cair no chão. Não se fazia de rogada, saltava e abocanhava lasca por lasca, saboreando a polpa macia, ácida e levemente adocicada. 
Ainda que dependesse da ração para sobreviver, Lena aprendeu a negociar sua parcela diária – ou noturna – de guloseimas. O que a impressionava era que, mesmo com tudo à disposição, a dieta dos donos era quase tão monótona quanto a dela – todas as noites comiam fatias de pão recheadas com algo retirado do monólito branco, sentados sobre o sofá, hipnotizados pela tela luminosa da sala.

Por tentativa e erro, descobriu que a chave ali era a paciência – e charme. Longe iam os dias em que, ansiosa, cutucava o dono com a pata, insistente. Não só isso não funcionava, como por vezes a levava a perder a oportunidade de uma vez, quando ele se irritava e a encarcerava no terraço até terminar de comer.

O segredo estava na delicadeza e, principalmente, no olhar... Subia no sofá e sentava sobre as patas traseiras - guardando uma distância respeitosa, mas com os olhos fixos no dono, caprichando no ar inocente.

Era só seguir o roteiro, sem esquecer de que é preciso emocionar a plateia a cada ato, não importa quantas vezes a peça tenha sido representada. Quando via que metade das fatias de pão já tinham sido consumidas, dava início ao grand finale: aproximava-se com graça e pousava a cabeça sobre o colo do dono, os olhinhos observando-o de baixo para cima, irresistíveis através do prato de vidro transparente.

Nas suas melhores atuações chegava a ouvir o murmúrio de aprovação da plateia, partindo do dono, embevecido:

“Amore, olha só o jeito da Lena...”

Aí era só esperar, não precisava nem se erguer para mastigar o pedaço de pão que recebia na boca, ainda sobre o colo dele.

Garantida a última lasca do sanduíche, às vezes ainda havia tempo para repetir o ato com a dona, que não costumava se mostrar tão sentimental, mas invariavelmente cedia.

Lena sabia, o segredo está nos olhos...


Explicação

A Baleia desenvolveu uma capacidade considerável de manipulação. Seja pedindo aos saltos os pedaços de tomate, no dia de cozinhar molho, seja esperando com olhar pidão o bocado de sanduíche, ela sempre acaba conseguindo o que quer.

A gente só se dá conta do quanto é condicionado pela salsicha quando se pega reservando o último pedaço do que está comendo para ela, mesmo quando está fora de casa.

A Lena é irresistível, e o pior é que ela sabe disso.

3 comentários:

  1. Aposto que aí em Lages, hoje, ela vai ganhar vários últimos pedaços da ceia...kkkkkkk

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  2. Além de comentar as preferências da Lena vc também faria sucesso como comentarista culinário!

    Augusto Mattos

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  3. Lu querido, o segredo na realidade está no amor! bjs VM

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