O que estava estranho ali era o ar. Vinha sentindo isso ainda dentro da jaula, no carro, enquanto tentava farejar algo que indicasse para onde estava sendo levada. Era estranho, havia como que uma camada mascarando e tornando difícil identificar os cheiros. Aquilo se tornou mais perturbador para Lena quando caminhava pelo apartamento, a névoa olfativa a impedia de estabelecer um sentido para os odores que buscava catalogar na memória - eles pareciam encobertos por uma fuligem pegajosa. Privada do sentido mais poderoso, viu-se desorientada no novo ambiente.
Mas perdida mesmo ela se sentiria nos dias seguintes, depois que os donos saíram para a rua e desapareceram. Inquieta, Lena passou a tarde deitada na caminha instalada a um canto da sala, de frente para a porta de entrada, atenta a qualquer ruído que pudesse anunciar o retorno deles. Barulhos houve muitos, a porta se abriu e fechou algumas vezes, mas os donos não voltaram.
Lena despertou mais leve pela manhã, tomada pelo pragmatismo dos salsichas. Se ali tinha sido deixada, alternativa outra não havia que se adaptar e esperar pelo resgate – tinha certeza que os donos voltariam. Tinham que voltar... E se ia permanecer ali por um tempo, o melhor era ser simpática e fazer amigos.
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| Baleia no poleiro, em São Paulo |
Ela caminhava com dificuldade, às vezes se apoiando sobre os móveis. Sorridente, falava com a cachorrinha o tempo todo em que estava por lá, enquanto sentava para almoçar e disfarçadamente desviava boa parte do que lhe serviam no prato para Lena, debaixo da mesa.
Como comia bem naquele lugar... No primeiro dia, ainda desorientada e cansada da longa viagem, nem tocou na ração. Na tarde seguinte, saciada por metade do almoço da Vó Lucy, continuou esnobando o pote azul. De noite, os grãos insossos tinham sido substituídos por deliciosas sobras de comida: arroz, feijão, batatas e até bife. Maravilhada, descobriu que ali não precisaria comer ração.
De dia não havia muito o eu fazer, passava o tempo empoleirada no espaldar do sofá da sala, onde batia sol, com uma vista panorâmica da rua, três andares abaixo. A janela também ficava no mesmo nível da copa das árvores, carregadas de passarinhos. Lena passava horas a observá-los, atenta, estudando seus movimentos e formulando estratégias para evitar de uma vez por todas que os malditos emplumados roubassem sua comida quando voltasse para casa.
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| Baleia e Augusto, o passeador |
Sem mais delongas, enlaçava-a com a guia e saíam para a rua – não para uma simples volta no quarteirão, como estava acostumada: aquilo era uma jornada. Primeiro caminhavam por uma longa reta, morro acima, cercada de concreto por todos os lados. Chegava já quase cansada a um paraíso verde onde o passeio de verdade começava.
Era o maior gramado que já tinha visto, com um lago e inúmeras árvores e arbustos distribuídos à margem dele. Não sabia quantas voltas davam juntos ao redor da praça, até que o homem lhe tirava a guia pelo pescoço e a deixava correr pela grama, solta.
Voltava exausta, só queria deitar sobre o cobertor e se deixar escorregar para um sono bom – mas isso nunca era possível, era forçada a permanecer alerta. Pouco depois de entrarem no apartamento a outra mulher que vivia ali aparecia com aquele bicho. Sorrindo, colocava-o no chão e insistia: “Piter, olha só a Baleia...”
Não tinha certeza, mas achava que ele vivia com a velhinha cheirosa que repartia a comida com ela – já sentira aquele cheiro ocre do animal nas roupas dela.
| Piter, o terror de Lena |
Felizmente, ele mantinha a distância. Mas não dava para confiar na sorte. Pelo que via, com um salto o bicho podia estar sobre ela. Nunca chegaram a se entender, mas por fim desenvolveram um respeito mútuo.
Amigos Lena faria dias depois, quando a colocaram no carro e foi levada a uma casa com um grande terreno, onde foi recebida com lambidas e brincadeiras por um enorme e mal encarado cachorro preto – parecia mais bravo que o velho Gaúcho, mas era ainda mais bonachão.
Com ele vivia uma raposa ladina, pouco maior que ela, que insistia em tentar lhe roubar os ossos de costelinha durante o churrasco. Foi forçada a mostrar os dentes e soltar alguns rosnados, ao que a mulher que lhe dera os petiscos e parecia viver ali interveio: “Luís, olha só a Mali...” Pior para a raposa, que passou o resto da tarde sendo vigiada de perto pelo homem da casa, enquanto assava as carnes.
| Zimba (E) e Mali (D) |
Uma noite, sem mais nem menos, os dois entraram pela porta da rua, como se nada tivesse acontecido. Tonta de alegria e dominada pela euforia, Lena cambaleou para fora da caminha, arrastando-se em direção aos donos, sem conseguir controlar o chorinho sentido - ou a bexiga. A mancha se espalhou pelo carpete enquanto lambia o rosto do dono, que tinha se ajoelhado para recebê-la.
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| Vó Lucy e Mali |
A Baleia ficou 15 dias na casa dos meus pais, em São Paulo (SP), quando eu e a Fabi fomos viajar para a Argentina e o Chile. Essa foi a primeira vez que ela passou tanto tempo longe de casa – e da gente.
Conquistada pela barriga, a adaptação foi fácil. Quando voltamos de viagem ela estava redonda – levou quase uma semana para voltar a comer ração. É, a volta das férias não é fácil para ninguém, mesmo.


