Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

No exílio

Tinha sido a viagem mais longa que já fizera, mais até do que para aquele lugar frio onde a cada visita surgia um cachorro diferente. Tão demorada que pararam duas vezes no caminho, com direito a sair da jaula de plástico e dar uma rápida caminhada para esticar as patas e fazer xixi. 
Quando finalmente chegaram, percebeu logo que não havia terreno, era um apartamento fechado semelhante à sua primeira moradia – só um pouco maior, descobriu, após a primeira ronda exploratória que empreendeu assim que pode. De cara o chão a agradou, todo coberto de uma pelagem compacta que na sua casa havia apenas em alguns quadrados - podia deitar em qualquer lugar com conforto e sem passar frio.
O que estava estranho ali era o ar. Vinha sentindo isso ainda dentro da jaula, no carro, enquanto tentava farejar algo que indicasse para onde estava sendo levada. Era estranho, havia como que uma camada mascarando e tornando difícil identificar os cheiros. Aquilo se tornou mais perturbador para Lena quando caminhava pelo apartamento, a névoa olfativa a impedia de estabelecer um sentido para os odores que buscava catalogar na memória - eles pareciam encobertos por uma fuligem pegajosa. Privada do sentido mais poderoso, viu-se desorientada no novo ambiente.
Mas perdida mesmo ela se sentiria nos dias seguintes, depois que os donos saíram para a rua e desapareceram. Inquieta, Lena passou a tarde deitada na caminha instalada a um canto da sala, de frente para a porta de entrada, atenta a qualquer ruído que pudesse anunciar o retorno deles. Barulhos houve muitos, a porta se abriu e fechou algumas vezes, mas os donos não voltaram.
A salsicha passou a primeira noite quase toda sem dormir, preocupada. Veio-lhe a lembrança da outra vez em que tinha sido deixada pelos donos, no casarão da grande mulher de branco. Bom, pelo menos ali não estava enjaulada em um cubículo, cercada de outros prisioneiros. E havia outras vantagens, perceberia já no dia seguinte.
Lena despertou mais leve pela manhã, tomada pelo pragmatismo dos salsichas. Se ali tinha sido deixada, alternativa outra não havia que se adaptar e esperar pelo resgate – tinha certeza que os donos voltariam. Tinham que voltar... E se ia permanecer ali por um tempo, o melhor era ser simpática e fazer amigos.
Baleia no poleiro, em São Paulo
Quatro pessoas viviam no apartamento, ela descobriu – na verdade duas delas não moravam ali, apareciam só na hora da comida. Eram um garoto magro e uma mulher encurvada e perfumada – podia notar, agora que aos poucos ia se acostumando à névoa olfativa do lugar.
Ela caminhava com dificuldade, às vezes se apoiando sobre os móveis. Sorridente, falava com a cachorrinha o tempo todo em que estava por lá, enquanto sentava para almoçar e disfarçadamente desviava boa parte do que lhe serviam no prato para Lena, debaixo da mesa.
Como comia bem naquele lugar... No primeiro dia, ainda desorientada e cansada da longa viagem, nem tocou na ração. Na tarde seguinte, saciada por metade do almoço da Vó Lucy, continuou esnobando o pote azul. De noite, os grãos insossos tinham sido substituídos por deliciosas sobras de comida: arroz, feijão, batatas e até bife. Maravilhada, descobriu que ali não precisaria comer ração.
De dia não havia muito o eu fazer, passava o tempo empoleirada no espaldar do sofá da sala, onde batia sol, com uma vista panorâmica da rua, três andares abaixo. A janela também ficava no mesmo nível da copa das árvores, carregadas de passarinhos. Lena passava horas a observá-los, atenta, estudando seus movimentos e formulando estratégias para evitar de uma vez por todas que os malditos emplumados roubassem sua comida quando voltasse para casa.
Baleia e Augusto, o passeador
No final da tarde tudo ficava melhor. Mal entrava porta adentro, o homem de cabelos brancos e pelos desgrenhados sobre os olhos lançava o convite, sem os rodeios do dono: “Lena, vamos passear?”
Sem mais delongas, enlaçava-a com a guia e saíam para a rua – não para uma simples volta no quarteirão, como estava acostumada: aquilo era uma jornada. Primeiro caminhavam por uma longa reta, morro acima, cercada de concreto por todos os lados. Chegava já quase cansada a um paraíso verde onde o passeio de verdade começava.
Era o maior gramado que já tinha visto, com um lago e inúmeras árvores e arbustos distribuídos à margem dele. Não sabia quantas voltas davam juntos ao redor da praça, até que o homem lhe tirava a guia pelo pescoço e a deixava correr pela grama, solta.
Voltava exausta, só queria deitar sobre o cobertor e se deixar escorregar para um sono bom – mas isso nunca era possível, era forçada a permanecer alerta. Pouco depois de entrarem no apartamento a outra mulher que vivia ali aparecia com aquele bicho. Sorrindo, colocava-o no chão e insistia: “Piter, olha só a Baleia...”
Não tinha certeza, mas achava que ele vivia com a velhinha cheirosa que repartia a comida com ela – já sentira aquele cheiro ocre do animal nas roupas dela.
Piter, o terror de Lena
Solto, o peludo acinzentado deslizava sem fazer ruído pela sala e de um salto flutuava para cima da mesa. Ali se acocorava e ficava observando-a, sorrateiro, com uns olhos verdes enormes. Não era muito maior do que ela, mas o que a deixava desconfiada era aquele olhar frio, penetrante, que Lena não tinha coragem de encarar – desviava o focinho e o vigiava com o rabo dos olhos.
Felizmente, ele mantinha a distância. Mas não dava para confiar na sorte. Pelo que via, com um salto o bicho podia estar sobre ela. Nunca chegaram a se entender, mas por fim desenvolveram um respeito mútuo.
Amigos Lena faria dias depois, quando a colocaram no carro e foi levada a uma casa com um grande terreno, onde foi recebida com lambidas e brincadeiras por um enorme e mal encarado cachorro preto – parecia mais bravo que o velho Gaúcho, mas era ainda mais bonachão.
Com ele vivia uma raposa ladina, pouco maior que ela, que insistia em tentar lhe roubar os ossos de costelinha durante o churrasco. Foi forçada a mostrar os dentes e soltar alguns rosnados, ao que a mulher que lhe dera os petiscos e parecia viver ali interveio: “Luís, olha só a Mali...” Pior para a raposa, que passou o resto da tarde sendo vigiada de perto pelo homem da casa, enquanto assava as carnes.
Zimba (E) e Mali (D)
Lena podia até dizer que estava feliz – só tinha tido dias tão bons na casa do Tio Cris. Mas, de noite, deitada sob o cobertor quadriculado, afloravam as lembranças dos apertos da mama, dos carinhos e brincadeiras brutas do dono... Aí chegava a sentir tristeza, dissipada na manhã seguinte, já no café da manhã dividido com a Vó Lucy.
Uma noite, sem mais nem menos, os dois entraram pela porta da rua, como se nada tivesse acontecido. Tonta de alegria e dominada pela euforia, Lena cambaleou para fora da caminha, arrastando-se em direção aos donos, sem conseguir controlar o chorinho sentido - ou a bexiga. A mancha se espalhou pelo carpete enquanto lambia o rosto do dono, que tinha se ajoelhado para recebê-la. 

Vó Lucy e Mali
Explicação 
A Baleia ficou 15 dias na casa dos meus pais, em São Paulo (SP), quando eu e a Fabi fomos viajar para a Argentina e o Chile. Essa foi a primeira vez que ela passou tanto tempo longe de casa – e da gente.
Conquistada pela barriga, a adaptação foi fácil. Quando voltamos de viagem ela estava redonda – levou quase uma semana para voltar a comer ração. É, a volta das férias não é fácil para ninguém, mesmo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O som da pizza e outros ruídos


Lena aprendia rápido. Poucas semanas depois da mudança para a casa no Costa e Silva, ela já sabia identificar uma série de sinais e ruídos úteis no novo ambiente. Essa foi a forma que a pequena salsicha encontrou para manter o controle do território – percebera logo cedo que não poderia contar com muita ajuda, já que os donos saíam pouco depois do amanhecer e voltavam só de noite. Assim, conseguiu estabelecer uma rede de informações sonoras que permitiam a ela saber o que se passava na frente da casa, mesmo estando nos fundos, e vice-versa.
Baleia no portão
Um dos primeiros ruídos que Lena aprendeu a identificar foi o arrastar enferrujado do portão de metal correndo sobre o próprio trilho, alerta de que ele estava sendo aberto ou fechado e alguém entrava ou saía do quintal. O barulho metálico era semelhante a outro integrante da lista de prioridade máxima da cachorrinha: o da grade pantográfica que a impedia de entrar na casa, nos fundos, quando os donos não estavam em casa, ou à noite, na hora de dormir. Neste, porém, a fricção terminava em um guincho agudo que no início alfinetava os ouvidos da salsicha, mas depois se tornou um sinal de alegria, ao anunciar a presença dos donos no quintal, toda manhã.
Quanto mais sonoro, mais facilmente o ruído era assimilado pela cachorrinha. O acionar do motor do Fusca do dono, por exemplo, assustava-a e a fazia correr para o fundo da casa nas primeiras vezes em que viu o carrinho arredondado sendo posto em funcionamento. Agora, já não tinha mais medo e podia adivinhar a chegada dele ao ouvir o bravo Volkswagen de longe, dobrando a esquina, a duas quadras de distância. Talvez por isso sentisse certa simpatia pelo velho Fusquinha branco – ele não se escondia em ruídos traiçoeiros e sem personalidade como o brilhante carro da dona, igual a todos os outros, que Lena só conseguia escutar quando embicava no portão.
Baleia e o Fusca 1968
A salsicha aprendeu, porém, que alertas menos ruidosos tinham potencial igualmente relevante. O som que as pessoas faziam ao bater uma mão na outra - que durante o dia podiam ser confundidas com as marteladas ritmadas da obra na esquina – indicavam a ela que havia uma ameaça no portão. Podia ser o odiado homem vestido de amarelo que vivia cheio de pacotes nas mãos ou uma daquelas mulheres cobertas por saias até as canelas e longas crinas presas em uma espécie de rabo, que escorria da cabeça até abaixo da cintura. Eram as mais insistentes, batiam palmas sem cansar, por vezes observadas pelo dono escondido detrás da cortina – essas ele não atendia nunca.
A ameaça mais sorrateira, porém, exigia de Lena uma atenção constante, porque o sinal sonoro de sua presença era discreto, difícil de escutar, especialmente quando estava ocupada patrulhando a parte da frente do terreno. Só prestando muita atenção conseguia discernir os ruídos secos e ritmados das pancadas seguidas, encorpadas em um batuque sinistro aos ouvidos da salsicha.
Quando os identificava, parava o que estivesse fazendo e rumava para os fundos da casa, pata ante pata, tomando cuidado para não denunciar sua posição pelo deslocamento inadvertido de uma pedra de brita qualquer, das que cobriam as laterais do quintal. Cautelosa, adotava a postura de ataque que aprendera com o velho Gaúcho e disparava o bote contra o odioso emplumado de peito amarelado, que insistia em vir roubar sua ração.
Droga, como era rápido! Irritada, Lena tentava pela milésima vez entender o que fazia de errado, observando o voo do pássaro, que calmamente pousava sobre o muro e engolia o último grão marrom surrupiado da vasilha da salsicha, antes de soltar o grito vitorioso: “Bem te vi!”
Baleia vigilante
Mas, de todos, o ruído preferido de Lena era noturno. Ao ouvir os estouros do motor da moto se aproximando, a salsicha levantava as orelhas, à espera da senha que confirmava a expectativa: uma buzinada estridente ao portão.
Tomada por um misto de alegria pelo que chegava e raiva por quem o trazia, a cachorrinha se antecipava e disparava para fora da casa, para saudar devidamente o intruso e ao mesmo tempo apreciar o cheiro fascinante que partia do embrulho passado às mãos do dono.
Eufórica, a salsicha já antecipava os prazeres da noite perfeita: a noite de pizza. Seguia saltitante o dono até a cozinha, atraída pelo aroma inconfundível. Para ela só sobravam as bordas meio queimadas, mas não se importava – na maioria das vezes os pedaços vinham com algum resto de mussarela, cebola, presunto, calabresa e o que mais gostava, aquele molho de tomate semicarbonizado. Lena adorava escutar aquela buzina no portão...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Volta às origens



Encolhida sobre o cobertor, no fundo da jaulinha de plástico, Lena perdera a noção de quantas vezes tinha acordado e voltado a dormir, o carro sempre em movimento, os donos em silêncio, uma música tocando de fundo. A desorientação era potencializada pelo tempo que passara ali, fechada – não tinha a menor ideia para onde estava sendo levada. 
Quando o carro finalmente parou por completo e a porta se abriu, ainda de dentro da caixa de transporte ela foi atingida em cheio por um turbilhão de cheiros que se amalgamavam em uma mistura surpreendentemente familiar. Havia aromas de grama molhada, mesclados à fumaça de madeira queimada e um agradável perfume natural que a salsicha tinha gravado no fundo da memória: das araucárias na temporada do pinhão.
Depois que a portinha da jaula se abriu e Lena saiu, esticando os músculos e as vértebras comprimidas em um longo espreguiçar, pode enfim ver onde estava. Chacoalhando as orelhas para terminar de despertar por completo, correu os olhos ao redor, impressionada. Era o maior gramado que já tinha visto, distribuído em um leve declive coalhado de árvores, inclusive algumas enormes, de onde vinha o perfume delicioso, além de um pequeno lago no centro.
A cachorrinha ainda observava extasiada a paisagem quando foi surpreendida por um latido grave. Voltando-se, viu um grande pastor alemão e uma cadela de porte médio e olhar faiscando de raiva, correndo em sua direção. Lena rapidamente deitou-se de barriga para cima, em sinal claro de submissão, com os olhos bem arregalados, na esperança que a postura fosse suficiente para 
salvá-la. Logo ouviu um grito forte:
“Ah! Gaúcho! Purga! Já pra lá, seus demônio!”
Os dois cachorros abaixaram as orelhas e recuaram, obedientes. Levantando a cabeça, a salsicha viu pela primeira vez aquele homenzarrão de cabelos loiros e riso aberto se aproximando dela.
“Então essa que é a Baleia véia?”, disse, abaixando-se e afagando com carinho a cabeça da cachorrinha. “Mas óia que até que é bem ajeitada! Bonita demais”, continuou, olhando para o dono, enquanto colocava a salsicha sobre as quatro patas para avaliá-la melhor.
Não sabia por que, mas desde o princípio simpatizara com o homem. Não que gostasse muito de gente, com exceção dos donos, mas Gabriel se mostraria tão generoso quanto o Tio Cris. Não conhecia ninguém que lhe desse tanta comida quanto ele – quando ia alimentar os outros cachorros ela ganhava um tanto semelhante da saborosa mistura de arroz, carnes indeterminadas e gordura crua, que comia até o fim, sem deixar nada na vasilha.
Ah, como se comia bem por ali. Com as generosas porções servidas por Gabriel não passava nem perto da ração, que ficava dias abandonada. Além disso, sempre havia uma apetitosa variedade de frutos caídos das árvores, espalhados pela grama - que os dois cachorros desprezavam, mas ela não. Lena se deliciava com os caquis, pitangas, romãs e figos, além dos nutritivos pinhões, que aprendeu a descascar pacientemente com os dentinhos da frente, cozidos ou crus, para se empanturrar com a massa esbranquiçada e macia do interior.
Purga e seu olhar maligno
Depois do primeiro contato tumultuado, estabeleceu uma relação amigável com Gaúcho, que se mostrou um hospitaleiro boa-praça, levando-a a conhecer os recantos e segredos do terreno. O pastor até tentou - sem sucesso - ensiná-la a caçar passarinhos, atividade em que era exímio. Desajeitada e barulhenta, a salsicha espantava os tico-ticos, rolinhas e bem-te-vis antes de conseguir se aproximar daqueles emplumados.
Da Purga não podia dizer o mesmo. A cadela de expressivos e malignos olhos cor de mel – uma mistura de fox paulistinha e glorioso sangue vira-lata – não se rendeu à intrusa. Quando Lena se aproximava, a reação era a mesma: dentes à mostra e um rosnado discreto, para não atrair a atenção de Gabriel, mas incisivo o suficiente para deixar claro que não tinha interesse na amizade sinalizada pelo rabo chacoalhante da salsicha. No início aquilo assustava Baleia, mas depois percebeu que a postura era mais protocolar do que agressiva e um acordo tácito se estabeleceu entre as duas, que conviviam bem – à distância.
Lena voltaria muitas vezes àquele lugar e sempre havia novidades. Na segunda visita que fez a Lages (SC) não encontrou mais seu amigo Gaúcho. Só de noite conseguiu extrair a notícia de uma triste e amargurada Purga: o pastor morrera após levar um coice de boi, ela lhe informou, fazendo questão de mostrar um lado do focinho em que faltavam três ou quatro dentes, cicatrizes da interminável guerra com os cavalos.
A salsicha não sabia o que eram bois ou cavalos, mas quase pode sentir a dor da pancada que desfalcara a arcada dentária de Purga. Na visita anterior já tinha sido apresentada à selvagem vida canina lageana, ao testemunhar uma caçada dos dois cachorros a um malcheiroso roedor, encurralado junto a um dos muros do terreno e morto a dentadas e violentos chacoalhões pela cadela. Durante a luta, o peludo soltou um agressivo odor almiscarado, que Lena mal podia suportar mesmo a seguros dez metros da cena. Cumprida a missão, o cheiro odioso ficou impregnado nos dois – sentindo o fedor no dia seguinte, Gabriel prendeu os dois juntos e aplicou-lhes um banho de sabão de coco e água gelada, na fria manhã de inverno. Essa foi a única recompensa pela valentia noturna.
Bugra
Aliás, se existia uma coisa que a desagradava nas visitas a Lages era o frio. Não sabia por que, mas ali só era admitida dentro de casa durante o dia e era obrigada a passar a noite na churrasqueira, onde invariavelmente tremia por alguns minutos debaixo do cobertor xadrez, até se aquecer e conseguir pegar no sono. Enquanto isso, os outros cachorros dormiam ao relento, na grama. Só nas noites mais geladas entravam na pequena despensa debaixo da casa, que era deixada com a porta aberta. Não era de admirar que eles não durassem muito...
Na visita seguinte, o lugar de Gaúcho tinha sido ocupado por Soho, um ruivo Australian Catle Dog de sorriso maroto e temperamento imprevisível. Com ele Lena se deu bem, divertindo-se em brincadeiras pelo gramado – mas sempre com certa desconfiança, ele parecia querer passar-lhe para trás de alguma forma.
Os endemoniados
Ao voltar a Lages novamente, ele tinha ganhado uma companheira, da mesma raça, só que com o pelo salpicado de manchas cinza-azuladas. Pior, Bugra tinha acabado de parir a primeira ninhada e Lena se deparou com uma gangue de oito endemoniados peludinhos, que passavam o dia a atormentá-la. Quando estavam em dois ou três, ela ainda conseguia resistir e afastá-los com ranger de dentes e uma ou outra abocanhada a esmo, desferida para atingir só o ar. Mas quando se mancomunavam e vinham todos juntos, o remédio era disparar para o outro lado do terreno, despistando os diabos ainda trôpegos demais para acompanhar a veloz salsicha.
Cacique
Lena se surpreenderia mesmo na outra visita: não havia sinal dos filhotes e Soho desaparecera, em mais uma morte trágica, que dessa vez Purga não se dignou a esclarecer. No lugar dele surgira um gigante branco, com uma cabeça descomunal, quase do tamanho da salsicha - e certamente mais pesada do que ela.
Era chamado de Cacique e - isso Purga apressou-se em lhe contar, com um indisfarçável ar malévolo turvando os olhos cor de mel – era especializado em caçar javalis. Lena não sabia o que era um javali, mas pela descrição da cadela, que fez questão de descrever em detalhes as afiadas presas que saíam para fora da boca do animal, parecia bem pouco amistoso.
Baleia e Cacique
Ao contrário do que todo aquele tamanho podia indicar, porém, Cacique se mostrou tão boa-praça quanto o velho Gaúcho – e até mais disposto a brincadeiras, embora qualquer atividade com aquele gigante exigisse atenção redobrada. Uma vez quase a jogou para dentro do lago, com uma inocente e inadvertida rabada.
Lena nunca sabia o que ia encontrar em suas idas à terra natal, carregadas de surpresas, ora boas, ora más. As frutas espalhadas pelo gramado mudavam, fazia mais ou menos frio e cachorros iam e vinham – só Purga seguia sempre lá, sobrevivendo aos invernos, um pouco mais grisalha, surda e ranzinza a cada visita.

Olha a Baleia em Lages:

 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O grande pesadelo

Os sinais estavam todos lá, à vista. A dona tirava coisas do grande monolito que se abria e as empilhava sobre a cama, enquanto o dono percorria a casa, fechando as janelas. Lena esperava pacientemente, deitada na caminha já colocada no meio da sala, ao lado das vasilhas e do saco de ração, tentando imaginar para onde seria a viagem.
Trazida a jaulinha, a salsicha fez o charme de sempre antes de ser posta para dentro e começar a mastigar o biscrok, a caminho do carro. Deitada com a cabeça sobre as patas, ela ainda tentava pegar no sono, embalada pelo balanço do veículo em movimento, até que tudo parou. Os donos saíram, abrindo a porta traseira para recolhê-la.
O que tinha acontecido? Dessa vez tinha certeza que não tinha dormido e a nenhum lugar que conhecia se chegava tão rápido assim... Curiosa, Lena farejava, o focinho encostado na grade da portinhola de entrada, tentando focar a vista no balançar sísmico da jaula sendo carregada pelo dono.
Uma campainha soou e logo em seguida uma porta se abriu. Pela grade, a visão que se revelou fez correr um arrepio gelado pela espinha da salsicha, até a ponta do rabo. De braços abertos, sorridente, a enorme mulher de branco apareceu para recebê-la: “Baleia! Que bonitinha, na jaulinha...”
Uma lufada de vento trouxe de dentro da casa a odiosa mescla de cheiros de que se lembrava bem, uma mistura da substância gelada que tinham lhe esfregado no lombo antes das picadas com odores de diversos cachorros desconhecidos. Aquilo de novo? Toda aquela tortura outra vez?
Aterrorizada, Lena se encolheu no fundo da caixa de plástico, nem um pouco disposta a sair, mesmo depois de aberta a portinhola e dos chamados do dono.
“Vem, Leninha, não faz charme...”, ele disse, enfiando o braço dentro da jaula, agarrando-a pelo tronco e a puxando para fora.
No colo do dono, foi levada para dentro da casa, seguindo os passos da mulher de branco, até chegarem a um grande salão. Tremendo, Lena virou a cabeça para observar o cenário, e se não estivesse firmemente segura teria esfregado as patinhas nos olhos para se certificar do que via: as paredes eram cobertas de jaulas de concreto, pouco maiores que a dela, umas sobre as outras, em três níveis. Bom, pelo menos não havia sinal da gelada mesa de metal...
A mulher de branco abriu uma das unidades térreas, oposta à porta da sala, e a dona colocou sua caminha e a vasilha de água lá dentro, o que ocupou quase todo o espaço interior. Em seguida o dono abaixou-se e delicadamente pousou-a sobre o cobertor, afagando-a na cabeça: “Fica bem, Leninha...”
Em choque, a cachorrinha viu a grade se fechar à sua frente e mal teve tempo de soltar um choro sentido antes de todos terem ido embora, fechando a porta. Estava só...
Estava só? Não, não estava só. A maioria das jaulas estava vazia, mas na parede oposta à em que estava viu algo se mexer. Estreitando os olhos, Lena pode identificar o estranho ser encarando-a. Era pouco maior que ela, com uma forma atarracada, coberto de pelos de um bege bem claro, quase brancos. Mas a cabeça... O que era aquilo? Quase não tinha focinho, só um amontoado de rugas negras que terminavam em um pequeno nariz preto e brilhante – resfolegava sem parar, com uma comprida língua rosada para fora. Só percebeu que era um cachorro pelo latido que ouviu depois, um ruído rouco e estrangulado.
Em uma das paredes laterais, Lena enxergou outro cão. Minúsculo – tinha a cabecinha coberta por longos e finos pelos, numa mescla de tons dourados, presos em duas ridículas chuquinhas -, saudou-a produzindo um latido agudo.
O que significava aquilo? O que fazia ali? Por que os donos a tinham deixado? Quanto tempo ficaria naquela jaula? A manhã se arrastou lenta para Lena. Não conseguia dormir, a cabeça pesada de dúvidas.
Muito tempo depois, a porta da sala se abriu e a grande mulher de branco entrou, carregando um cachorro branco não muito maior que ela, de pelo bem crespo, que se avolumava em um estranho topete sobre a cabeça e na ponta do rabo. Desesperado, ele se contorcia freneticamente, na tentativa de escapar, enquanto gania sem parar.
Trancado na jaula ao lado do ser sem focinho, começou a latir assim que a porta da sala se fechou. Vendo que o protesto não surtia efeito, passou a roer nervosamente a placa de metal vazada que o mantinha preso ali, causando um ruído irritante que se prolongou tarde adentro, afastando qualquer possibilidade de Lena dormir.
Insone, a salsicha se revirava na cama, cada vez mais preocupada. Será que tinha feito algo para estar ali? Seria culpa dela, afinal? Será que a toca escavada no sofá... Mas isso já fazia tanto tempo...
A sala começava a ficar mais escura quando o desesperado Poodle finalmente desistiu da tentativa de fuga, esgotado, sem conseguir mais do que provocar uns poucos arranhões na porta da jaula. Aliviada, Lena ajeitou-se para dormir. Mas não houve tempo - a porta da sala se abriu, dando passagem novamente à grande mulher de branco.
“Hora do passeio!”
Lena foi a primeira a ser retirada da jaula, levada para fora e solta no imenso jardim gramado em declive, na frente do casarão. Apressada, disparou em uma longa volta em torno do terreno, à procura de um ponto de escape, sem sucesso - tudo estava solidamente cercado por uma grade de metal. Sem alternativa, fez as necessidades ao pé de uma roseira e passou os minutos seguintes tentando manter distância do ser sem focinho que a perseguia.
De volta à jaula, havia ração na vasilha e água fresca, mas não tinha fome. No escuro da noite, enquanto o Poodle retomava as escavações e o sem focinho roncava sonoramente, Lena fazia força para conciliar o sono, dominada pela tristeza. Só queria se deixar afundar no torpor, para esquecer por alguns instantes que estava ali...
Cansada dos próprios pensamentos, a salsicha enfim adormeceu. No dia seguinte, quando a porta da sala se abriu, uma outra mulher apareceu para tirá-la da cela e franquear o acesso ao jardim. Dessa vez nem se deu ao trabalho de tentar escapar, limitou-se a se aliviar e observar mais de perto o sem focinho, que resfolegava atrás dela.
O dia passou devagar, irritante. Percebendo que não conseguiria arrombar a jaula, o Poodle passou a chorar baixinho, em um gemido que se arrastou pela tarde, até que a mesma mulher da manhã viesse soltá-los para o passeio do crepúsculo.
Naquela noite finalmente o silêncio tomou conta do salão. O Poodle dormia com a cabeça pressionada junto à grade, os tufos de pelo do topete espremidos para fora, pelos vãos quadriculados. O sem focinho ressonava pesadamente e não havia sinal do minúsculo cãozinho dourado, absorvido pelas cobertas coloridas da própria cama.
Lena caiu em um sono profundo. Sonhou que andava no Fusca do dono, sentindo o sol no focinho e um vento agradável jogando as orelhas para trás. Olhou para o lado e se deu conta de que estava sozinha dentro do carro em movimento, e ao volante! Lá fora, adiante, a dona esperava em uma esquina, com sua caminha nas mãos. Para seu espanto, passou por ela sem conseguir parar.
Um pouco mais à frente enxergou o Tio Cris, com um suculento espeto de churrasco nas mãos, cercado por Branca e Totti. Os dois cachorros salivavam, olhos fixos na carne pingando. Deixou-os para trás também, sem poder fazer nada.
O Fusca ganhava velocidade, contra a vontade de Lena, que comprimia as patinhas sobre a direção, sem saber o que fazer. Enxergou o dono no meio da rua, acenando para ela de braços abertos, com um grande sorriso, mas em seguida viu-o obrigado a saltar para a calçada, para não ser atropelado pelo carro desembestado.
Assustada, Lena se voltou para trás, mas o dono tinha sumido. Olhando para baixo, percebeu que o banco do Fusquinha em que estava em pé estava destruído, transformado em um amontoado de espuma mastigada e tecido rasgado.
Em desespero, a salsicha virou-se novamente para frente, a tempo de ver uma imensa parede formada por jaulas, para onde se dirigia em alta velocidade. Não sabia o que fazer, ia bater, ia...
Acordou de um salto, soltando um gemido abafado. Suando, ainda escutava o ruído do Fusca acelerando em direção ao desastre. Chacoalhou com força a cabeça, fazendo as orelhas estalarem, para despertar por completo. Ainda assim, continuava a ouvir o característico barulho do motor, cada vez mais forte. Não era possível... Ou era?
A porta da sala se abriu e a grande mulher de branco entrou, seguida pelo dono. Sem conter a alegria, Lena saltava dentro da jaula, jogando as patas contra a porta de metal, que foi aberta em seguida. Chorando baixinho, aproximou-se rastejando do dono e passou a lamber carinhosamente suas mãos, depois o nariz e os olhos, ao ser erguida no colo.
Teve tempo de lançar um último olhar pelo salão antes de ser apresentada à caixa de plástico. Os três companheiros de cela observavam a saída dela, o Poodle com olhar de inveja, o cãozinho dourado sem expressão e o sem focinho passando a língua rosada pelo minúsculo nariz brilhante.
Não fez charme nenhum, entrou correndo na jaulinha assim que a portinhola foi aberta. Carregada para o Fusca, Lena foi chorando até em casa – mas desta vez de alegria.

Explicação
Sempre evitamos ao máximo deixar a Baleia em hoteizinhos para cachorro – ela sempre ia com a gente nos finais de semana, para onde fossemos. Mas daquela vez ia ser difícil, o casamento era em São Paulo (SP) e a viagem era de avião.
Foi a primeira vez que a deixamos no canil – entre sábado de manhã e as primeiras horas de segunda-feira. Acho que foi a vez em que vi a Baleia mais feliz por me ver, quando fui resgatá-la. Ela me lambia sem parar e continuou a fazer isso por uns dois ou três dias, sempre que me encontrava.
Depois, voltou a ser a Lena diaba de sempre.