Grandes privilégios, porém, vêm acompanhados de ainda maiores responsabilidades, Lena logo descobriu. Desde cedo, depois que os donos saíam para o trabalho, tinha que defender, sozinha, todo aquele território. Agora compreendia a ansiedade do cachorrão na casa do Tio Cris, que latia para qualquer coisa que se aproximasse...
Avaliando a situação, Lena decidiu que era preciso estabelecer desde o início uma reputação, se queria manter o respeito na vizinhança. Era preciso mostrar de cara que não estava para brincadeiras, para provar que uma salsicha daquele tamanho tinha, sim, condições de tomar conta da própria casa. A estratégia era simples: receber com raiva, ódio e rancor quem ou o que se aproximasse do portão, fosse humano, cão, gato, pássaro, bicicleta, moto ou carro.
No começo a tática mostrou-se extremamente
cansativa, ainda mais para quem estava acostumada a passar a maior parte do dia
dormindo, no sossego do apartamento hermético. Ali, não. Ali era trabalho, das
8h às 18h, sete dias por semana, chovesse ou fizesse sol. Aos poucos, porém,
Lena foi se integrando ao bairro e aos seus personagens.
| À espera das pretas |
Se viviam soltas pela rua e podiam ir onde bem
entendessem, por que vinham duas vezes ao dia provocá-la? Era inadmissível! A
presença delas despertava um sentimento mesclado de indignação e inveja na
salsicha, que não fugia do combate. Quando as cadelas passavam correndo, rente
à grade, latindo e rosnando, Lena as acompanhava com a mesma agressividade, os
focinhos a centímetros de distância, mas sem nunca se tocar. O confronto durava
tempo suficiente para três corridas ao longo do portão, depois do que, como que
satisfeitas, as duas pretas davam as costas a ela e desciam a rua, trotando
orgulhosamente.
Pelo menos era assim que o velho o chamava –
conversava sem parar com o vira-lata de tamanho médio, todo branco, com um ar
pacífico e cansado. A primeira reação da salsicha em relação à dupla foi de
desconfiança, recebendo-os com latidos, mas logo percebeu que vinham em paz.
Além disso, depois vira o homem conversando com os donos, sempre um bom sinal.
Em uma dessas vezes, o velho revelou ao dono por que
levava o cão preso à corrente. Em tom de confidência, bem sério, assegurou: “O
Loro tem mola nas pernas! Se deixar, ele salta por cima dessa grade!”, disse, apontando para o portão da casa.
| Seu Alfredo e o Loro |
O velho adorava a cachorrinha, aproximando a mão do
portão a cada visita, às vezes retribuída com uma lambida de Lena. Sempre que
encontrava o dono, perguntava quando iam “tirar uma cria da salsicha”, com um
ar mal disfarçado de segundas intenções. “Já pensou que filhotes lindos não iam
sair do Loro com a Baleia?”, dizia, apontando orgulhoso para o vira-lata meio
amarelado de sujeira.
O dono desconversava, com delicadeza. “É mesmo. Só
que eu acho que ele é muito grande pra ela...”
Com o Loro, Lena sabia que tinha de tomar um único
cuidado: ele se aproximava da grade para cheirá-la e logo em seguida levantava
a pata traseira, soltando um jato de xixi para dentro do portão – ao que se
seguia uma pouco efetiva bronca do velho. Se não fosse rápida, a salsicha podia
se molhar.
Os meses se passaram e Lena já estava bem adaptada à
nova casa, a ponto de ter automatizado a rotina diária. Um dia, a visita
matutina das pretas falhou. Não era a primeira vez, quando estava chovendo elas
não apareciam – ao contrário do Loro e do velho, que nunca falhavam, com ou sem
guarda-chuva. Mas naquela manhã não chovia.
No final da tarde, Lena viu, do canto do portão, uma das pretas subindo a rua. Estreitou os olhos no lusco-fusco do entardecer, mas só conseguia enxergar mesmo uma das cadelas, que caminhava devagar, em um passo arrastado.
No final da tarde, Lena viu, do canto do portão, uma das pretas subindo a rua. Estreitou os olhos no lusco-fusco do entardecer, mas só conseguia enxergar mesmo uma das cadelas, que caminhava devagar, em um passo arrastado.
Lentamente, ela se aproximou da grade, onde a
salsicha já esperava, atenta, pronta para oferecer o bom combate de todo dia.
A preta não latiu nem rosnou. De cabeça baixa,
aproximou-se do portão, deixando escapar um gemido baixinho. Baleia olhou ao
redor, sem entender, ainda à procura da outra cadela. Mas não havia nada.
Dessa vez Lena também não latiu – atravessou o
focinho pela grade e deu uma leve lambida na cara da inimiga, que retribuiu o
carinho. Cabisbaixa, ela se virou e seguiu seu caminho rua acima, sem olhar
para trás.
Lena não voltaria a
ver nenhuma das pretas.
Lu, que legal conhecer os "amigos" de Lena! bjs VM
ResponderExcluir