Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Loro e as pretas

Aquilo, sim, era vida. Não precisava mais passar o dia à espera dos donos, para sair daquele cubículo fechado por alguns minutos. Ali não, as coisas aconteciam ao seu redor! Na frente da casa, a grade corrediça dava visão privilegiada para a rua, descortinando todo um novo mundo para a salsicha. Tinha um gramado só para ela, e, se quisesse, podia até tomar chuva – não que gostasse disso, mas podia. 
Grandes privilégios, porém, vêm acompanhados de ainda maiores responsabilidades, Lena logo descobriu. Desde cedo, depois que os donos saíam para o trabalho, tinha que defender, sozinha, todo aquele território. Agora compreendia a ansiedade do cachorrão na casa do Tio Cris, que latia para qualquer coisa que se aproximasse...
Avaliando a situação, Lena decidiu que era preciso estabelecer desde o início uma reputação, se queria manter o respeito na vizinhança. Era preciso mostrar de cara que não estava para brincadeiras, para provar que uma salsicha daquele tamanho tinha, sim, condições de tomar conta da própria casa. A estratégia era simples: receber com raiva, ódio e rancor quem ou o que se aproximasse do portão, fosse humano, cão, gato, pássaro, bicicleta, moto ou carro.
No começo a tática mostrou-se extremamente cansativa, ainda mais para quem estava acostumada a passar a maior parte do dia dormindo, no sossego do apartamento hermético. Ali, não. Ali era trabalho, das 8h às 18h, sete dias por semana, chovesse ou fizesse sol. Aos poucos, porém, Lena foi se integrando ao bairro e aos seus personagens.
Todo dia, pela manhã e de tarde, aquelas duas apareciam para lhe tirar o sossego. Não entendia como podiam andar por aí, soltas assim, sem coleira, sem donos - o absurdo da situação a irritava ainda mais.
À espera das pretas
Eram bastante parecidas, um pouco maiores do que ela, com uma capa de pelos bem escuros cobrindo o dorso e patas de um bege amarelado. Inseparáveis, apareciam sempre juntas e faziam questão de chegar bem perto do portão, rosnando e latindo. Lena as recebia no mesmo tom, os dentes cerrados e a cernelha de pelos ouriçada nas costas.
Se viviam soltas pela rua e podiam ir onde bem entendessem, por que vinham duas vezes ao dia provocá-la? Era inadmissível! A presença delas despertava um sentimento mesclado de indignação e inveja na salsicha, que não fugia do combate. Quando as cadelas passavam correndo, rente à grade, latindo e rosnando, Lena as acompanhava com a mesma agressividade, os focinhos a centímetros de distância, mas sem nunca se tocar. O confronto durava tempo suficiente para três corridas ao longo do portão, depois do que, como que satisfeitas, as duas pretas davam as costas a ela e desciam a rua, trotando orgulhosamente.
Havia também o Loro. Este não vinha sozinho, era trazido todo dia, de manhã e ao final da tarde, por um homem de cabeça branca e andar trôpego, preso em uma corrente de finos elos de metal, que aos olhos de Lena não parecia nada confortável.
Pelo menos era assim que o velho o chamava – conversava sem parar com o vira-lata de tamanho médio, todo branco, com um ar pacífico e cansado. A primeira reação da salsicha em relação à dupla foi de desconfiança, recebendo-os com latidos, mas logo percebeu que vinham em paz. Além disso, depois vira o homem conversando com os donos, sempre um bom sinal.
Em uma dessas vezes, o velho revelou ao dono por que levava o cão preso à corrente. Em tom de confidência, bem sério, assegurou: “O Loro tem mola nas pernas! Se deixar, ele salta por cima dessa grade!”, disse, apontando para o portão da casa.
Seu Alfredo e o Loro
Lena se considerava uma boa saltadora. Apesar das pernas curtas, conseguia impulso suficiente para alcançar guloseimas nas mãos de quem lhe oferecia. Ainda assim, nunca passara por sua cabeça a ideia de saltar sobre a grade, bem mais alta que o dono, já um gigante para ela. Ainda mais com aqueles ferros afiados que apontavam para o céu.
O velho adorava a cachorrinha, aproximando a mão do portão a cada visita, às vezes retribuída com uma lambida de Lena. Sempre que encontrava o dono, perguntava quando iam “tirar uma cria da salsicha”, com um ar mal disfarçado de segundas intenções. “Já pensou que filhotes lindos não iam sair do Loro com a Baleia?”, dizia, apontando orgulhoso para o vira-lata meio amarelado de sujeira.
O dono desconversava, com delicadeza. “É mesmo. Só que eu acho que ele é muito grande pra ela...”
Com o Loro, Lena sabia que tinha de tomar um único cuidado: ele se aproximava da grade para cheirá-la e logo em seguida levantava a pata traseira, soltando um jato de xixi para dentro do portão – ao que se seguia uma pouco efetiva bronca do velho. Se não fosse rápida, a salsicha podia se molhar.
Os meses se passaram e Lena já estava bem adaptada à nova casa, a ponto de ter automatizado a rotina diária. Um dia, a visita matutina das pretas falhou. Não era a primeira vez, quando estava chovendo elas não apareciam – ao contrário do Loro e do velho, que nunca falhavam, com ou sem guarda-chuva. Mas naquela manhã não chovia.
No final da tarde, Lena viu, do canto do portão, uma das pretas subindo a rua. Estreitou os olhos no lusco-fusco do entardecer, mas só conseguia enxergar mesmo uma das cadelas, que caminhava devagar, em um passo arrastado.
Lentamente, ela se aproximou da grade, onde a salsicha já esperava, atenta, pronta para oferecer o bom combate de todo dia.
A preta não latiu nem rosnou. De cabeça baixa, aproximou-se do portão, deixando escapar um gemido baixinho. Baleia olhou ao redor, sem entender, ainda à procura da outra cadela. Mas não havia nada.
Dessa vez Lena também não latiu – atravessou o focinho pela grade e deu uma leve lambida na cara da inimiga, que retribuiu o carinho. Cabisbaixa, ela se virou e seguiu seu caminho rua acima, sem olhar para trás.
Lena não voltaria a ver nenhuma das pretas.

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