Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Hora do passeio



Sem dúvida, era o momento mais esperado do dia, mais até do que quando recebia comida – aquela ração seca e insossa. Era a hora de sair para a rua, sentir os cheiros do mundo, caminhar sobre a grama, latir à vontade, verificar se os limites do império ainda estavam intactos e reforçar as fronteiras do território com xixi fresco.
Da mesma forma que aprendera a intuir as outras rotinas da casa, Lena percebeu logo a ordem naquilo. Os donos a levavam duas vezes por dia, de manhã e à noite - o problema é que havia falhas no sistema e a saída matutina podia ficar prejudicada. Ainda não tinha conseguido descobrir por que, mas já notara que isso acontecia quando eles saíam apressados, sem nem comer nada – o que resultava em prejuízo duplo para a salsicha, sempre contando com os pedacinhos de pão regalados durante o café da manhã.
Às vezes perdia até mesmo a saída da noite, quando surgia o mais imprevisível contratempo da vida de Lena: chuva. Não fazia diferença, podiam ser só algumas gotas esparsas que mal molhavam, ou uma cortina líquida que encharcava os pelos quase instantaneamente – se caía água do céu, nada de ir para a rua. Ah, e como chovia naquele lugar... Passava dias sem sair de casa.
Escurecia, clareava e nada, o mundo continuava a despencar céu abaixo, deixando uma umidade tão carregada no ar que formava pequenas gotas nas paredes, lambidas pela entediada salsicha. Só lhe restava se enfiar caminha adentro e esperar, amuada, debaixo do cobertor quadriculado.
Mesmo nos dias normais, havia um ritual a cumprir, que a cachorrinha já conhecia do começo ao fim. No início era mais simples, mas como o dono adorava um suspense, foi ficando mais rebuscado.
Lena aprendeu cedo o significado daquele conjunto de sons, que adicionou logo ao repertório dos seus 13 apelidos. Se escutava “passeio”, já começava a saltitar, antecipando a saída para a rua. Mas o dono resolveu complicar um pouco.
Antes ele simplesmente a chamava e convidava: “Lena, vamos passear?” Agora, o aviso vinha em etapas. Claro que ela sabia o que vinha depois, mas não custava nada fazer a vontade dele.
O dono se sentava no sofá e provocava: “Lena, vamos fazer uma coisa legal?” Também tinha aprendido a associar o combinado de sons com o passeio, mas mantinha a encenação. Pulava sobre o sofá e se sentava sobre as patas traseiras, atenta.
Ele dava sequência ao ato: “Vem, Lena... Não quer ser avisada?”
Sim, sim, sigamos com a performance. Lena se aproximava e se deitava de lado, a cabeça apoiada sobre as coxas do dono e as patinhas da frente escalando o ar. Ele se inclinava e, com as duas mãos em concha, sussurrava baixinho na orelha da salsicha: “Passeio!”
Pronto, ato completo. Saía saltitando pela sala, enquanto o dono ia buscar a guia, satisfeito. Agora era ela quem estava com a vantagem e retardava ao máximo a colocação daquele arreio. Negaceava, corria em volta da mesa, até levar a bronca que a fazia deitar de barriga para cima, fingindo-se inocente - era sua pequena vingança.
Com a dona era diferente. Às vezes ela chegava em casa no final do dia e deitava no sofá. Mas como assim? Era hora de sair para a rua! Saltava sobre a manta com que ela se cobria e começava a fazer pressão, encarando-a fixamente. Fabi fechava os olhos e fingia dormir, mas a salsicha não desistia – sacudia o corpo como se estivesse a tomar impulso para um salto, soltando rosnados de indignação.
Se a dona insistisse em continuar deitada, passava aos latidos, ao que sempre obtinha a capitulação, garantindo o passeio. O artifício não funcionava com o dono, mas com Fabi sim. Afinal, tinha que mandar em alguém naquela casa...

Lena, Fabi e o graffiti do Centreventos
Explicação
Lá é verdade que o nosso dia a dia está longe de ser imprevisível, mas a Baleia desenvolveu uma capacidade notável de leitura das situações, especialmente quando se trata de algo em que ela esteja diretamente envolvida.
As palavras “passeio” ou “passear” acabaram sendo vetadas no nosso vocabulário, substituídas por algo menos chamativo: “Vamos levar a Lena para fazer ‘aquilo’?” A confusão se instala quando alguma visita em casa inadvertidamente solta uma das duas – a salsicha começa imediatamente a saltitar, à espera da guia.
Quanto à encenação do “aviso”, não sei até hoje quem manipula quem – de qualquer forma, a brincadeira é divertida para os dois. Mas em relação à Fabi, não há dúvida sobre quem manda. É a dominação de Lena.

Olha a correria da Baleia no passeio:

 

Um comentário:

  1. Lu, só você acredita que a Lena domine a Fabi! Ela ama a Fabi! bj VM

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