Da mesma forma que aprendera a intuir as outras
rotinas da casa, Lena percebeu logo a ordem naquilo. Os donos a levavam duas
vezes por dia, de manhã e à noite - o problema é que havia falhas no sistema e a
saída matutina podia ficar prejudicada. Ainda não tinha conseguido descobrir
por que, mas já notara que isso acontecia quando eles saíam apressados, sem nem
comer nada – o que resultava em prejuízo duplo para a salsicha, sempre contando
com os pedacinhos de pão regalados durante o café da manhã.
Às vezes perdia até mesmo a saída da noite, quando
surgia o mais imprevisível contratempo da vida de Lena: chuva. Não fazia
diferença, podiam ser só algumas gotas esparsas que mal molhavam, ou uma
cortina líquida que encharcava os pelos quase instantaneamente – se caía água
do céu, nada de ir para a rua. Ah, e como chovia naquele lugar... Passava dias
sem sair de casa.
Escurecia, clareava e nada, o mundo continuava a despencar
céu abaixo, deixando uma umidade tão carregada no ar que formava pequenas gotas
nas paredes, lambidas pela entediada salsicha. Só lhe restava se enfiar caminha
adentro e esperar, amuada, debaixo do cobertor quadriculado.
Mesmo nos dias normais, havia um ritual a cumprir,
que a cachorrinha já conhecia do começo ao fim. No início era mais simples, mas
como o dono adorava um suspense, foi ficando mais rebuscado.
Lena aprendeu cedo o significado daquele conjunto de
sons, que adicionou logo ao repertório dos seus 13 apelidos. Se escutava
“passeio”, já começava a saltitar, antecipando a saída para a rua. Mas o dono
resolveu complicar um pouco.
Antes ele simplesmente a chamava e convidava: “Lena,
vamos passear?” Agora, o aviso vinha em etapas. Claro que ela sabia o que vinha
depois, mas não custava nada fazer a vontade dele.
O dono se sentava no sofá e provocava: “Lena, vamos
fazer uma coisa legal?” Também tinha aprendido a associar o combinado de sons
com o passeio, mas mantinha a encenação. Pulava sobre o sofá e se sentava sobre
as patas traseiras, atenta.
Ele dava sequência ao ato: “Vem, Lena... Não quer
ser avisada?”
Sim, sim, sigamos com a performance. Lena se
aproximava e se deitava de lado, a cabeça apoiada sobre as coxas do dono e as
patinhas da frente escalando o ar. Ele se inclinava e, com as duas mãos em
concha, sussurrava baixinho na orelha da salsicha: “Passeio!”
Pronto, ato completo. Saía saltitando pela sala,
enquanto o dono ia buscar a guia, satisfeito. Agora era ela quem estava com a
vantagem e retardava ao máximo a colocação daquele arreio. Negaceava, corria em
volta da mesa, até levar a bronca que a fazia deitar de barriga para cima,
fingindo-se inocente - era sua pequena vingança.
Com a dona era diferente. Às vezes ela chegava em
casa no final do dia e deitava no sofá. Mas como assim? Era hora de sair para a
rua! Saltava sobre a manta com que ela se cobria e começava a fazer pressão,
encarando-a fixamente. Fabi fechava os olhos e fingia dormir, mas a salsicha
não desistia – sacudia o corpo como se estivesse a tomar impulso para um salto,
soltando rosnados de indignação.
Se a dona insistisse em continuar deitada, passava
aos latidos, ao que sempre obtinha a capitulação, garantindo o passeio. O
artifício não funcionava com o dono, mas com Fabi sim. Afinal, tinha que mandar
em alguém naquela casa...
| Lena, Fabi e o graffiti do Centreventos |
Explicação
Lá
é verdade que o nosso dia a dia está longe de ser imprevisível, mas a Baleia
desenvolveu uma capacidade notável de leitura das situações, especialmente
quando se trata de algo em que ela esteja diretamente envolvida.
As
palavras “passeio” ou “passear” acabaram sendo vetadas no nosso vocabulário,
substituídas por algo menos chamativo: “Vamos levar a Lena para fazer ‘aquilo’?”
A confusão se instala quando alguma visita em casa inadvertidamente solta uma
das duas – a salsicha começa imediatamente a saltitar, à espera da guia.
Quanto à encenação do “aviso”, não sei até hoje
quem manipula quem – de qualquer forma, a brincadeira é divertida para os dois.
Mas em relação à Fabi, não há dúvida sobre quem manda. É a dominação de Lena.Olha a correria da Baleia no passeio:
Lu, só você acredita que a Lena domine a Fabi! Ela ama a Fabi! bj VM
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