Lena aprendia rápido. Poucas semanas depois da mudança para a casa no Costa e Silva, ela já sabia identificar uma série de sinais e ruídos úteis no novo ambiente. Essa foi a forma que a pequena salsicha encontrou para manter o controle do território – percebera logo cedo que não poderia contar com muita ajuda, já que os donos saíam pouco depois do amanhecer e voltavam só de noite. Assim, conseguiu estabelecer uma rede de informações sonoras que permitiam a ela saber o que se passava na frente da casa, mesmo estando nos fundos, e vice-versa.
| Baleia no portão |
Quanto mais sonoro, mais facilmente o ruído era assimilado pela cachorrinha. O acionar do motor do Fusca do dono, por exemplo, assustava-a e a fazia correr para o fundo da casa nas primeiras vezes em que viu o carrinho arredondado sendo posto em funcionamento. Agora, já não tinha mais medo e podia adivinhar a chegada dele ao ouvir o bravo Volkswagen de longe, dobrando a esquina, a duas quadras de distância. Talvez por isso sentisse certa simpatia pelo velho Fusquinha branco – ele não se escondia em ruídos traiçoeiros e sem personalidade como o brilhante carro da dona, igual a todos os outros, que Lena só conseguia escutar quando embicava no portão.
| Baleia e o Fusca 1968 |
A salsicha aprendeu, porém, que alertas menos
ruidosos tinham potencial igualmente relevante. O som que as pessoas faziam ao
bater uma mão na outra - que durante o dia podiam ser confundidas com as
marteladas ritmadas da obra na esquina – indicavam a ela que havia uma ameaça
no portão. Podia ser o odiado homem vestido de amarelo que vivia cheio de
pacotes nas mãos ou uma daquelas mulheres cobertas por saias até as canelas e
longas crinas presas em uma espécie de rabo, que escorria da cabeça até abaixo
da cintura. Eram as mais insistentes, batiam palmas sem cansar, por vezes observadas
pelo dono escondido detrás da cortina – essas ele não atendia nunca.
A ameaça mais sorrateira, porém, exigia de Lena uma
atenção constante, porque o sinal sonoro de sua presença era discreto, difícil
de escutar, especialmente quando estava ocupada patrulhando a parte da frente do
terreno. Só prestando muita atenção conseguia discernir os ruídos secos e
ritmados das pancadas seguidas, encorpadas em um batuque sinistro aos ouvidos
da salsicha.
Quando os identificava, parava o que estivesse
fazendo e rumava para os fundos da casa, pata ante pata, tomando cuidado para
não denunciar sua posição pelo deslocamento inadvertido de uma pedra de brita
qualquer, das que cobriam as laterais do quintal. Cautelosa, adotava a postura
de ataque que aprendera com o velho Gaúcho e disparava o bote contra o odioso
emplumado de peito amarelado, que insistia em vir roubar sua ração.
Droga, como era rápido! Irritada, Lena tentava pela
milésima vez entender o que fazia de errado, observando o voo do pássaro, que
calmamente pousava sobre o muro e engolia o último grão marrom surrupiado da
vasilha da salsicha, antes de soltar o grito vitorioso: “Bem te vi!”
| Baleia vigilante |
Tomada por um misto de alegria pelo que chegava e
raiva por quem o trazia, a cachorrinha se antecipava e disparava para fora da
casa, para saudar devidamente o intruso e ao mesmo tempo apreciar o cheiro fascinante
que partia do embrulho passado às mãos do dono.
Eufórica, a salsicha já antecipava os prazeres da
noite perfeita: a noite de pizza. Seguia saltitante o dono até a cozinha,
atraída pelo aroma inconfundível. Para ela só sobravam as bordas meio
queimadas, mas não se importava – na maioria das vezes os pedaços vinham com
algum resto de mussarela, cebola, presunto, calabresa e o que mais gostava,
aquele molho de tomate semicarbonizado. Lena adorava escutar aquela buzina no
portão...
Adoro essa esganadinha! bj VM
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