Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Explosão de sabores

Lena adorava visitar aquele lugar. Não, não era nem pelo apartamento – não tinha nada demais, com uma sala pouco maior que a dela. É verdade que a sacada atraía a salsicha, a grade vazada deixava ver a rua, mesmo que bem lá embaixo, do alto do 12º andar. Mas nunca a deixavam aproveitar a vista, sempre isolada por aquela superfície transparente que já tinha tentado remover com as unhas tantas vezes, em vão.

O que a agradava mesmo eram os cheiros – e os sabores -, que proporcionavam novas descobertas para a filhote a cada visita.
“Não é possível, vocês não dão comida para essa cachorra?”, perguntava tio Renan, divertido, observando a avidez da salsicha ao abocanhar e engolir quase sem mastigar o que dessem a ela, fosse pepino, cebola em conserva, salgadinhos, cenoura, qualquer carne, tomate e até mesmo umas gotas de cerveja.
Tudo era irresistível demais para recusar, mesmo sem saber o gosto que as guloseimas teriam, tão diferentes da monotonia monocromática e crocante da ração.
“Mas essa cachorra também bebe!”, gargalhava Renan, ao ver a cadelinha lambendo a pequena poça de vinho tinto que acabara de despejar no chão de porcelanato. “Não é possível!”, repetia, completando a taça com o que ainda havia na garrafa.
Aquilo também não era ruim, apesar do forte cheiro de uma coisa que parecia ter ficado um bom tempo guardada. Bem no fundo, lembrava a Lena o sabor de uns frutos arredondados e suculentos que ela provara uma vez, só que mais concentrado e bem menos doce... Mas não era ruim, não.
Ainda dava as últimas lambidas no chão gelado quando viu o objeto estranho se aproximando, feito do mesmo material da superfície transparente que a separava da vista da rua e da sacada. De dentro dele vinha o mesmo cheiro daquilo que tinha acabado de provar.
“Toma, Baleia, toma...”, ouviu tio Renan sussurrar, entre risos. A salsicha aproximou o focinho e com habilidade projetou a língua para dentro da taça, sorvendo com vontade o líquido avermelhado.
A sensação só se fez sentir depois da terceira lambida, fazendo-a recuar sacudindo a cabeça com força, na tentativa de se livrar da queimação que tomava conta da língua e já se espalhava pelas gengivas. Começou a espirrar sem controle, a boca salivando em profusão, o que pouco ajudou a aliviar a ardência.
“Renan, o que você fez com a coitada?!”, esbravejou tia Marta, atraída da cozinha para a sala pela sequência ruidosa de espirros da cachorrinha.
“Nada...”, gargalhava Renan, caindo sentado no sofá.
A mulher tomou a taça das mãos dele e a aproximou do nariz. “Pimenta, Renan?”, disse, num misto de raiva e indignação que só as esposas conseguem atingir. “Não acredito!”
Alheia à discussão que começava a se formar por sua causa, Lena escapuliu pelo corredor, os olhinhos ainda lacrimejando, à procura da dona.
Não, não era seguro ficar sozinha com o tio Renan - agora já sabia.

Explicação
O encontro inesperado com a pimenta teve muito pouco efeito sobre a curiosidade gustativa – pra não dizer gula – da Baleia, que continuou, e continua, comendo qualquer coisa que se dê a ela, com a honrosa exceção de folhas verdes. Se estiverem sem molho, é claro.
Mas, em relação ao vinho, ela pegou asco. Depois daquele dia, a reação da salsicha passou a ser de medo sempre que confrontada com o elixir de Baco. Se uma taça é aproximada dela, Lena engata a ré e recua, de cabeça baixa, desviando os olhinhos.
Não adianta oferecer, vinho Lena não bebe mais. Veja abaixo:

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Apelidos

Lena levou algum tempo até começar a entender que estavam falando com ela – ou sobre ela. A mudança tinha sido radical demais. Nas poucas semanas que passou com a mãe – de quem cada vez se lembrava menos – o contato com as pessoas era mínimo. A mulher aparecia uma vez por dia, xingando a torto e a direito, enquanto enchia o grande pote de ração e limpava parte da sujeira que os seis cachorrinhos faziam na garagem. Ela parecia sempre irritada, mas nunca se dirigia a um dos filhotes em particular.
Agora era diferente. Além de não ter nenhum irmãozinho para dividir as broncas, os dois falavam o tempo todo. Só percebia que se tratava dela quando já era tarde demais, ao ter o focinho esfregado sobre a poça de urina, para depois ser presa para fora da sala, na sacada. Aquilo precisava mudar, pelo menos para ter alguma chance de escapar.
Antes de perceber que tinha um nome, aprendeu a identificar quando falavam com ela, e até mesmo dela. No primeiro caso, o tom de voz era mais agudo que o normal – algo que a princípio só conseguia notar com o dono, mas depois passou a diferenciar também com a dona.
O segundo caso era mais complexo e exigia atenção redobrada, era preciso filtrar a agressividade sonora e corporal dos donos. Ficou mais fácil quando a salsicha aprendeu a diferenciar o que podia do que não devia fazer – assim, quando tinha aprontado já se mantinha em estado de alerta, o que lhe rendia segundos preciosos, tempo suficiente para correr e se esconder debaixo da cama ao menor sinal de bronca. Claro, se estivesse recebendo um elogio isso passava batido por Lena, a não ser quando começou a receber o bifinho ressecado a cada xixi feito sobre as folhas de papel cinzento que cobriam a sacada.
Não muito depois, ela começou a perceber que os donos repetiam sempre o mesmo som, tanto quando falavam com ela como quando falavam dela – durante as broncas ou para conceder a recompensa do bifinho. Aí se deu conta de que tinha um nome – Baleia – e sua vida começou a fazer muito mais sentido.
Seria bom se tudo fosse tão fácil quanto aprender a tirar vantagem dos donos, saindo à sacada e se agachando sobre o jornal, fingindo fazer xixi, para se deliciar com um bifinho atrás do outro. O problema é que logo descobriu que os donos não se contentavam em chamá-la pelo nome – este cada vez mais usado só durante as broncas. Começaram a inventar uma série de apelidos que trabalhosamente se forçou a memorizar, um a um.
Ela não sabia contar, mas se soubesse contabilizaria 13 apelidos além do nome original – sem considerar os inevitáveis diminutivos.
O primeiro que identificou tornou-se tão usado que praticamente substituiu o chamado inicial: Lena. Ela não sabia, mas esse derivou de uma confusão daquele homem grisalho que visitava de vez em quando e sempre a incomodava tentando agarrá-la pelo focinho. Praticamente só ele usava o termo – Balena – o que sem dúvida facilitou a vida dela em memorizá-lo.
Baleia e Fabi
Alguns apelidos não faziam o menor sentido (pelo menos para ela), exigindo um esforço canino da memória da salsicha. Nunca se achara Gorda, mas era chamada assim. E o que dizer de Bicha, Helena ou até Pequelena?
Outros ela ouvia só quando tinha feito algo de errado, acompanhados de um castigo, tornando-os rapidamente inesquecíveis. Se escutava Diaba ou especialmente Feia, já sabia que boa coisa não vinha em seguida.
O mais difícil de aprender tinha sido aquele que oferecia um obstáculo duplo, combinava duas palavras compridas e era totalmente desprovido de sentido: Bishquibí Bishquibou. Este surgiu no dia em que o dono a encontrou nos braços da dona, sendo ninada para lá e para cá.
“Tá parecendo aquele desenho do Picolino”, disse ele.
Diante da expressão de interrogação da mulher, explicou: “Não lembra desse? É um que se passa no Polo Norte, e o Picolino atormenta um urso, que tem que embalar um cachorrão, cantando uma canção de ninar até ele dormir, para não ser mordido: Bishquibí, Bishquibou, é Bishquibí, é Bishquibou...”
A dona não dava sinal de ter se lembrado ou mesmo compreendido a história, ao que ele continuou: “No final do desenho aparecem os dois velhinhos, o urso e o cachorrão, em cima de uma geleira, ainda fazendo a mesma coisa...”
De qualquer forma, daí em diante ele passou a chamá-la assim – ou pior, por qualquer das duas palavras separadas (Bishquibi ou Bishquibou), uma abreviação mais simples (Bou) e até uma corruptela do original (Ishquiba). Pobre salsicha...

Explicação
A reação da grande maioria das pessoas ao perguntar o nome dela era a mesma: “Baleia? Coitada.. Mas ela é tão magrinha!”
A Fabi às vezes explica, mas eu nunca fiz questão. Para quem não conhece a história da brava cadelinha que caçava preás para alimentar Fabiano, Sinhá Vitória e os dois barrigudinhos no sertão nordestino, não fará muito sentido. E, se a pessoa conhece, não há nada a explicar.
O nome é só uma modesta lembrança à vira-lata criada por Graciliano Ramos em Vidas Secas, na minha opinião a melhor e mais tocante personagem canina da literatura brasileira.
Depois de já termos escolhido o nome da salsicha, escutei em uma música do Luiz Gonzaga (o pai) o que pode ser até a explicação para a escolha do escritor. No meio do forró, como que contando um causo, como costumava fazer, o Gonzagão pergunta: “Num sei por que cachorro de pobre tem sempre nome de peixe? É curvina, traíra, piaba, matrinchã, baleia, piranha...Magrinho, mas caçadorzinho como o diabo! Cachorro de rico é gordo, não caça nada, rabo grosso, só vive dormindo. Não presta pra nada, só prestar pra bufar. Agora, o nome é bonito: wike, rex, uísque. Cachorro de pobre é ximbica...”
Foi aí que tive certeza de ter escolhido certo o nome de Lena.

PS: Para quem não se lembra do desenho do Picolino, veja de novo:
Clique aqui

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O pico

Já quase não se lembrava daquela sensação, uma mistura de enjoo, vertigem, desorientação e aprisionamento. Segura com firmeza no colo da dona, tudo o que Lena podia fazer era tentar desesperadamente se aproximar da janela, de onde mesmo através do vidro fechado era possível enxergar o mundo, em busca de uma árvore, o chão, um poste ou outra coisa que lhe servisse de referência e ajudasse a diminuir o mal-estar.
Da outra vez em que sentira algo parecido tinha sido um pouco diferente – menos intenso e mais prolongado. Baleia era menor e não conseguia nem ver a janela. Durante mais de duas horas o seu mundo ficou limitado pelas paredes de papelão bege, balançando no chão do carro, no caminho entre Lages (SC) e Balneário Camboriú (SC). De lá, após uma parada breve, mais uma hora de sacudidas até Joinville (SC). Mas isso parecia ter acontecido há séculos, não dois meses atrás.
O carro finalmente parou em frente a um casarão branco, com um gigantesco jardim gramado, que atraiu magneticamente os olhos da salsichinha enquanto ela era carregada porta adentro.
“Que coisa mais fofa!”, Lena escutou, antes de ser agarrada por uma enorme mulher loira vestida de branco, que a carregou para uma sala fria, colocando-a sobre uma mesa de metal a uma altura que disparou um arrepio pela espinha da filhote.
A vertigem da altitude e a baixa temperatura do metal fizeram Lena começar a tremer quase instantaneamente, com uma inconfundível expressão de súplica nos olhinhos que encaravam o dono, enquanto ele a segurava sobre a mesa cirúrgica.
Neste momento ela sentiu uma pontada em um lugar de onde até então acreditava que só podiam sair coisas, e o termômetro revelou uma nova variante do frio à cachorrinha.
Baleia ainda desfrutava do alívio provocado pela retirada do equipamento quando uma substância gelada começou a ser esfregada sobre sua pele, depois de afastados os pelos do lombo. Tremendo de frio, medo e desespero, a salsicha não pode segurar um ganido baixinho que escapou logo ao sentir a picada, seguida de um breve ardor provocado pelo líquido, que penetrava a pele e se espalhava lá dentro.
“Calma, Baleia, é só um pico...”, pode ouvir, assustada, a primeira mentira que a enorme mulher de branco lhe contaria.
Segundos depois, o esfregar da substância gelada e malcheirosa no outro lado do lombo já não era uma sensação desconhecida para Lena, que se encolheu, resignada, à espera da segunda picada.
Desta vez não chorou, só lançou um olhar desacorçoado na direção do dono que ainda a mantinha fortemente pressionada contra o metal gelado da mesa, com o peso que só quem se julga profundamente traída consegue imprimir.

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De noite, na escuridão da sala, Lena não conseguia se ajeitar para dormir. De qualquer lado que deitasse, uma dor persistente no lombo incomodava a ponto de obrigá-la a se revirar.
Irritada, a cadelinha finalmente se acomodou de bruços, apertando os olhinhos na tentativa de forçar o sono a chegar. Ah, mas isso não ia ficar assim... De memória, repassou o posicionamento de cada costura do velho sofá, sentindo antecipadamente o conforto da certeza da destruição ao alcance das patas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Em busca do que fazer



No início era o tédio. Depois que os donos saíam para o trabalho, logo cedo, o apartamento ficava silencioso, nada se movia. Os únicos ruídos vinham dos carros, distantes, na Av. Beira-Rio, nada que justificasse mais do que um levantar de orelhas descompromissado.
Deitada na caminha no canto da sala, Lena observava com desânimo os brinquedinhos espalhados pelo chão: o mordedor de borracha dura, uma bolinha de plástico verde e o pequeno cachorrinho de pelúcia semidestruído, já sem os olhos.
Sem grandes expectativas, a salsicha se levantou e caminhou pelo corredor, em direção ao quarto, procurando algo para fazer. Nada, nenhum objeto de interesse. De volta à sala, continuou a ronda, só para passar o tempo.
Não havia nada de mais naquele ambiente. Em frente ao móvel baixo que servia de apoio para a tela mágica, ficava o grande monolito. Parecia feito de um material semelhante ao da sua caminha – afinal, era fofo na parte de cima, onde Lena não conseguia subir sozinha, só com a ajuda de um dos donos.
A salsichinha deu a volta no sofá velho de três lugares, em uma investigação mais criteriosa. Na parte de trás, uma pequena parte da costura começava a se soltar, em um dos cantos de baixo. Com uma mordida, ela puxou o pedaço de couro falso com força, afrouxando um pouco os pontos. Ah, diversão!
Depois de algumas horas de trabalho dedicado, conseguiu abrir um pequeno buraco na cobertura detrás da peça, grande o suficiente para enfiar o focinho por dentro e começar a roer o couro, rasgando aos poucos.
Ao final do dia, quando os donos chegaram, Lena estava tranquilamente deitada na caminha, com os olhinhos inocentes de sempre e uma prazerosa sensação de cansaço. O buraco, na parte baixa e traseira do velho sofá, passou despercebido.
Na manhã seguinte, segundos após a porta da rua se fechar atrás dos donos, retomou os trabalhos. Com vontade, a cachorrinha exercitava a mordida no couro macio, primeiro desgastando o material com os dentinhos da frente e depois rasgando o tecido com vigorosos movimentos da cabeça, preso entre os molares.
Assim Lena passou mais um dia divertido, em uma atividade febril, com breves momentos de descanso.

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Naquela noite os donos chegaram juntos em casa, depois de se encontrarem no supermercado para fazer as compras. Ao entrar no apartamento carregados de sacolas, não encontraram a cachorrinha deitada na caminha, como de costume.
Largando as compras na cozinha, Lúcio entrou corredor adentro, chamando a pequena: “Lena... Lena....Cadê a minha Leninha?”
Nada se movia no quarto.
“Amore, ela não tá aqui!”
Na sala, Fabi começou a escutar o barulho do rabo da filhote batendo no couro, abanando de alegria.
“Lena, cadê você?”, perguntou, dando a volta no sofá, sem perceber de onde vinha o som, que parecia próximo.
No interior da peça, a salsichinha rebolava contente, só os olhinhos visíveis dentro do buraco que ela tinha aberto na parte de trás do móvel, através do couro falso.
“Não acredito... Amore, vem cá ver o que a Lena aprontou!”, a dona disse, rindo.
“Meu Deus... Como ela conseguiu fazer isso?”, espantou-se o dono, ajoelhado, examinando de perto o estrago.
Dentro do sofá, Lena ainda abanava o rabinho, satisfeita com o trabalho bem feito e com o sentimento de dever cumprido. 

Explicação
Claro que a Baleia levou uma boa bronca neste dia, mas na verdade aquele sofá era quase um sobrevivente de guerra. Vindo de Lages (SC), ele já tinha feito parte de moradias da Fabi em Floripa (SC) e em São Paulo (SP), e agora quebrava o galho no apartamento alugado do Saguaçu, em Joinville (SC), que também era para ser provisório.
O tecido era de um couro falso emborrachado, com um padrão de cores, digamos, pouco usual: combinava vários tons de rosa, bege e marrom claro, sobrepostos por uma sequência vertical de desenhos diversos – um arqueólogo identificaria símbolos marajoaras, sânscritos, etruscos e até da maçonaria. Em resumo, não era nada bonito.
Lena não parou no primeiro buraco. Não satisfeita em construir uma toca dentro do sofá, ela começou a roer o móvel por dentro, abrindo uma passagem interna que dava acesso direto à parte de cima da peça.
Por sorte, o que parecia um início de carreira promissor nas artes da destruição – afinal, ela só tinha seis meses de vida - mostrou-se apenas um hobby passageiro. Depois desse, a Baleia nunca mais causou estragos significativos em casa, nem mesmo a chinelos ou sapatos, casos clássicos em se tratando de filhotes.
Vai ver a Lena também não gostava do sofá.