O que a agradava mesmo eram os cheiros – e os
sabores -, que proporcionavam novas descobertas para a filhote a cada visita.
“Não é possível, vocês não dão comida para essa
cachorra?”, perguntava tio Renan, divertido, observando a avidez da salsicha ao
abocanhar e engolir quase sem mastigar o que dessem a ela, fosse pepino, cebola
em conserva, salgadinhos, cenoura, qualquer carne, tomate e até mesmo umas
gotas de cerveja.
Tudo era irresistível demais para recusar, mesmo sem
saber o gosto que as guloseimas teriam, tão diferentes da monotonia
monocromática e crocante da ração.
“Mas essa cachorra também bebe!”, gargalhava Renan,
ao ver a cadelinha lambendo a pequena poça de vinho tinto que acabara de
despejar no chão de porcelanato. “Não é possível!”, repetia, completando a taça
com o que ainda havia na garrafa.
Aquilo também não era ruim, apesar do forte cheiro
de uma coisa que parecia ter ficado um bom tempo guardada. Bem no fundo,
lembrava a Lena o sabor de uns frutos arredondados e suculentos que ela provara
uma vez, só que mais concentrado e bem menos doce... Mas não era ruim, não.
Ainda dava as últimas lambidas no chão gelado quando
viu o objeto estranho se aproximando, feito do mesmo material da superfície
transparente que a separava da vista da rua e da sacada. De dentro dele vinha o
mesmo cheiro daquilo que tinha acabado de provar.
“Toma, Baleia, toma...”, ouviu tio Renan sussurrar,
entre risos. A salsicha aproximou o focinho e com habilidade projetou a língua
para dentro da taça, sorvendo com vontade o líquido avermelhado.
A sensação só se fez sentir depois da terceira lambida,
fazendo-a recuar sacudindo a cabeça com força, na tentativa de se livrar da
queimação que tomava conta da língua e já se espalhava pelas gengivas. Começou
a espirrar sem controle, a boca salivando em profusão, o que pouco ajudou a
aliviar a ardência.
“Renan, o que você fez com a coitada?!”, esbravejou
tia Marta, atraída da cozinha para a sala pela sequência ruidosa de espirros da
cachorrinha.
A mulher tomou a taça das mãos dele e a aproximou do
nariz. “Pimenta, Renan?”, disse, num misto de raiva e indignação que só as
esposas conseguem atingir. “Não acredito!”
Alheia à discussão que começava a se formar por sua
causa, Lena escapuliu pelo corredor, os olhinhos ainda lacrimejando, à procura
da dona.
Não, não era seguro ficar sozinha com o tio Renan -
agora já sabia.
Explicação
O
encontro inesperado com a pimenta teve muito pouco efeito sobre a curiosidade
gustativa – pra não dizer gula – da Baleia, que continuou, e continua, comendo
qualquer coisa que se dê a ela, com a honrosa exceção de folhas verdes. Se
estiverem sem molho, é claro.
Mas,
em relação ao vinho, ela pegou asco. Depois daquele dia, a reação da salsicha
passou a ser de medo sempre que confrontada com o elixir de Baco. Se uma taça é
aproximada dela, Lena engata a ré e recua, de cabeça baixa, desviando os
olhinhos.
Não adianta oferecer, vinho Lena não bebe mais. Veja abaixo:





