Da outra vez em que sentira algo parecido tinha sido um pouco diferente – menos intenso e mais prolongado. Baleia era menor e não conseguia nem ver a janela. Durante mais de duas horas o seu mundo ficou limitado pelas paredes de papelão bege, balançando no chão do carro, no caminho entre Lages (SC) e Balneário Camboriú (SC). De lá, após uma parada breve, mais uma hora de sacudidas até Joinville (SC). Mas isso parecia ter acontecido há séculos, não dois meses atrás.
O carro finalmente parou em frente a um casarão branco, com um gigantesco jardim gramado, que atraiu magneticamente os olhos da salsichinha enquanto ela era carregada porta adentro.
“Que coisa mais fofa!”, Lena escutou, antes de ser agarrada por uma enorme mulher loira vestida de branco, que a carregou para uma sala fria, colocando-a sobre uma mesa de metal a uma altura que disparou um arrepio pela espinha da filhote.
A vertigem da altitude e a baixa temperatura do metal fizeram Lena começar a tremer quase instantaneamente, com uma inconfundível expressão de súplica nos olhinhos que encaravam o dono, enquanto ele a segurava sobre a mesa cirúrgica.
Neste momento ela sentiu uma pontada em um lugar de onde até então acreditava que só podiam sair coisas, e o termômetro revelou uma nova variante do frio à cachorrinha.
Baleia ainda desfrutava do alívio provocado pela
retirada do equipamento quando uma substância gelada começou a ser esfregada
sobre sua pele, depois de afastados os pelos do lombo. Tremendo de frio, medo e
desespero, a salsicha não pode segurar um ganido baixinho que escapou logo ao
sentir a picada, seguida de um breve ardor provocado pelo líquido, que
penetrava a pele e se espalhava lá dentro.“Calma, Baleia, é só um pico...”, pode ouvir, assustada, a primeira mentira que a enorme mulher de branco lhe contaria.
Segundos depois, o esfregar da substância gelada e malcheirosa no outro lado do lombo já não era uma sensação desconhecida para Lena, que se encolheu, resignada, à espera da segunda picada.
Desta vez não chorou, só lançou um olhar desacorçoado na direção do dono que ainda a mantinha fortemente pressionada contra o metal gelado da mesa, com o peso que só quem se julga profundamente traída consegue imprimir.
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De noite, na escuridão da sala, Lena não conseguia se ajeitar para dormir. De qualquer lado que deitasse, uma dor persistente no lombo incomodava a ponto de obrigá-la a se revirar.
Irritada, a cadelinha finalmente se acomodou de
bruços, apertando os olhinhos na tentativa de forçar o sono a chegar. Ah, mas
isso não ia ficar assim... De memória, repassou o posicionamento de cada
costura do velho sofá, sentindo antecipadamente o conforto da certeza da
destruição ao alcance das patas.

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