Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O grande pesadelo

Os sinais estavam todos lá, à vista. A dona tirava coisas do grande monolito que se abria e as empilhava sobre a cama, enquanto o dono percorria a casa, fechando as janelas. Lena esperava pacientemente, deitada na caminha já colocada no meio da sala, ao lado das vasilhas e do saco de ração, tentando imaginar para onde seria a viagem.
Trazida a jaulinha, a salsicha fez o charme de sempre antes de ser posta para dentro e começar a mastigar o biscrok, a caminho do carro. Deitada com a cabeça sobre as patas, ela ainda tentava pegar no sono, embalada pelo balanço do veículo em movimento, até que tudo parou. Os donos saíram, abrindo a porta traseira para recolhê-la.
O que tinha acontecido? Dessa vez tinha certeza que não tinha dormido e a nenhum lugar que conhecia se chegava tão rápido assim... Curiosa, Lena farejava, o focinho encostado na grade da portinhola de entrada, tentando focar a vista no balançar sísmico da jaula sendo carregada pelo dono.
Uma campainha soou e logo em seguida uma porta se abriu. Pela grade, a visão que se revelou fez correr um arrepio gelado pela espinha da salsicha, até a ponta do rabo. De braços abertos, sorridente, a enorme mulher de branco apareceu para recebê-la: “Baleia! Que bonitinha, na jaulinha...”
Uma lufada de vento trouxe de dentro da casa a odiosa mescla de cheiros de que se lembrava bem, uma mistura da substância gelada que tinham lhe esfregado no lombo antes das picadas com odores de diversos cachorros desconhecidos. Aquilo de novo? Toda aquela tortura outra vez?
Aterrorizada, Lena se encolheu no fundo da caixa de plástico, nem um pouco disposta a sair, mesmo depois de aberta a portinhola e dos chamados do dono.
“Vem, Leninha, não faz charme...”, ele disse, enfiando o braço dentro da jaula, agarrando-a pelo tronco e a puxando para fora.
No colo do dono, foi levada para dentro da casa, seguindo os passos da mulher de branco, até chegarem a um grande salão. Tremendo, Lena virou a cabeça para observar o cenário, e se não estivesse firmemente segura teria esfregado as patinhas nos olhos para se certificar do que via: as paredes eram cobertas de jaulas de concreto, pouco maiores que a dela, umas sobre as outras, em três níveis. Bom, pelo menos não havia sinal da gelada mesa de metal...
A mulher de branco abriu uma das unidades térreas, oposta à porta da sala, e a dona colocou sua caminha e a vasilha de água lá dentro, o que ocupou quase todo o espaço interior. Em seguida o dono abaixou-se e delicadamente pousou-a sobre o cobertor, afagando-a na cabeça: “Fica bem, Leninha...”
Em choque, a cachorrinha viu a grade se fechar à sua frente e mal teve tempo de soltar um choro sentido antes de todos terem ido embora, fechando a porta. Estava só...
Estava só? Não, não estava só. A maioria das jaulas estava vazia, mas na parede oposta à em que estava viu algo se mexer. Estreitando os olhos, Lena pode identificar o estranho ser encarando-a. Era pouco maior que ela, com uma forma atarracada, coberto de pelos de um bege bem claro, quase brancos. Mas a cabeça... O que era aquilo? Quase não tinha focinho, só um amontoado de rugas negras que terminavam em um pequeno nariz preto e brilhante – resfolegava sem parar, com uma comprida língua rosada para fora. Só percebeu que era um cachorro pelo latido que ouviu depois, um ruído rouco e estrangulado.
Em uma das paredes laterais, Lena enxergou outro cão. Minúsculo – tinha a cabecinha coberta por longos e finos pelos, numa mescla de tons dourados, presos em duas ridículas chuquinhas -, saudou-a produzindo um latido agudo.
O que significava aquilo? O que fazia ali? Por que os donos a tinham deixado? Quanto tempo ficaria naquela jaula? A manhã se arrastou lenta para Lena. Não conseguia dormir, a cabeça pesada de dúvidas.
Muito tempo depois, a porta da sala se abriu e a grande mulher de branco entrou, carregando um cachorro branco não muito maior que ela, de pelo bem crespo, que se avolumava em um estranho topete sobre a cabeça e na ponta do rabo. Desesperado, ele se contorcia freneticamente, na tentativa de escapar, enquanto gania sem parar.
Trancado na jaula ao lado do ser sem focinho, começou a latir assim que a porta da sala se fechou. Vendo que o protesto não surtia efeito, passou a roer nervosamente a placa de metal vazada que o mantinha preso ali, causando um ruído irritante que se prolongou tarde adentro, afastando qualquer possibilidade de Lena dormir.
Insone, a salsicha se revirava na cama, cada vez mais preocupada. Será que tinha feito algo para estar ali? Seria culpa dela, afinal? Será que a toca escavada no sofá... Mas isso já fazia tanto tempo...
A sala começava a ficar mais escura quando o desesperado Poodle finalmente desistiu da tentativa de fuga, esgotado, sem conseguir mais do que provocar uns poucos arranhões na porta da jaula. Aliviada, Lena ajeitou-se para dormir. Mas não houve tempo - a porta da sala se abriu, dando passagem novamente à grande mulher de branco.
“Hora do passeio!”
Lena foi a primeira a ser retirada da jaula, levada para fora e solta no imenso jardim gramado em declive, na frente do casarão. Apressada, disparou em uma longa volta em torno do terreno, à procura de um ponto de escape, sem sucesso - tudo estava solidamente cercado por uma grade de metal. Sem alternativa, fez as necessidades ao pé de uma roseira e passou os minutos seguintes tentando manter distância do ser sem focinho que a perseguia.
De volta à jaula, havia ração na vasilha e água fresca, mas não tinha fome. No escuro da noite, enquanto o Poodle retomava as escavações e o sem focinho roncava sonoramente, Lena fazia força para conciliar o sono, dominada pela tristeza. Só queria se deixar afundar no torpor, para esquecer por alguns instantes que estava ali...
Cansada dos próprios pensamentos, a salsicha enfim adormeceu. No dia seguinte, quando a porta da sala se abriu, uma outra mulher apareceu para tirá-la da cela e franquear o acesso ao jardim. Dessa vez nem se deu ao trabalho de tentar escapar, limitou-se a se aliviar e observar mais de perto o sem focinho, que resfolegava atrás dela.
O dia passou devagar, irritante. Percebendo que não conseguiria arrombar a jaula, o Poodle passou a chorar baixinho, em um gemido que se arrastou pela tarde, até que a mesma mulher da manhã viesse soltá-los para o passeio do crepúsculo.
Naquela noite finalmente o silêncio tomou conta do salão. O Poodle dormia com a cabeça pressionada junto à grade, os tufos de pelo do topete espremidos para fora, pelos vãos quadriculados. O sem focinho ressonava pesadamente e não havia sinal do minúsculo cãozinho dourado, absorvido pelas cobertas coloridas da própria cama.
Lena caiu em um sono profundo. Sonhou que andava no Fusca do dono, sentindo o sol no focinho e um vento agradável jogando as orelhas para trás. Olhou para o lado e se deu conta de que estava sozinha dentro do carro em movimento, e ao volante! Lá fora, adiante, a dona esperava em uma esquina, com sua caminha nas mãos. Para seu espanto, passou por ela sem conseguir parar.
Um pouco mais à frente enxergou o Tio Cris, com um suculento espeto de churrasco nas mãos, cercado por Branca e Totti. Os dois cachorros salivavam, olhos fixos na carne pingando. Deixou-os para trás também, sem poder fazer nada.
O Fusca ganhava velocidade, contra a vontade de Lena, que comprimia as patinhas sobre a direção, sem saber o que fazer. Enxergou o dono no meio da rua, acenando para ela de braços abertos, com um grande sorriso, mas em seguida viu-o obrigado a saltar para a calçada, para não ser atropelado pelo carro desembestado.
Assustada, Lena se voltou para trás, mas o dono tinha sumido. Olhando para baixo, percebeu que o banco do Fusquinha em que estava em pé estava destruído, transformado em um amontoado de espuma mastigada e tecido rasgado.
Em desespero, a salsicha virou-se novamente para frente, a tempo de ver uma imensa parede formada por jaulas, para onde se dirigia em alta velocidade. Não sabia o que fazer, ia bater, ia...
Acordou de um salto, soltando um gemido abafado. Suando, ainda escutava o ruído do Fusca acelerando em direção ao desastre. Chacoalhou com força a cabeça, fazendo as orelhas estalarem, para despertar por completo. Ainda assim, continuava a ouvir o característico barulho do motor, cada vez mais forte. Não era possível... Ou era?
A porta da sala se abriu e a grande mulher de branco entrou, seguida pelo dono. Sem conter a alegria, Lena saltava dentro da jaula, jogando as patas contra a porta de metal, que foi aberta em seguida. Chorando baixinho, aproximou-se rastejando do dono e passou a lamber carinhosamente suas mãos, depois o nariz e os olhos, ao ser erguida no colo.
Teve tempo de lançar um último olhar pelo salão antes de ser apresentada à caixa de plástico. Os três companheiros de cela observavam a saída dela, o Poodle com olhar de inveja, o cãozinho dourado sem expressão e o sem focinho passando a língua rosada pelo minúsculo nariz brilhante.
Não fez charme nenhum, entrou correndo na jaulinha assim que a portinhola foi aberta. Carregada para o Fusca, Lena foi chorando até em casa – mas desta vez de alegria.

Explicação
Sempre evitamos ao máximo deixar a Baleia em hoteizinhos para cachorro – ela sempre ia com a gente nos finais de semana, para onde fossemos. Mas daquela vez ia ser difícil, o casamento era em São Paulo (SP) e a viagem era de avião.
Foi a primeira vez que a deixamos no canil – entre sábado de manhã e as primeiras horas de segunda-feira. Acho que foi a vez em que vi a Baleia mais feliz por me ver, quando fui resgatá-la. Ela me lambia sem parar e continuou a fazer isso por uns dois ou três dias, sempre que me encontrava.
Depois, voltou a ser a Lena diaba de sempre.

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