Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Inimigo meu


A princípio, foi uma convivência pacífica. Nos primeiros passeios, ainda desacostumada ao pedaço de couro que a puxava para lá e para cá, era inevitável que a pequena salsicha chamasse a atenção por onde passava – aliás, como qualquer filhote. Ainda que um pouco amedrontada, Lena se limitava a se encolher junto ao chão e se deixar acariciar por aqueles pequenos seres que pareciam a ela uma miniatura mal acabada dos donos.
Aos finais de semana, quando era levada a Balneário Camboriú (SC), tinha até um amigo entre eles. Pensando bem, o serzinho tinha um tamanho mais apropriado para as brincadeiras de correr, sem o perigo de pisoteá-la, risco que sempre corria com aquelas patas enormes do dono.
Quando o menino chegava à loja, tudo o que se ouvia era o repique acelerado das unhas da cachorrinha se chocando com o assoalho de madeira laminada enquanto ela galopava pelo grande corredor cercado de amostras de tecido, logo acompanhado de gostosas gargalhadas e de um ou outro latido brincalhão, provocativo. Lena disparava e o garotinho - de pouco mais de três anos - ia atrás, maravilhado pelo filhote saltitante.
A brincadeira era corriqueira e já tinha plateia cativa: a avó do menino, embevecida pela criança, e Uca, mãe de Fabi, encantada pelos dois. Sim, no princípio foi uma convivência pacífica.
Um dia, após a correria usual, no lugar das gargalhadas ouviu-se um grito longo e agudo, interrompido por uma saraivada de latidos fininhos, típicos de filhote, ao que se seguiu a segunda etapa do alarido inicial. 
Encolhida num canto, a salsichinha tremia de raiva e de medo, ainda latindo, acuada. Em pé em cima de uma cadeira, o menino chorava com expressão aterrorizada, sacudindo os bracinhos, de onde foi resgatado pela avó. 
Aproveitando a oportunidade, Lena passou correndo pelos dois e foi pedir colo para a dona, do outro lado da loja.

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De noite, aconchegada na caminha, a salsicha tentava entender o que tinha acontecido. Ainda dolorida, a orelha esquerda não a deixava desviar o pensamento do que havia passado naquela manhã.
Por que ele tinha feito aquilo? Será que ele achava que não doía? Por acaso nunca ninguém tinha puxado a orelha dele? E depois aqueles gritos absurdos e o choro... Só porque ela tinha aplicado uma leve mordida para se soltar! E a malvada era ela? Ah, não pode ser... 
Para Lena, a conclusão era óbvia e definitiva: as miniaturas não eram confiáveis. Nunca mais ia se deixar tocar por uma criatura daquelas de novo, promessa!

Explicação
Quando era filhote, a Baleia não tinha problema nenhum com crianças – até o fatídico dia do grito, na loja da mãe da Fabi, em Balneário Camboriú. Na verdade, não sabemos o que exatamente aconteceu entre ela e o menino, mas a mudança de comportamento foi radical dali em diante.
Não era como a aversão normal de alguns cachorros rabugentos, que reagem com latidos a uma tentativa inesperada de carícia. Lena simplesmente passou a não suportar dividir o mesmo ambiente com uma criança – e por ambiente ela entendia até a mesma calçada.
O resultado em qualquer encontro é uma invariável descarga de protestos raivosos disparados por ela em direção aos pequenos – Baleia chega a latir para crianças do outro lado da rua, durante os passeios. Depois daquele dia, a relação dela com as miniaturas se consolidou em uma mistura de raiva e medo. 
Foi a perda da inocência de Lena.

Um comentário:

  1. Essa "pequena" é mesmo muito cheia de opinião! E é linda! bj VM

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