Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Batida da madrugada



Fazia frio e por mais que ela se ajeitasse, não conseguia mais dormir. Já tinha dado mais de dez voltas ao redor de si mesma debaixo do cobertor quadriculado, ao melhor estilo dos lobos, um resquício evolutivo para se certificar de que nenhum animal peçonhento estaria a rondar seu sono.
No escuro da sala, Lena colocou só o focinho gelado para fora da coberta, investigando o ambiente pelo odor. Nenhum cheiro dos donos no ar. Com um pouco mais de esforço, a salsicha esticou a cabeça, fazendo a manta escorregar pelo pescoço e saindo da cama.
Depois de uma tremelicada energética para espantar o frio, a cadelinha caminhou pelo corredor, em direção ao quarto dos donos, encontrando a porta fechada. Lá fora, mais um dia de inverno começava no escuro.
Com a ponta da patinha, Lena raspou de leve a porta, na tentativa de abrir caminho na madeira maciça. Sem sucesso, começou a usar as unhas, provocando um ruído abrasivo de tinta sendo descascada, acompanhado de um choro baixinho.
Dentro do quarto, Fabiana cutucou o marido: “Amore, a Lena tá chamando...”
Puxando a coberta por cima da cabeça, ele respondeu num resmungo. “Já falei, deixa ela... Se a gente abrir, ela vai começar a fazer isso todo dia.”
Encorajada pelos cochichos dos donos, a salsicha redobrou os esforços no corredor, raspando a madeira com mais força e elevando o volume do chorinho. O estrondo da porta destravando fez a cachorrinha dar um salto para trás, assustada com o ruído que parecia mais alto que o normal no silêncio da madrugada. Do lado de dentro, ouviu a dona chamar: “Vem, Lena!”
Abanando o rabo freneticamente, a pequena disparou em direção à cama e começou a pular do lado do dono, sem conseguir alcançar o colchão. Esticando o braço para fora do cobertor, Lúcio ergueu a salsicha, que se enfiou imediatamente debaixo dos lençóis, aconchegando-se no meio das pernas dele.

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Na madrugada seguinte, com o dia amanhecendo, Lena sacudiu o cobertor das costas e disparou confiante pelo corredor. Depois das batidas características, a porta do quarto se abriu e uma satisfeita salsicha foi transbordada para a cama.

Com o passar dos dias, a cena se incorporou à rotina do apartamento. Nas primeiras raspadas, Fabiana se levantava automaticamente e abria a porta para a filhote, que em seguida mergulhava entre as cobertas e dormia por 30 ou 40 minutos com os donos, até a hora de eles se levantarem para encarar o dia. Acostumado à novidade, na maioria das vezes Lúcio nem despertava mais.
Uma noite, ele acordou com sede e se levantou para beber água. Afastando os lençóis para sair da cama, deparou-se com a cachorrinha abanando o rabo, ainda meio coberta. Esticou a mão até o criado mudo e alcançou o celular, no escuro do quarto. Acionada, a tela do aparelho marcava 3h15.
Sacodiu a mulher pelo ombro: “Amore, o que a Lena tá fazendo aqui?”
“Sei lá, Amore”, Fabiana resmungou, ainda meio dormindo. “Ela bateu e eu abri.”
“Sabe que horas são?”
“Amore, me deixa dormir, já deve estar quase amanhecendo.”
“Amanhecendo? São três horas da manhã!”
“Não acredito...”, ela respondeu, rindo. “Que safada!”
Satisfeita, a salsicha abanava o rabo no escuro.

Explicação
No começo, foi por dó que abríamos a porta para a Baleia dormir uns minutos com a gente antes da hora de levantar. Depois virou hábito - não dá pra negar que era gostoso o aconchego da salsicha quentinha debaixo das cobertas, no meio de nós dois.
E não é que, com seis meses de idade, ela percebeu que bastava bater para ter acesso ao quarto? No inverno, a escuridão do começo do dia era a mesma da madrugada, e, aproveitando-se disso, ela começou a chamar cada vez mais cedo. Mesmo depois de descoberta, a salsichinha chegou a arranhar a porta à 1h da manhã, pouco mais de uma hora depois de a gente ir para a cama!
Essa foi a segunda trapaça de Lena.

Um comentário:

  1. Lu, quando leio suas crônicas, eu vivo o que você relata. Adoro sua maneira de escrever, me emociona! Amo você, sua mulherzinha e sua querida Baleia. VM

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