Fazia frio e por mais que ela se ajeitasse, não
conseguia mais dormir. Já tinha dado mais de dez voltas ao redor de si mesma
debaixo do cobertor quadriculado, ao melhor estilo dos lobos, um resquício
evolutivo para se certificar de que nenhum animal peçonhento estaria a rondar
seu sono.
No escuro da sala, Lena colocou só o focinho gelado
para fora da coberta, investigando o ambiente pelo odor. Nenhum cheiro dos
donos no ar. Com um pouco mais de esforço, a salsicha esticou a
cabeça, fazendo a manta escorregar pelo pescoço e saindo da cama.
Depois de uma tremelicada energética para espantar o
frio, a cadelinha caminhou pelo corredor, em direção ao quarto dos donos,
encontrando a porta fechada. Lá fora, mais um dia de inverno começava no
escuro.
Com a ponta da patinha, Lena raspou de leve a porta,
na tentativa de abrir caminho na madeira maciça. Sem sucesso, começou a usar as unhas, provocando um ruído abrasivo de tinta sendo descascada, acompanhado de um choro baixinho.
Dentro do quarto, Fabiana cutucou o marido: “Amore,
a Lena tá chamando...”
Puxando a coberta por cima da cabeça, ele respondeu
num resmungo. “Já falei, deixa ela... Se a gente abrir, ela vai começar a fazer
isso todo dia.”
Encorajada pelos cochichos dos donos, a salsicha
redobrou os esforços no corredor, raspando a madeira com mais força e elevando
o volume do chorinho. O estrondo da porta destravando fez a cachorrinha dar um
salto para trás, assustada com o ruído que parecia mais alto que o normal no
silêncio da madrugada. Do lado de dentro, ouviu a dona chamar: “Vem, Lena!”
Abanando o rabo
freneticamente, a pequena disparou em direção à cama e começou a pular do lado
do dono, sem conseguir alcançar o colchão. Esticando o braço para fora do
cobertor, Lúcio ergueu a salsicha, que se enfiou imediatamente debaixo dos
lençóis, aconchegando-se no meio das pernas dele.
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Na madrugada seguinte, com o dia amanhecendo, Lena
sacudiu o cobertor das costas e disparou confiante pelo corredor. Depois das
batidas características, a porta do quarto se abriu e uma satisfeita salsicha foi
transbordada para a cama.
Com o passar dos dias, a cena se incorporou à rotina
do apartamento. Nas primeiras raspadas, Fabiana se levantava automaticamente e
abria a porta para a filhote, que em seguida mergulhava entre as cobertas e
dormia por 30 ou 40 minutos com os donos, até a hora de eles se levantarem para
encarar o dia. Acostumado à novidade, na maioria das vezes Lúcio nem despertava
mais.
Uma noite, ele acordou com sede e se levantou para
beber água. Afastando os lençóis para sair da cama, deparou-se com a
cachorrinha abanando o rabo, ainda meio coberta. Esticou a mão até o criado
mudo e alcançou o celular, no escuro do quarto. Acionada, a tela do aparelho
marcava 3h15.
Sacodiu a mulher pelo ombro: “Amore, o que a Lena tá
fazendo aqui?”
“Sei lá, Amore”, Fabiana resmungou, ainda meio
dormindo. “Ela bateu e eu abri.”
“Sabe que horas são?”
“Amore, me deixa dormir, já deve estar quase
amanhecendo.”
“Amanhecendo? São três horas da manhã!”
“Não acredito...”, ela respondeu, rindo. “Que safada!”
Satisfeita, a salsicha abanava o rabo no escuro.
No
começo, foi por dó que abríamos a porta para a Baleia dormir uns minutos com a
gente antes da hora de levantar. Depois virou hábito - não dá pra negar que era
gostoso o aconchego da salsicha quentinha debaixo das cobertas, no meio de nós
dois.
E
não é que, com seis meses de idade, ela percebeu que bastava bater para ter
acesso ao quarto? No inverno, a escuridão do começo do dia era a mesma da
madrugada, e, aproveitando-se disso, ela começou a chamar cada vez mais cedo.
Mesmo depois de descoberta, a salsichinha chegou a arranhar a porta à 1h da
manhã, pouco mais de uma hora depois de a gente ir para a cama!
Essa
foi a segunda trapaça de Lena.


Lu, quando leio suas crônicas, eu vivo o que você relata. Adoro sua maneira de escrever, me emociona! Amo você, sua mulherzinha e sua querida Baleia. VM
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