Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Volta às origens



Encolhida sobre o cobertor, no fundo da jaulinha de plástico, Lena perdera a noção de quantas vezes tinha acordado e voltado a dormir, o carro sempre em movimento, os donos em silêncio, uma música tocando de fundo. A desorientação era potencializada pelo tempo que passara ali, fechada – não tinha a menor ideia para onde estava sendo levada. 
Quando o carro finalmente parou por completo e a porta se abriu, ainda de dentro da caixa de transporte ela foi atingida em cheio por um turbilhão de cheiros que se amalgamavam em uma mistura surpreendentemente familiar. Havia aromas de grama molhada, mesclados à fumaça de madeira queimada e um agradável perfume natural que a salsicha tinha gravado no fundo da memória: das araucárias na temporada do pinhão.
Depois que a portinha da jaula se abriu e Lena saiu, esticando os músculos e as vértebras comprimidas em um longo espreguiçar, pode enfim ver onde estava. Chacoalhando as orelhas para terminar de despertar por completo, correu os olhos ao redor, impressionada. Era o maior gramado que já tinha visto, distribuído em um leve declive coalhado de árvores, inclusive algumas enormes, de onde vinha o perfume delicioso, além de um pequeno lago no centro.
A cachorrinha ainda observava extasiada a paisagem quando foi surpreendida por um latido grave. Voltando-se, viu um grande pastor alemão e uma cadela de porte médio e olhar faiscando de raiva, correndo em sua direção. Lena rapidamente deitou-se de barriga para cima, em sinal claro de submissão, com os olhos bem arregalados, na esperança que a postura fosse suficiente para 
salvá-la. Logo ouviu um grito forte:
“Ah! Gaúcho! Purga! Já pra lá, seus demônio!”
Os dois cachorros abaixaram as orelhas e recuaram, obedientes. Levantando a cabeça, a salsicha viu pela primeira vez aquele homenzarrão de cabelos loiros e riso aberto se aproximando dela.
“Então essa que é a Baleia véia?”, disse, abaixando-se e afagando com carinho a cabeça da cachorrinha. “Mas óia que até que é bem ajeitada! Bonita demais”, continuou, olhando para o dono, enquanto colocava a salsicha sobre as quatro patas para avaliá-la melhor.
Não sabia por que, mas desde o princípio simpatizara com o homem. Não que gostasse muito de gente, com exceção dos donos, mas Gabriel se mostraria tão generoso quanto o Tio Cris. Não conhecia ninguém que lhe desse tanta comida quanto ele – quando ia alimentar os outros cachorros ela ganhava um tanto semelhante da saborosa mistura de arroz, carnes indeterminadas e gordura crua, que comia até o fim, sem deixar nada na vasilha.
Ah, como se comia bem por ali. Com as generosas porções servidas por Gabriel não passava nem perto da ração, que ficava dias abandonada. Além disso, sempre havia uma apetitosa variedade de frutos caídos das árvores, espalhados pela grama - que os dois cachorros desprezavam, mas ela não. Lena se deliciava com os caquis, pitangas, romãs e figos, além dos nutritivos pinhões, que aprendeu a descascar pacientemente com os dentinhos da frente, cozidos ou crus, para se empanturrar com a massa esbranquiçada e macia do interior.
Purga e seu olhar maligno
Depois do primeiro contato tumultuado, estabeleceu uma relação amigável com Gaúcho, que se mostrou um hospitaleiro boa-praça, levando-a a conhecer os recantos e segredos do terreno. O pastor até tentou - sem sucesso - ensiná-la a caçar passarinhos, atividade em que era exímio. Desajeitada e barulhenta, a salsicha espantava os tico-ticos, rolinhas e bem-te-vis antes de conseguir se aproximar daqueles emplumados.
Da Purga não podia dizer o mesmo. A cadela de expressivos e malignos olhos cor de mel – uma mistura de fox paulistinha e glorioso sangue vira-lata – não se rendeu à intrusa. Quando Lena se aproximava, a reação era a mesma: dentes à mostra e um rosnado discreto, para não atrair a atenção de Gabriel, mas incisivo o suficiente para deixar claro que não tinha interesse na amizade sinalizada pelo rabo chacoalhante da salsicha. No início aquilo assustava Baleia, mas depois percebeu que a postura era mais protocolar do que agressiva e um acordo tácito se estabeleceu entre as duas, que conviviam bem – à distância.
Lena voltaria muitas vezes àquele lugar e sempre havia novidades. Na segunda visita que fez a Lages (SC) não encontrou mais seu amigo Gaúcho. Só de noite conseguiu extrair a notícia de uma triste e amargurada Purga: o pastor morrera após levar um coice de boi, ela lhe informou, fazendo questão de mostrar um lado do focinho em que faltavam três ou quatro dentes, cicatrizes da interminável guerra com os cavalos.
A salsicha não sabia o que eram bois ou cavalos, mas quase pode sentir a dor da pancada que desfalcara a arcada dentária de Purga. Na visita anterior já tinha sido apresentada à selvagem vida canina lageana, ao testemunhar uma caçada dos dois cachorros a um malcheiroso roedor, encurralado junto a um dos muros do terreno e morto a dentadas e violentos chacoalhões pela cadela. Durante a luta, o peludo soltou um agressivo odor almiscarado, que Lena mal podia suportar mesmo a seguros dez metros da cena. Cumprida a missão, o cheiro odioso ficou impregnado nos dois – sentindo o fedor no dia seguinte, Gabriel prendeu os dois juntos e aplicou-lhes um banho de sabão de coco e água gelada, na fria manhã de inverno. Essa foi a única recompensa pela valentia noturna.
Bugra
Aliás, se existia uma coisa que a desagradava nas visitas a Lages era o frio. Não sabia por que, mas ali só era admitida dentro de casa durante o dia e era obrigada a passar a noite na churrasqueira, onde invariavelmente tremia por alguns minutos debaixo do cobertor xadrez, até se aquecer e conseguir pegar no sono. Enquanto isso, os outros cachorros dormiam ao relento, na grama. Só nas noites mais geladas entravam na pequena despensa debaixo da casa, que era deixada com a porta aberta. Não era de admirar que eles não durassem muito...
Na visita seguinte, o lugar de Gaúcho tinha sido ocupado por Soho, um ruivo Australian Catle Dog de sorriso maroto e temperamento imprevisível. Com ele Lena se deu bem, divertindo-se em brincadeiras pelo gramado – mas sempre com certa desconfiança, ele parecia querer passar-lhe para trás de alguma forma.
Os endemoniados
Ao voltar a Lages novamente, ele tinha ganhado uma companheira, da mesma raça, só que com o pelo salpicado de manchas cinza-azuladas. Pior, Bugra tinha acabado de parir a primeira ninhada e Lena se deparou com uma gangue de oito endemoniados peludinhos, que passavam o dia a atormentá-la. Quando estavam em dois ou três, ela ainda conseguia resistir e afastá-los com ranger de dentes e uma ou outra abocanhada a esmo, desferida para atingir só o ar. Mas quando se mancomunavam e vinham todos juntos, o remédio era disparar para o outro lado do terreno, despistando os diabos ainda trôpegos demais para acompanhar a veloz salsicha.
Cacique
Lena se surpreenderia mesmo na outra visita: não havia sinal dos filhotes e Soho desaparecera, em mais uma morte trágica, que dessa vez Purga não se dignou a esclarecer. No lugar dele surgira um gigante branco, com uma cabeça descomunal, quase do tamanho da salsicha - e certamente mais pesada do que ela.
Era chamado de Cacique e - isso Purga apressou-se em lhe contar, com um indisfarçável ar malévolo turvando os olhos cor de mel – era especializado em caçar javalis. Lena não sabia o que era um javali, mas pela descrição da cadela, que fez questão de descrever em detalhes as afiadas presas que saíam para fora da boca do animal, parecia bem pouco amistoso.
Baleia e Cacique
Ao contrário do que todo aquele tamanho podia indicar, porém, Cacique se mostrou tão boa-praça quanto o velho Gaúcho – e até mais disposto a brincadeiras, embora qualquer atividade com aquele gigante exigisse atenção redobrada. Uma vez quase a jogou para dentro do lago, com uma inocente e inadvertida rabada.
Lena nunca sabia o que ia encontrar em suas idas à terra natal, carregadas de surpresas, ora boas, ora más. As frutas espalhadas pelo gramado mudavam, fazia mais ou menos frio e cachorros iam e vinham – só Purga seguia sempre lá, sobrevivendo aos invernos, um pouco mais grisalha, surda e ranzinza a cada visita.

Olha a Baleia em Lages:

 

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