Encolhida sobre o cobertor, no fundo da jaulinha de
plástico, Lena perdera a noção de quantas vezes tinha acordado e voltado a
dormir, o carro sempre em movimento, os donos em silêncio, uma música tocando
de fundo. A desorientação era potencializada pelo tempo que passara ali,
fechada – não tinha a menor ideia para onde estava sendo levada.
Quando o carro finalmente parou por completo e a
porta se abriu, ainda de dentro da caixa de transporte ela foi atingida em
cheio por um turbilhão de cheiros que se amalgamavam em uma mistura
surpreendentemente familiar. Havia aromas de grama molhada, mesclados à fumaça
de madeira queimada e um agradável perfume natural que a salsicha tinha gravado
no fundo da memória: das araucárias na temporada do pinhão.
Depois que a portinha da jaula se abriu e Lena saiu, esticando os músculos e as vértebras comprimidas em um longo espreguiçar, pode enfim ver onde estava. Chacoalhando as orelhas para terminar de despertar por completo, correu os olhos ao redor, impressionada. Era o maior gramado que já tinha visto, distribuído em um leve declive coalhado de árvores, inclusive algumas enormes, de onde vinha o perfume delicioso, além de um pequeno lago no centro.
Depois que a portinha da jaula se abriu e Lena saiu, esticando os músculos e as vértebras comprimidas em um longo espreguiçar, pode enfim ver onde estava. Chacoalhando as orelhas para terminar de despertar por completo, correu os olhos ao redor, impressionada. Era o maior gramado que já tinha visto, distribuído em um leve declive coalhado de árvores, inclusive algumas enormes, de onde vinha o perfume delicioso, além de um pequeno lago no centro.
A cachorrinha ainda observava extasiada a paisagem
quando foi surpreendida por um latido grave. Voltando-se, viu um grande pastor
alemão e uma cadela de porte médio e olhar faiscando de raiva, correndo em sua
direção. Lena rapidamente deitou-se de barriga para cima, em sinal claro de
submissão, com os olhos bem arregalados, na esperança que a postura fosse
suficiente para
salvá-la. Logo ouviu um grito forte:
“Ah! Gaúcho! Purga! Já pra lá, seus demônio!”
Os dois cachorros abaixaram as orelhas e recuaram, obedientes. Levantando a cabeça, a salsicha viu pela primeira vez aquele homenzarrão de cabelos loiros e riso aberto se aproximando dela.
“Ah! Gaúcho! Purga! Já pra lá, seus demônio!”
Os dois cachorros abaixaram as orelhas e recuaram, obedientes. Levantando a cabeça, a salsicha viu pela primeira vez aquele homenzarrão de cabelos loiros e riso aberto se aproximando dela.
“Então essa que é a Baleia véia?”, disse,
abaixando-se e afagando com carinho a cabeça da cachorrinha. “Mas óia que até
que é bem ajeitada! Bonita demais”, continuou, olhando para o dono, enquanto
colocava a salsicha sobre as quatro patas para avaliá-la melhor.
Não sabia por que, mas desde o princípio simpatizara
com o homem. Não que gostasse muito de gente, com exceção dos donos, mas
Gabriel se mostraria tão generoso quanto o Tio Cris. Não conhecia ninguém que
lhe desse tanta comida quanto ele – quando ia alimentar os outros cachorros ela
ganhava um tanto semelhante da saborosa mistura de arroz, carnes indeterminadas
e gordura crua, que comia até o fim, sem deixar nada na vasilha.
Ah, como se comia bem por ali. Com as generosas
porções servidas por Gabriel não passava nem perto da ração, que ficava dias
abandonada. Além disso, sempre havia uma apetitosa variedade de frutos caídos
das árvores, espalhados pela grama - que os dois cachorros desprezavam, mas ela
não. Lena se deliciava com os caquis, pitangas, romãs e figos, além dos
nutritivos pinhões, que aprendeu a descascar pacientemente com os dentinhos da
frente, cozidos ou crus, para se empanturrar com a massa esbranquiçada e macia
do interior.
| Purga e seu olhar maligno |
Depois do primeiro contato tumultuado, estabeleceu
uma relação amigável com Gaúcho, que se mostrou um hospitaleiro boa-praça,
levando-a a conhecer os recantos e segredos do terreno. O pastor até tentou -
sem sucesso - ensiná-la a caçar passarinhos, atividade em que era exímio.
Desajeitada e barulhenta, a salsicha espantava os tico-ticos, rolinhas e
bem-te-vis antes de conseguir se aproximar daqueles emplumados.
Da Purga não podia dizer o mesmo. A cadela de
expressivos e malignos olhos cor de mel – uma mistura de fox paulistinha e
glorioso sangue vira-lata – não se rendeu à intrusa. Quando Lena se aproximava,
a reação era a mesma: dentes à mostra e um rosnado discreto, para não atrair a
atenção de Gabriel, mas incisivo o suficiente para deixar claro que não tinha
interesse na amizade sinalizada pelo rabo chacoalhante da salsicha. No início
aquilo assustava Baleia, mas depois percebeu que a postura era mais protocolar
do que agressiva e um acordo tácito se estabeleceu entre as duas, que conviviam
bem – à distância.
Lena voltaria muitas vezes àquele lugar e sempre
havia novidades. Na segunda visita que fez a Lages (SC) não encontrou mais seu amigo
Gaúcho. Só de noite conseguiu extrair a notícia de uma triste e amargurada
Purga: o pastor morrera após levar um coice de boi, ela lhe informou, fazendo
questão de mostrar um lado do focinho em que faltavam três ou quatro dentes,
cicatrizes da interminável guerra com os cavalos.
A salsicha não sabia o que eram bois ou cavalos, mas
quase pode sentir a dor da pancada que desfalcara a arcada dentária de Purga.
Na visita anterior já tinha sido apresentada à selvagem vida canina lageana, ao
testemunhar uma caçada dos dois cachorros a um malcheiroso roedor, encurralado
junto a um dos muros do terreno e morto a dentadas e violentos chacoalhões pela
cadela. Durante a luta, o peludo soltou um agressivo odor almiscarado, que Lena
mal podia suportar mesmo a seguros dez metros da cena. Cumprida a missão, o
cheiro odioso ficou impregnado nos dois – sentindo o fedor no dia seguinte,
Gabriel prendeu os dois juntos e aplicou-lhes um banho de sabão de coco e água
gelada, na fria manhã de inverno. Essa foi a única recompensa pela valentia
noturna.
| Bugra |
Aliás, se existia uma coisa que a desagradava nas
visitas a Lages era o frio. Não sabia por que, mas ali só era admitida dentro de
casa durante o dia e era obrigada a passar a noite na churrasqueira, onde
invariavelmente tremia por alguns minutos debaixo do cobertor xadrez, até se
aquecer e conseguir pegar no sono. Enquanto isso, os outros cachorros dormiam
ao relento, na grama. Só nas noites mais geladas entravam na pequena despensa
debaixo da casa, que era deixada com a porta aberta. Não era de admirar que
eles não durassem muito...
Na visita seguinte, o lugar de Gaúcho tinha sido
ocupado por Soho, um ruivo Australian Catle Dog de sorriso maroto e
temperamento imprevisível. Com ele Lena se deu bem, divertindo-se em
brincadeiras pelo gramado – mas sempre com certa desconfiança, ele parecia
querer passar-lhe para trás de alguma forma.
| Os endemoniados |
Ao voltar a Lages novamente, ele tinha ganhado uma
companheira, da mesma raça, só que com o pelo salpicado de manchas
cinza-azuladas. Pior, Bugra tinha acabado de parir a primeira ninhada e Lena se
deparou com uma gangue de oito endemoniados peludinhos, que passavam o dia a
atormentá-la. Quando estavam em dois ou três, ela ainda conseguia resistir e
afastá-los com ranger de dentes e uma ou outra abocanhada a esmo, desferida
para atingir só o ar. Mas quando se mancomunavam e vinham todos juntos, o
remédio era disparar para o outro lado do terreno, despistando os diabos ainda
trôpegos demais para acompanhar a veloz salsicha.
| Cacique |
Lena se surpreenderia mesmo na outra visita: não
havia sinal dos filhotes e Soho desaparecera, em mais uma morte trágica, que
dessa vez Purga não se dignou a esclarecer. No lugar dele surgira um gigante
branco, com uma cabeça descomunal, quase do tamanho da salsicha - e certamente
mais pesada do que ela.
Era chamado de Cacique e - isso Purga apressou-se em
lhe contar, com um indisfarçável ar malévolo turvando os olhos cor de mel – era
especializado em caçar javalis. Lena não sabia o que era um javali, mas pela
descrição da cadela, que fez questão de descrever em detalhes as afiadas presas
que saíam para fora da boca do animal, parecia bem pouco amistoso.
| Baleia e Cacique |
Ao contrário do que todo aquele tamanho podia
indicar, porém, Cacique se mostrou tão boa-praça quanto o velho Gaúcho – e até
mais disposto a brincadeiras, embora qualquer atividade com aquele gigante
exigisse atenção redobrada. Uma vez quase a jogou para dentro do lago, com uma
inocente e inadvertida rabada.
Lena nunca sabia o que ia encontrar em suas idas à
terra natal, carregadas de surpresas, ora boas, ora más. As frutas
espalhadas pelo gramado mudavam, fazia mais ou menos frio e cachorros iam e
vinham – só Purga seguia sempre lá, sobrevivendo aos invernos, um pouco mais
grisalha, surda e ranzinza a cada visita.
Olha a Baleia em Lages:
Olha a Baleia em Lages:
Mas é uma sapeca deliciosa! bj VM
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