Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A primeira revolução

Só podia ser o fim do mundo... Olhando ao redor, Lena não entendia nada. Tudo parecia fora da ordem, com a meia dúzia de caixas de papelão que tomavam conta da sala e cercavam a caminha, momentaneamente inacessível.
No quarto a situação era ainda pior, onde os três homens de cheiro forte faziam barulho sem parar, pondo abaixo o enorme bloco de madeira que aos olhos dela sempre parecera inexpugnável. Já tinha tentado espantá-los à base de corajosos latidos e alguns rosnados discretos, mas o dono a afastara com uma bronca severa, fechando a porta do corredor. Desde então permanecia ali, do outro lado, acompanhando com atenção as batidas secas na madeira.
Nunca tinha visto uma confusão tão grande no apartamento. Sim, uma vez por semana a mulher gorda e barulhenta criava uma certa desordem - mas pelo menos ela fazia isso em um cômodo por vez, o que permitia a Lena escapar ilesa para outro ambiente. Dessa vez não, era tudo ao mesmo tempo agora.
Desamparada e dominada pela insegurança de ver seu pequeno mundo em convulsão, a salsicha se acocorou a um canto da sala, encolhida e desorientada, sem nem poder alcançar sua caminha. Perdida... Sentia-se totalmente perdida.
Depois de partir em pedaços o monolito do quarto, os três homens começaram a carregar as partes para fora do apartamento. Em seguida, passaram a recolher as caixas de papelão e, por último, os móveis da sala, incluindo seu preferido, onde laboriosamente construíra a toca.
Quando a porta se fechou atrás deles, só restaram Lena e a caminha no apartamento vazio. Escorregou para baixo do cobertor quadriculado e, de olhos fechados, ficou tentando reconstruir o cenário já inexistente da casa.
A espera durou a tarde toda. Sentindo-se abandonada e já dominada pelo desespero, Lena não conseguiu conter o choro – nem a bexiga – quando viu os donos entrando pela porta da rua.
Começava a anoitecer quando foi levada para o carro, no colo da mama. Dessa vez a viagem foi curta – o que a salsicha já previa, uma vez que não havia sinal do cubículo vazado de plástico em que era aprisionada quando ia longe.
Pouco depois de o carro estacionar, Baleia ouviu pela primeira vez o característico ruído metálico que se tornaria o sinal da chegada dos donos - ou de qualquer um. Não esperou nem a pesada grade terminar de se abrir e saltou para dentro do terreno, alcançando o pequeno gramado em declive. Babando de felicidade, a cachorrinha corria em círculos e nem viu os donos seguindo para a parte de trás da casa, carregando sua caminha.
Grama! Parecia até a casa do Tio Cris! Olhando pela grade, mal sabia onde fixar os olhinhos. Havia tanto para ver: a rua, o terreno baldio com mato baixo da frente, um ou outro carro passando.
Ainda não tinha recuperado o fôlego quando escutou o dono chamar: “Lena! Vem, Leninha, vem conhecer sua casa nova!”
Ela seguiu as vozes e contornou a construção, chegando a uma sala grande, iluminada no lusco-fusco do fim de tarde. Estava tudo ali! As caixas de papelão, os móveis, sua caminha, até mesmo sua peça predileta, com a toca que esculpira no falso couro do sofá.
Ainda sem entender bem o que tinha acontecido naquele dia estranho, Lena se sentia aliviada e agradecida. Aproximou-se do dono e começou a lamber-lhe os dedos do pé, por entre as tiras das Havaianas. 

Baleia na casa nova
Explicação
Essa foi a primeira mudança de Lena em Joinville (SC), do apartamento na Av. Beira-Rio, no Saguaçu, para a casinha do Costa e Silva, onde vivemos por um ano e meio.
Mais do que a grama e o ar livre, acho que a grande mudança para a Baleia foi a revelação do mundo exterior, com que ela tinha contato só nos passeios. Na frente da casa havia uma grade que permitia visão completa da rua e de uma série de novos personagens que entraram no dia-a-dia da salsicha – mas essa é outra história.
Foram dias felizes na vida de Lena.

Um comentário:

  1. Que delícia vê-la tão linda e saudável nestas fotos! bj VM

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