Hoje podia vê-lo melhor, iluminado pelo sol a pino da manhã de domingo. Vinha do mesmo lugar, caminhando penosamente pelas pedras ásperas que faziam as vezes de asfalto por ali, de cabeça baixa e olhos semicerrados, na tentativa de se proteger da claridade ofuscante do meio-dia.
O cão aproximou o focinho do portão com humildade,
cumprimento que Lena retribuiu com um misto de medo e piedade. Desviando o olhar
da cabeça que pendia pesada dos ombros, onde se viam cicatrizes e pequenas
feridas das escaramuças das ruas, a salsicha percebeu que ele respirava com
dificuldade – as costelas pareciam querer rasgar a pele a cada ofegada, os
olhos transfigurados de fome e de sede mal conseguiam se fixar nos dela.
Estavam nisso quando o dono apareceu no quintal,
gritando em seguida para dentro da casa.
“Amore, vem só ver isso!”
A presença do homem tirou o cão do estupor,
fazendo-o recuar alguns passos. O dono correu até o portão e deslizou-o para o
lado, abrindo caminho e convidando, abaixando-se para parecer mais amistoso.
“Vem... Pode entrar...”
Ainda chocada com o estado do cachorro, Lena se
limitou a assistir a cena, afastando-se da grade. A dona saiu para o quintal quando
ele ultrapassava o limite do portão: “Meu Deus, coitado...”
“Pega água pra ele”, disse o dono.
Servido, ele não se fez de rogado e sorveu
rapidamente a vasilha toda. O dono completou o vasilhame com a mangueira e
pediu: “Comida, Amore!”
Sob o olhar de espanto de Lena, o visitante engoliu
um pote cheio da insossa ração que ela sempre enrolava para comer. A surpresa
só aumentou, ao vê-lo dar conta de outras duas porções do mesmo tamanho.
O alimento devolveu vida aos olhos do cão, que passou
a abanar o rabo, a princípio timidamente, depois com mais confiança.
“Olha só, Amore, é igualzinho à Lena!”, disse a
dona. “Só pode estar perdido...”
Pois é, mas não tem coleira nem nada...”, respondeu
Lúcio, examinando o salsicha. “A cor dele é bonita, parece chocolate”,
completou, passando a mão no peito do cachorro, onde a pelagem amarronzada
ainda resistia. “A gente podia ficar com ele...”
“Amore, não inventa!”, a dona resmungou.
“Olha como é mansinho... Pelo menos vamos dar um
banho nele.”
Contrariada, Lena viu o cachorro ser pego no colo
pelo dono, sem resistir, e ser levado para o andar de cima da casa, pela escada
cujo acesso era proibido a ela. Pouco tempo depois os dois voltaram, o cão
cheirando bem melhor do que antes.
“Amore, ele podia chamar Obama!”, disse o dono,
sorridente, depositando o salsicha sobre o sofá.
Lena pensou ter visto um olhar desafiador partindo
do alto daquele focinho todo lanhado, mas preferiu acreditar ter sido só uma
impressão equivocada, depois que a tarde transcorreu em paz. Esgotado, Obama
ressonava em um canto do sofá, enquanto ela mantinha-se alerta no outro, sem
pregar os olhos.
À noite, porém, a desconfiança da salsicha se
mostrou justificada. Refeito, o despelado começou a por as garras – e os dentes
– de fora, rosnando quando ela passava perto do sofá, de onde parecia querer
dominar a sala.
A gota d’água viria depois, quando o dono serviu
ração para os dois, em potes separados. Não satisfeito em devorar de uma vez a
sua porção, o cinzento partiu para cima dela, com os caninos à mostra. Se ele
queria tanto aqueles grãozinhos enjoativos era só pedir, não faria disso razão
para briga. Além disso, aquelas cicatrizes na fuça e o olhar injetado de ódio
tornavam o pelado bastante assustador. Recuando, Lena assistiu o orelha roída
comer sua porção, lançando olhares ameaçadores e mais rosnados na direção dela.
Tristeza, mesmo, a salsicha sentiu na hora de
dormir. Vendo o risco iminente do conflito, o dono decidiu separá-los. Para ela
sobrou a velha caminha e o cobertor quadriculado na pequena despensa, fora da
casa, sob o tradicional dever de vigiar o terreno. Já o recém-chegado rabo de
rato ganhou o conforto da sala.
A salsicha sentia o peso da traição sobre o dorso
alongado, enquanto observava, indignada, o pouco-pelo refastelado sobre o
cobertor vermelho – seu preferido -, com um ar de vitória estampado na fuça
remendada.
No dia seguinte veio o alívio. Logo cedo Lena viu o
dono encaixotando o cor de brita molhada na sua jaula de plástico e levando-o
para o carro. Não voltaria a vê-lo, mas aquele pelo de gambá velho lhe ensinara
uma lição que não esqueceria mais. Nunca mais demonstraria compaixão ou sequer
hospitalidade a outro cachorro dentro da própria casa – mesmo que fosse outro
salsicha.
Explicação
À
primeira vista, era de dar dó. Magro, sujo, despelado, lanhado de briga e
queimado de sol, o cachorrinho se arrastava na frente do portão. Ainda assim,
dava pra ver que era um salsicha – e parecia puro.
Claramente
era um cachorro de casa, porque depois de comer e beber como se fosse um
náufrago, a primeira coisa que ele fez foi pular para o sofá e deitar de
barriga pra cima.
A
Baleia recebeu ele muito bem, abanando o rabo, nem um pouco possessiva. Nossa
ideia inicial era ficar com o bichinho – pelo menos a minha ideia inicial: já
tinha até batizado de Obama. O problema é que, naquela mesma noite, o salsicha
começou a querer tomar conta do território, rosnando e avançando sobre a Lena.
Enquanto
a gente estava ali, tudo bem. Mas como íamos deixar os dois sozinhos na
segunda-feira? Já dormiram separados e no dia seguinte o levamos para uma amiga
da Fabi que queria adotar um cachorro.
O resgate estava garantido, mas o salsicha foi
imediatamente rebaixado de Obama a Toninho.
Parabéns Lúcio!
ResponderExcluirAdoro as histórias da Baleia!
Mande um bjo pra Fabi, e outro pra vc!!
Diz pra Baleia q ela já tem uma fã!
Meline
Muito obrigado, Meline! Bjo
ResponderExcluirAs vezes é complicado fazer dois cachorros conviverem, né? Uma pena, seria uma companhia para a Lena. Mas o importante é que ele saiu das ruas e conseguiu uma dona!
ResponderExcluirAgora, ser rebaixado de Obama pra Toninho realmente foi triste! hahaahahahahaha