Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Lena e Maia


Como quase tudo que acontecia na vida de Lena, aquilo também surgiu de repente. Vivia uma daquelas tardes promissoras de fim de semana, deitada confortavelmente entre os donos, no sofá maior da sala. Relaxava depois de filar os bocados regulamentares do almoço deles, até que ouviu soar a campainha de alerta.
Era o primeiro aviso sonoro de que chegava alguém diferente à casa, ao que se seguia a voz do dono conversando com alguém invisível. A salsicha saltou do sofá e postou-se em frente à porta, de orelhas em pé, à espera do som que confirmaria a presença estranha – esse menos estridente e mais breve. Às vezes o apito inicial era só um alarme falso e não aparecia ninguém após a conversa do dono com o vazio. Outras vezes era melhor ainda, ele saía pela porta depois de falar com o nada e voltava com o embrulho cheiroso: pizza! Mas isso nunca acontecia àquela hora do dia, só de noite...
A campainha soou e a cachorrinha estremeceu, chacoalhando-se vigorosamente para espantar a ansiedade. Antes de girar a chave o dono se voltou para ela e deu o aviso.
“Olha lá, hein, Lena... Se comporta!”
A porta se abriu e um ser diminuto entrou correndo casa adentro, passando batido por ela. Surpresa, Lena não sabia se prestava atenção à mulher que entrou em seguida no apartamento ou ao corisco esbranquiçado que tinha disparado pela sala. Quando se voltou, o pequeno animal já cheirava sem cerimônia o seu rabo, obrigando-a a um salto contorcionista para se esquivar do assédio.
Maia
Em posição de guarda, o focinho baixo, rente ao chão, a salsicha pode enfim observar com mais cuidado o cãozinho. O que era aquilo? Uma memória antiga atingiu-a como um choque, transportando-a de volta aos dia de agonia na prisão. Aquele ser era igual a um dos companheiros de cárcere no casarão da grande mulher de branco, o sem focinho! Tinha a mesma cabeça arredondada, beiços enegrecidos e enrugados, de onde partia a comprida língua rosada – e também babava sem parar. Só era bem menor e mais esguio...
Não teve tempo de terminar de decifrar o enigma. A visitante – agora podia ver que era fêmea – deu-lhe as costas e correu para o terraço, direto para o pote onde deixara metade dos grãos insossos servidos a ela pela manhã. Não que fizesse questão daquilo, mas ainda se lembrava do que tinha acontecido ao dar confiança a outro cachorro dentro da própria casa, quando se compadeceu do pelo de gambá surgido da rua que os donos resolveram adotar... Era preciso agir rápido e com decisão.
Lena correu para fora e assumiu posição de ataque, desferindo latidos raivosos em direção à pequena, que despreocupada e com sofreguidão dava conta dos últimos grãos amarronzados, antes de ser recolhida pela mulher recém-chegada.
“Lena, para com isso!”, o dono gritou para ela.
“Maia, que falta de educação...”, a sem focinho ouvia, no colo da própria dona.
Não, aquilo não começava nada bem... 

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Maia em alerta
Pouco tempo depois restavam apenas os donos e a pequena esbranquiçada no apartamento – e as coisas só iriam piorar. A diaba não se contentara em comer sua ração: parecia disposta a devorar a própria salsicha.
Já tentara de tudo para afastá-la. Começou assumindo uma postura distante, evitando contato visual e ignorando-a, sem efeito. O filhote a seguia de perto por onde ia, farejando irritantemente cada passo.
Daí Lena passou aos latidos e ganidos de advertência, na tentativa de comunicar seu desconforto com a proximidade da beiços negros, ao que também não obteve sinal de ter sido compreendida. Irritada, a salsicha partiu para a solução final, assumindo sua pior expressão de raiva, desferindo rosnados e até pequenos botes em direção à inconveniente, que recuava poucos passos e logo retomava a perseguição.
Já sem alternativa, por sorte Lena descobriu que a pequena não conseguia subir no sofá. Derrotada, saltou sobre o móvel e encolheu-se num canto, observando com rugas fundas de preocupação a desfocinhada saltando sobre as patas traseiras para alcançá-la, com as patinhas da frente jabeando como um lutador de boxe enfurecido, a comprida língua rosa para fora, pingando baba.
Só teve paz à noite, quando viu o pequeno demônio ser preso na cozinha, com as portas fechadas, podendo recolher-se ao terraço para dormir, aliviada.
No dia seguinte, quando os donos saíram para trabalhar, foi com alívio que percebeu que a diminuta diaba foi mantida presa na cozinha, o que lhe garantiu boas horas de sossego, até de noite...
Deitada no sofá, na sala, podia ouvir o raspar frenético das unhas do filhote na madeira da porta, acompanhado de chorinhos estridentes.
Lena sentia-se ao mesmo tempo aliviada e frustrada com a separação. Se de um lado tinha sua paz garantida, por outro o isolamento da babona na cozinha a privava da sua maior diversão diurna: observar Bob da sacada, visível só de lá.
Maia e a TV
Assim, os dias passavam mais monótonos e lentamente, e a alegria de reencontrar os donos à noite ficava seriamente prejudicada pela certeza de que o dínamo esbranquiçado seria libertado para persegui-la.
Cada vez mais irritada, Lena assistia a fuça amassada tomar posse da casa e até dos seus brinquedos, que alegremente cobria de baba, refastelada sobre seu tapete favorito. Como aquilo era possível? De uma hora para outra sua vida se transformara em um inferno. Tudo ao simples som das sinetas de alerta...
Triste, Lena aproveitava os instantes de desorientação e disparada pela casa da diaba assim que ela era solta da cozinha, à noite, e corria para a sacada. Tinha pouco tempo para namorar o vira-lata amarelado – que parecia ainda mais charmoso à luz esbranquiçada dos postes de rua. Soltava alguns latidos para chamar-lhe a atenção e mostrar que não tinha se esquecido dele, que ainda estava ali, no alto...
O problema era que assim também atraía o furacãozinho, que ressurgia saltitante, de língua de fora, já na sua cola. Era o tempo de lançar um rosnado dissuasivo e escapar de volta ao sofá, onde se enfiava direto sob o cobertor – não queria nem ver aqueles olhinhos negros brilhando de excitação na direção dela, muito menos o boxear desesperado das patas...
Mas, como quase tudo na vida de Lena, aquilo desapareceu da mesma forma como surgiu: de repente. Num dia parecido como o da chegada da sua terrorista particular, as duas sinetas de alerta soaram e a mesma mulher de cabelos negros apareceu para levar o filhote embora.
Baleia de volta ao Bob
Aliviada, a salsicha disparou para a sacada da cozinha, ainda tomada pelo cheiro da sem focinho, para avisar Bob que estava de volta. Desse dia em diante, era dominada por um arrepio ao escutar ainda que só a primeira campainha de aviso da chegada de estranhos... 

Explicação 
O filhotinho de Pug ficou uma semana lá em casa, quando uma amiga nossa, a Vivi, foi viajar. Foi incrível a fascinação dela pela Baleia – nem um pouco recíproca. Perseguia a salsicha por todos os lados e não havia o que a Lena fizesse para afastá-la. No final, ela desistiu e se limitou a assistir à Maia dominar a sala, do alto do sofá.
Nunca vi uma cachorrinha comer tão rápido e de forma tão esganada – era preciso segurar primeiro ela, enquanto a ração era servida, e depois o pote, para que tudo não se espalhasse pelo chão com o ataque voraz.
Parecia um furacão de desenho animado - a gente a apelidou de Tasmaia, o terror de Lena.

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