O desconforto de estar confinada ao terreno diminuiu, até desaparecer por completo, sem deixar nem memória da urgência em superar a barreira que a separava da rua, tão promissora em preencher o vazio que a agoniava. O mundo além do portão de ferro deixou de se apresentar tão atraente e à salsicha voltou a bastar deitar-se na grama, na modorra da tarde, absorvendo o agradável sol de outono.
A recíproca também era verdadeira, o interesse do
universo canino da vizinhança voltou ao nível mínimo: Lena era novamente só uma
pequena salsicha, magrinha e sem maiores atrativos aparentes.
A benção do esquecimento já tinha apagado da memória
da cachorrinha o sofrimento vivido poucas semanas antes, até que em uma manhã
acordou com um novo sentimento desconhecido. O vazio e a urgência retornaram
com força redobrada, mas em formato diferente. Desta vez não buscava algo que
nem sabia o que era – agora tinha a viva impressão de ter perdido uma coisa
muito importante, que não podia ter sido separada dela de jeito nenhum.
Agoniada, sacudiu o cobertor quadriculado de cima de
si e saiu para o quintal. A ronda criteriosa por cada canto resultou
infrutífera e a salsicha voltou para os fundos, tentando entrar na casa, onde
os donos ainda dormiam. Só podiam estar lá dentro. Tinha que entrar de qualquer
jeito!
Chorando desesperadamente, Lena começou a raspar com
as unhas e bater as patinhas sobre o vidro, tentando abrir caminho pelo meio da
barreira transparente. Estavam lá, podia vê-los! O barulho surtiu efeito, a
dona veio ver o que se passava.
“Que foi, Lena?”, perguntou, intrigada, enquanto
fazia correr a porta de vidro que isolava a casa do quintal dos fundos.
Sem dar atenção a ela, a salsicha entrou correndo na
sala e abocanhou com delicadeza a metade de um ossinho azul de plástico que
partira ao meio de tanto roer, levando-o em seguida para a caminha.
Voltou apressada e continuou com a colheita dos
desgarrados, carregando um a um para o calor e conforto do cobertor
quadriculado. Sentindo-se um pouco melhor, observou-os com carinho: a bolinha de
borracha vermelha, as duas metades rasgadas do ossinho azul, um osso semelhante
amarelo (este inteiro) e o pequeno e encardido cachorrinho de pelúcia, já sem
os olhos, arrancados por ela mesma.
Agora sim, estava tudo bem. Como podia tê-los
deixado abandonados, daquele jeito? No chão frio da sala, jogados...
Preocupada, Lena reuniu-os delicadamente, empurrando com o focinho, e depois se deitou
sobre eles, para garantir que se mantivessem aquecidos. E assim ficou, por 15
dias.
Para ela, tudo o mais perdera o sentido. Só deixava
a casinha para comer, fazer as necessidades e para receber os donos quando
chegavam da rua – mas só por alguns instantes, logo voltava ao ninho. Não
queria nem mais passear, no que era laçada pelo dono com a guia e levada contra
a vontade portão afora.
Os sinais da maternidade não demoraram a se revelar
no corpinho da salsicha. Sentia uma fome fora do comum – ao ouvir o cascatear
dos grãos estalando na vasilha corria para engolir com pressa toda a ração que
lhe serviam. E viu as tetas incharem, desconfortáveis, para depois se encherem
de leite suficiente para alimentar toda a ninhada.
O problema era que eles não mamavam. Não podia ser
culpa dela, ficava o dia todo à disposição... Tirando vez ou outra em que o
dono lhe apertava uma tetinha para verificar o conteúdo, nenhum leite saía – e
ia se acumulando. Com o passar dos dias, Lena começou a sentir uma leve dor,
que suportou bravamente. Tentava aliviar o ardor com lambidas vigorosas, mas
isso pouco podia fazer pelas mamas inchadas.
Assim foi por duas semanas, até que, em uma manhã como
outra qualquer, a salsicha acordou e nada mais daquilo fazia sentido. Passou os
olhos ao redor da caminha, onde as crias estavam comportadamente distribuídas
em semicírculo à sua volta, e viu nelas nada mais do que os antigos brinquedos.
Quando a dona se levantou e abriu a porta de vidro
dos fundos, Lena já a esperava abanando o rabinho, provocativa, com a metade
maior do osso azul partido na boca, do jeito que costumava fazer quando queria
brincar. Fabi recolheu o brinquedo e o atirou longe, sobre a camada de brita do
quintal. Animada, a cachorrinha prontamente correu para buscar e trouxe de
volta o pedaço de borracha, as tetinhas balançando, ainda cheias de leite.
Explicação
Já
tínhamos ouvido falar, mas nunca visto de perto. Com a Baleia, aconteceu logo
no primeiro cio e surgiu do dia para a noite. Em uma manhã, uns dois meses
depois do fim do sangramento, ela simplesmente transformou em filhotes os cinco
brinquedos que vivia a roer e ver atirados para um lado e outro. Carregou todos
para a caminha e formou um ninho, saindo dali quase só para comer.
Até
tentei tirar os brinquedos dela, mas o choro que isso provocou era tão sentido
e desesperado que não tive coragem e devolvi. Mas o pior era o leite que encheu
as tetinhas – era só apertar um pouco que espirrava para fora dos biquinhos.
O
curioso é que, do mesmo jeito que apareceu, o sentimento sumiu, da noite para o
dia. De repente ela parou de dar bola para os filhotes, que voltaram a ser só
brinquedos, atirados novamente para lá e para cá.
Foi a primeira gravidez psicológica de Lena.
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