Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A primeira ninhada

O turbilhão de emoções provocado pelo cio se prolongou por mais alguns dias após o uivo na madrugada, mas aos poucos os efeitos foram perdendo força e a vida de Lena voltou a entrar nos eixos.
O desconforto de estar confinada ao terreno diminuiu, até desaparecer por completo, sem deixar nem memória da urgência em superar a barreira que a separava da rua, tão promissora em preencher o vazio que a agoniava. O mundo além do portão de ferro deixou de se apresentar tão atraente e à salsicha voltou a bastar deitar-se na grama, na modorra da tarde, absorvendo o agradável sol de outono.

Durante os passeios, retornou ao desinteresse distante que dedicava à maioria dos cachorros que cruzava pelo caminho, na rua ou dentro das casas. Nada mais do rebolar de ancas, seções de cheira-cheira nos traseiros ou chacoalhares lânguidos de rabinhos – isso tudo tinha ficado para trás.
A recíproca também era verdadeira, o interesse do universo canino da vizinhança voltou ao nível mínimo: Lena era novamente só uma pequena salsicha, magrinha e sem maiores atrativos aparentes.
A benção do esquecimento já tinha apagado da memória da cachorrinha o sofrimento vivido poucas semanas antes, até que em uma manhã acordou com um novo sentimento desconhecido. O vazio e a urgência retornaram com força redobrada, mas em formato diferente. Desta vez não buscava algo que nem sabia o que era – agora tinha a viva impressão de ter perdido uma coisa muito importante, que não podia ter sido separada dela de jeito nenhum.
Agoniada, sacudiu o cobertor quadriculado de cima de si e saiu para o quintal. A ronda criteriosa por cada canto resultou infrutífera e a salsicha voltou para os fundos, tentando entrar na casa, onde os donos ainda dormiam. Só podiam estar lá dentro. Tinha que entrar de qualquer jeito!
Chorando desesperadamente, Lena começou a raspar com as unhas e bater as patinhas sobre o vidro, tentando abrir caminho pelo meio da barreira transparente. Estavam lá, podia vê-los! O barulho surtiu efeito, a dona veio ver o que se passava.
“Que foi, Lena?”, perguntou, intrigada, enquanto fazia correr a porta de vidro que isolava a casa do quintal dos fundos.
Sem dar atenção a ela, a salsicha entrou correndo na sala e abocanhou com delicadeza a metade de um ossinho azul de plástico que partira ao meio de tanto roer, levando-o em seguida para a caminha.
Voltou apressada e continuou com a colheita dos desgarrados, carregando um a um para o calor e conforto do cobertor quadriculado. Sentindo-se um pouco melhor, observou-os com carinho: a bolinha de borracha vermelha, as duas metades rasgadas do ossinho azul, um osso semelhante amarelo (este inteiro) e o pequeno e encardido cachorrinho de pelúcia, já sem os olhos, arrancados por ela mesma.
Agora sim, estava tudo bem. Como podia tê-los deixado abandonados, daquele jeito? No chão frio da sala, jogados... Preocupada, Lena reuniu-os delicadamente, empurrando com o focinho, e depois se deitou sobre eles, para garantir que se mantivessem aquecidos. E assim ficou, por 15 dias.
Para ela, tudo o mais perdera o sentido. Só deixava a casinha para comer, fazer as necessidades e para receber os donos quando chegavam da rua – mas só por alguns instantes, logo voltava ao ninho. Não queria nem mais passear, no que era laçada pelo dono com a guia e levada contra a vontade portão afora.
Os sinais da maternidade não demoraram a se revelar no corpinho da salsicha. Sentia uma fome fora do comum – ao ouvir o cascatear dos grãos estalando na vasilha corria para engolir com pressa toda a ração que lhe serviam. E viu as tetas incharem, desconfortáveis, para depois se encherem de leite suficiente para alimentar toda a ninhada.
O problema era que eles não mamavam. Não podia ser culpa dela, ficava o dia todo à disposição... Tirando vez ou outra em que o dono lhe apertava uma tetinha para verificar o conteúdo, nenhum leite saía – e ia se acumulando. Com o passar dos dias, Lena começou a sentir uma leve dor, que suportou bravamente. Tentava aliviar o ardor com lambidas vigorosas, mas isso pouco podia fazer pelas mamas inchadas.
Assim foi por duas semanas, até que, em uma manhã como outra qualquer, a salsicha acordou e nada mais daquilo fazia sentido. Passou os olhos ao redor da caminha, onde as crias estavam comportadamente distribuídas em semicírculo à sua volta, e viu nelas nada mais do que os antigos brinquedos.
Quando a dona se levantou e abriu a porta de vidro dos fundos, Lena já a esperava abanando o rabinho, provocativa, com a metade maior do osso azul partido na boca, do jeito que costumava fazer quando queria brincar. Fabi recolheu o brinquedo e o atirou longe, sobre a camada de brita do quintal. Animada, a cachorrinha prontamente correu para buscar e trouxe de volta o pedaço de borracha, as tetinhas balançando, ainda cheias de leite.
Em mais alguns dias, a benção do esquecimento voltaria a eliminar da memória de Lena qualquer registro do que tinha acabado de passar. Até o próximo cio.

Explicação
Já tínhamos ouvido falar, mas nunca visto de perto. Com a Baleia, aconteceu logo no primeiro cio e surgiu do dia para a noite. Em uma manhã, uns dois meses depois do fim do sangramento, ela simplesmente transformou em filhotes os cinco brinquedos que vivia a roer e ver atirados para um lado e outro. Carregou todos para a caminha e formou um ninho, saindo dali quase só para comer.
Até tentei tirar os brinquedos dela, mas o choro que isso provocou era tão sentido e desesperado que não tive coragem e devolvi. Mas o pior era o leite que encheu as tetinhas – era só apertar um pouco que espirrava para fora dos biquinhos.
O curioso é que, do mesmo jeito que apareceu, o sentimento sumiu, da noite para o dia. De repente ela parou de dar bola para os filhotes, que voltaram a ser só brinquedos, atirados novamente para lá e para cá.
Foi a primeira gravidez psicológica de Lena.

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