Não gostava de estranhos, muito menos na sua própria
casa. Mas não há nada tão ruim que não possa piorar: o elevador se abriu e dele
saíram um homem e uma mulher, acompanhados de um cachorro!
Ficou tão surpresa que não conseguiu nem latir,
apenas foi atrás dos três apartamento adentro, seguidos pelos donos, em direção
ao terraço. Acompanhando o cão subir a escada que levava à área externa, Lena
notou que ele era parecido com ela. Tinha o mesmo focinho comprido, as orelhas caídas,
as patas curtas e encurvadas para fora, além do tronco alongado. A cor era
diferente - o dorso, a cabeça e o rabo apareciam cobertos de um pelo negro e
lustroso, que na altura do peito dava lugar a um bege claro. Não havia dúvida,
era um legítimo salsicha.
Já tinha visto outros cães do tipo na rua, durante
os passeios, porém nunca de tão perto. Pareciam ter um grande ódio reprimido,
porque nunca houve um que não a recebesse com latidos raivosos, rosnados e até
dentadas quando tentava se aproximar.
Aquele não... Mostrava-se estranhamente calmo e
amigável caminhando pelo terraço, o focinho rente ao chão, farejando cada
canto. Mesmo assim, resolveu manter uma distância prudente.
“Lena, olha só que bonito o Raí...”, disse o dono,
sentando-se no chão e estalando os dedos.
Sem cerimônia, o salsicha visitante respondeu ao
chamado. Aproximou-se, subiu ao colo e colocou as duas patas nos ombros do
dono, disparando uma sequência de lambidas afetuosas no nariz.
“Ah... Tá abraçando...”, a dona murmurou, encantada.
“Tá querendo ganhar o sogro!”, completou, gargalhando.
Lena mal podia acreditar. O que era aquilo? Só ela
podia lamber o nariz do dono, mais ninguém! Indignada, disparou uma série de
latidos em protesto, que o cão entendeu como um convite à aproximação, vindo
com a língua para fora em sua direção.
Seus latidos não surtiam efeito nenhum. Teve que
passar longos minutos esquivando-se do bicho - que continuava tentando contato
-, até que os estranhos decidiram ir embora, levando-o no colo.
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Mal se lembrava da visita desagradável quando foi
assaltada pelo turbilhão de sensações, que já aprendera a conhecer bem. Os dias
passaram a se arrastar devagar. Dividia o tempo entre tentar estancar o sangue
que se esvaía lentamente dela e observar Bob do alto da sacada, com esperança de
um contato na próxima saída à rua.
Quando finalmente parou de sangrar, mergulhou
diretamente na angústia, em escala crescente. Estava nisso, até que, em um
final de tarde, deparou-se com a caminha e a jaula de plástico sendo levadas
para o meio da sala. O problema é que não havia sinal dos cubos que a dona
enchia de roupas sempre que iam a algum lugar, despertando a desconfiança de
Lena. O biscrok passou longe de convencê-la a entrar na caixa de transporte e o
dono teve que forçá-la para dentro.
Após uma curta mas ansiosa viagem, o carro parou em
frente a uma casa cercada por um portão de ferro, através do qual, ainda de
dentro da jaula, pode ver dois cachorros escuros, pacientemente sentados nas
patas traseiras, sobre a cobertura de brita do quintal.
Retirada da caixa, do alto do colo do dono,
reconheceu um dos cães – mesmo sob a tênue luz dos postes de iluminação da rua
teve certeza de que era o insistente visitante que a perseguira no terraço da
própria casa, o sorrateiro lambedor de narizes!
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| Raí |
“Olha só, Lena, o Raí...”, disse o dono, apontando o
salsicha atrás do portão.
O segundo elemento era muito parecido com Raí - só
um pouco maior, tinha pelos um pouco mais compridos, diferentes da pelagem
curta e lustrosa do indesejado. Solta no chão do lado de dentro do terreno,
Lena ainda teve tempo de perceber que se tratava de uma fêmea, enquanto se
esquivava do focinho impertinente do macho. Em movimento, fugindo do
perseguidor, foi tomada pelo horror ao ver sua caminha ser levada para dentro do
quintal e instalada em um canto da garagem.
O desespero só aumentaria. Estarrecida, observou o
homem que parecia ser o dono dos dois cães recolher a salsicha mais peluda e
empurrá-la para dentro da sua jaula de plástico, entregando-a depois a Fabi,
seguida de uma recomendação carinhosa: “Vê se se comporta, hein, Lana?”
O que estava acontecendo? Ia ficar ali? Os donos iam
levar a peluda com eles? Estava sendo trocada... O pensamento foi interrompido
pelo contato úmido da língua de Raí na ponta do seu rabo. Retomando a fuga,
Lena acompanhou impotente a saída dos donos, que entraram no carro em posse da
caixa de transporte e seu novo conteúdo – e se foram.
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No retorno ao apartamento, a nova salsicha não
demorou a se sentir em casa. Primeiro empreendeu uma ronda exploratória
minuciosa, farejando a presença de Baleia em cada cômodo. Mas, em seguida, já
pedia ajuda para alcançar o sofá – de compleição mais robusta que Lena, Lana
não tinha agilidade para subir sozinha.
![]() |
| Lana |
A peluda obedeceu quase inteiramente à recomendação
do próprio dono, a não ser na hora de dormir, quando começou a chorar, isolada
no terraço. Fabi se compadeceu da solidão de Lana.
“Tadinha, Amore, ela deve estar acostumada a dormir
encostadinha no Raí...”
Convencido, ele franqueou o acesso à salsicha, que
se dirigiu diretamente para o quarto, pondo-se em pé nas patas de trás e
tentando escalar a cama, com inúteis pulinhos curtos.
“Tadinha, Amore...”, derreteu-se Fabi.
Tendo o esforço reconhecido, Lana foi erguida para
cima e passou uma noite de sono tranquilo, deitada aos pés da cama.
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Enquanto isso, na casa, não se podia dizer o mesmo
de Lena. Nem teve tempo de considerar a fundo a repentina mudança em sua vida –
havia algo mais urgente com que se preocupar.
Raí não dava sinal de que pretendesse desistir,
perseguindo-a por todos os cantos do terreno, sob o olhar cúmplice do homem e
da mulher, que não pareciam nada dispostos a ajudá-la. Será que eles não
entendiam?
Não. Tanto que entraram na casa e fecharam a porta.
Cansada, Lena decidiu tentar uma nova tática.
Aproveitando a localização da caminha, no canto da garagem, colocou-se de
costas para a junção das duas paredes, mostrando os dentes e caprichando nos
rosnados, diante do salsicha que não deixava de encará-la. Pronto, assim estaria
segura - bastava estar atenta.
Pode desfrutar de alguns minutos de tenso descanso,
até que seus rosnados para afastar o lambão atraíram a mulher. Sem
misericórdia, ela espantou-a do canto e carregou a caminha para dentro da casa,
deixando-a novamente à mercê do perseguidor.
Não importava... Por mais que sentisse a agonia
desesperada pós-sangramento, Lena não deixaria seu vazio ser preenchido por
aquele estranho. Ninguém via que era o Bob que ela queria?
Foi uma noite longa, insone, em movimento constante,
de botes e escaramuças, de ataques e contra-ataques, ação e dissuasão. Lena
estava em muito melhor forma física do que o traiçoeiro lambedor de narizes e
emergiu vencedora, resistindo bravamente ao assédio.
Exausta, viu com alívio renovador o carro dos donos
se aproximar do portão, trazendo a salsicha peluda na sua própria jaula. Aberta
a portinhola, tomou o lugar da concorrente mal ela saíra da caixa, deixando-se
tombar, esgotada. Finalmente segura, entregou-se ao sono.
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Lena acordou na chegada ao apartamento. Satisfeita,
reconheceu a garagem ainda de dentro da jaula, ao ser retirada do carro. Na
sala, depois de libertada, sentiu já no tapete de entrada o cheiro da peluda –
foi seguindo a trilha pelo corredor, cômodo a cômodo, acompanhada pelo olhar
curioso dos donos.
Então, além de abandoná-la naquela situação
desesperadora por uma noite inteira, tinham trazido a outra salsicha para a
casa dela?
Dominada pela raiva, rastreou a pista da outra até o
quarto do casal – terminava na cama. Alcançou o colchão de um salto e teve a
confirmação. Até ali, onde ela raramente era admitida, a concorrente teve
acesso permitido!
| Raí e Lana (ou seria Lana e Raí?) |
Não, isso não ia ficar assim... Ergueu o focinho dos
lençóis que farejava furiosamente e lançou um olhar de desafio na direção dos
donos. Divertidos, eles observavam a cena parados na porta.
Foi com prazer que viu os sorrisos se transformarem em
espanto enquanto se agachava e aliviava todo o conteúdo da bexiga sobre a cama,
em um longo xixi.
Explicação
Essa
foi a primeira tentativa de fazer a Baleia ter filhotes, sem sucesso. Depois de
uma aproximação inicial dela com o Raí no nosso apartamento, levamos ela para a
casa do Daniel e da Letícia, e trouxemos a irmã do salsicha (a Lana) conosco,
para não atrapalhar.
Não
só não deu certo, como a vingança de Lena foi terrível...


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