Mas o pior ainda estava por vir. Para seu espanto e
medo, começou a perder sangue – primeiro em gotas intermitentes, depois em um
fluxo mais constante, que tentava estancar com a língua, com servidas lambidas.
Os donos tinham percebido a situação, limitando-se a
cobrir os móveis da sala com lençóis velhos e com um certo cheiro de mofo, além
de recolher os quadrados de tecido fofos sobre os quais ela adorava se deitar.
Mas a nova condição de Lena não tinha provocado
reações estranhas só nos donos. Com desespero, notou que agora chamava muito
mais atenção dos cachorros nas casas e na rua, durante os passeios. Os machos,
que antes praticamente ignoravam a pequena salsicha, agora se aproximavam de
boca aberta, alguns indo diretamente cheirar-lhe o traseiro, sem cerimônia – ao
que ela reagia com raiva, repelindo o
atrevido com gritinhos indignados.
Quando nada mais parecia poder piorar, o turbilhão
de sensações apresentou uma nova variante, não mais só física. É verdade que
tudo começava com as ondas de calor, partindo das entranhas da salsichinha e se
amplificando de intensidade em direção ao rabo. Mas depois vinha algo mais
forte, uma agonia, um vazio e a certeza de que lhe faltava alguma coisa que nem
os donos poderiam dar.
Chocada, percebeu que agora via os cachorros
atrevidos com outros olhos. Era mais forte do que ela, para alguns chegava a
rebolar os estreitos quartos traseiros, erguendo o rabinho para cima e para o
lado, à espera do focinho – ao que era interrompida logo pelo dono, puxando-a
pela guia.
Naquela noite, simplesmente não conseguia dormir.
Deitada na caminha, revirava-se sobre o cobertor, de barriga para cima,
tentando aliviar a quentura implacável que tomava conta do seu interior. De
olhinhos bem abertos, observava a luz esbranquiçada se infiltrando pela pequena
janela de vidro basculante, no alto do quartinho onde dormia, nos fundos da
casa.
Levantou-se e colocou a cabeça para fora da porta –
fazia a noite mais clara que já tinha visto, um brilho prateado cobria todo o
terreno, transformando a camada de brita do quintal em um caleidoscópio de
fagulhas luminosas.
Pata ante pata, Lena deixou o quartinho para trás e
caminhou pelas pedrinhas, entontecida pelo efeito ótico, até alcançar a grama,
na frente da casa, onde até as folhinhas verdes tinham assumido um tom
acinzentado. Olhando para cima, a cachorrinha foi ofuscada pela fonte da
estranha luz: um círculo cor de prata ainda maior que o outro, dourado, seu
conhecido.
Arrepiada, Lena sentia o tumulto interior prestes a
transbordar, à medida que os pelos das costas se eriçavam, do rabo ao pescoço.
Não aguentava mais, precisava botar aquilo para fora: a falta, o vazio - o
desejo. Jogou a cabeça para trás e se entregou a um longo e instintivo uivo: auuuuuuuuuuuuuuuuuu!
A própria salsicha se surpreendeu com o som que
saíra de dentro dela. Mas, estranhamente, experimentava certo conforto. Sem
pensar, repetiu o uivo, uma e outra vez.
Aliviada, sentiu o cansaço tomar conta do corpo -
agora já podia dormir. Voltou para a caminha e caiu em um sono profundo, sem
sonhos.
Explicação
A
Baleia instituiu a tradição logo no primeiro cio. No auge da agonia, talvez na
tentativa de atrair algum macho, ela disparava uma série de verdadeiros
lamentos, sentidos, profundos, um som que nem parecia vir do corpinho da
salsicha.
Daí
para frente, passou a fazer isso em todo cio. A gente já esperava e até tentava
adivinhar qual seria a noite do uivo de Lena.
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