Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Lamento na noite

Lena se sentia estranha já há alguns dias. No começo tinha sido algo apenas físico, uma combinação de cansaço e mal estar constante. Os olhos pesavam, a cabeça doía e os calafrios percorriam a comprida espinha da salsicha - eram quase uma ordem do corpo para permanecer quieta, encolhida debaixo do cobertor quadriculado.
Mas o pior ainda estava por vir. Para seu espanto e medo, começou a perder sangue – primeiro em gotas intermitentes, depois em um fluxo mais constante, que tentava estancar com a língua, com servidas lambidas.
Os donos tinham percebido a situação, limitando-se a cobrir os móveis da sala com lençóis velhos e com um certo cheiro de mofo, além de recolher os quadrados de tecido fofos sobre os quais ela adorava se deitar.
Mas a nova condição de Lena não tinha provocado reações estranhas só nos donos. Com desespero, notou que agora chamava muito mais atenção dos cachorros nas casas e na rua, durante os passeios. Os machos, que antes praticamente ignoravam a pequena salsicha, agora se aproximavam de boca aberta, alguns indo diretamente cheirar-lhe o traseiro, sem cerimônia – ao que ela reagia  com raiva, repelindo o atrevido com gritinhos indignados.
Quando nada mais parecia poder piorar, o turbilhão de sensações apresentou uma nova variante, não mais só física. É verdade que tudo começava com as ondas de calor, partindo das entranhas da salsichinha e se amplificando de intensidade em direção ao rabo. Mas depois vinha algo mais forte, uma agonia, um vazio e a certeza de que lhe faltava alguma coisa que nem os donos poderiam dar.
Chocada, percebeu que agora via os cachorros atrevidos com outros olhos. Era mais forte do que ela, para alguns chegava a rebolar os estreitos quartos traseiros, erguendo o rabinho para cima e para o lado, à espera do focinho – ao que era interrompida logo pelo dono, puxando-a pela guia.
Naquela noite, simplesmente não conseguia dormir. Deitada na caminha, revirava-se sobre o cobertor, de barriga para cima, tentando aliviar a quentura implacável que tomava conta do seu interior. De olhinhos bem abertos, observava a luz esbranquiçada se infiltrando pela pequena janela de vidro basculante, no alto do quartinho onde dormia, nos fundos da casa.
Levantou-se e colocou a cabeça para fora da porta – fazia a noite mais clara que já tinha visto, um brilho prateado cobria todo o terreno, transformando a camada de brita do quintal em um caleidoscópio de fagulhas luminosas.
Pata ante pata, Lena deixou o quartinho para trás e caminhou pelas pedrinhas, entontecida pelo efeito ótico, até alcançar a grama, na frente da casa, onde até as folhinhas verdes tinham assumido um tom acinzentado. Olhando para cima, a cachorrinha foi ofuscada pela fonte da estranha luz: um círculo cor de prata ainda maior que o outro, dourado, seu conhecido.
Arrepiada, Lena sentia o tumulto interior prestes a transbordar, à medida que os pelos das costas se eriçavam, do rabo ao pescoço. Não aguentava mais, precisava botar aquilo para fora: a falta, o vazio - o desejo. Jogou a cabeça para trás e se entregou a um longo e instintivo uivo: auuuuuuuuuuuuuuuuuu!
A própria salsicha se surpreendeu com o som que saíra de dentro dela. Mas, estranhamente, experimentava certo conforto. Sem pensar, repetiu o uivo, uma e outra vez.
Aliviada, sentiu o cansaço tomar conta do corpo - agora já podia dormir. Voltou para a caminha e caiu em um sono profundo, sem sonhos.

Explicação
A Baleia instituiu a tradição logo no primeiro cio. No auge da agonia, talvez na tentativa de atrair algum macho, ela disparava uma série de verdadeiros lamentos, sentidos, profundos, um som que nem parecia vir do corpinho da salsicha.
Daí para frente, passou a fazer isso em todo cio. A gente já esperava e até tentava adivinhar qual seria a noite do uivo de Lena.

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