Já tinha visto isso antes e sabia o que estava para
acontecer: mudança. Um arrepio de desgosto subiu pela espinha alongada da
salsicha ao se lembrar do antigo apartamento, onde não tinha nem vista para a
rua e passava os dias debaixo do cobertor quadriculado, tentando chegar a um
acordo impossível com o tempo até os donos voltarem para ela. Será que ia ser
levada de volta para aquele caixote hermético? Gostava tanto da casa, do
gramado, o mundo passando diante do portão... Para onde iam?
Quando vieram buscá-la, no final da tarde, nem
resistiu. Resignada, já dentro da jaulinha de plástico, ainda teve tempo de
lançar uma olhada final para o gramado e o pesado portão de ferro, que ouviu
fechar com o característico ruído metálico atrás do dono pela última vez.
O trajeto de carro foi curto e a salsicha estremeceu
de tristeza ao se deparar com o prédio, visão confirmada pelo comprido,
estreito e escuro corredor, terminando no cubículo que lentamente parecia se
mover para cima – era mesmo um apartamento.
Mas, ao se ver livre da jaula, Lena se surpreendeu:
o lugar era enorme, muito maior do que a claustrofóbica primeira moradia.
Começou pelo reconhecimento da sala, dividida em dois ambientes, farejando o
chão e identificando os móveis – sua antiga toca não estava entre eles, tinha
sido substituída por uma peça mais macia e comprida, que se tornaria a
preferida da salsicha.
Prosseguiu com a exploração por um extenso corredor,
que ligava a sala a outros três cômodos, incluindo o do fundo, onde encontrou a
cama dos donos. O ambiente terminava em uma porta de vidro, bem iluminado pela
luz do final da tarde. Sentiu o coração disparar com a descoberta: do outro
lado da superfície transparente havia uma sacada, e com vista! Uma rede que
cobria a grade de metal limitava a visão da cachorrinha nos primeiros dias, mas
depois foi retirada.
Lena descobriu que havia uma sacada em cada fachada
do apartamento, o que lhe possibilitava um amplo ângulo de visão, do alto do
sexto andar – as outras duas ficavam na cozinha e na sala. Seria aquilo tudo
seu, lá embaixo?
Tinha mais. Conectada à sala por uma pequena escada
de pedra havia uma área externa, parcialmente descoberta, com um profundo
reservatório de água de que a princípio teve medo de se aproximar, mas logo
transformaria em seu bebedouro. Lá fora, dentro de um apertado quarto escuro e
todo coberto de madeira foi instalada sua caminha – na porta ao lado, com o
chão forrado pelas folhas cinzentas de papel, descobriu que deveria fazer as
necessidades. Logo aprendeu que naquele terraço batia sol do início da manhã ao
meio da tarde, e passava horas aquecendo os ossos sob a luz dourada. No fim,
a mudança saíra melhor que o esperado...
A questão do território Lena demoraria mais a
solucionar. Nos primeiros dias resolveu aplicar o mesmo princípio que funcionou
na casa: receber com raiva, ódio e rancor qualquer coisa que adentrasse seu
campo de visão. Era preciso estabelecer uma reputação do zero na nova
vizinhança e havia muito a defender - no seu entendimento, tudo o que podia
enxergar do alto das sacadas era sua propriedade.
Nos primeiros dias latia para tudo e todos que via
se movendo lá embaixo. Inicialmente decepcionada, notou que seus protestos não
surtiam nenhum efeito. Carros, motos, bicicletas, skates, cachorros e até as
odiadas crianças seguiam circulando pela sua rua, inabaláveis. Depois, mais
conformada, percebeu que eles ofereciam pouco ou nenhum risco aos seus domínios
mais diretos, e que protegida no alto da fortaleza não precisava mais dar
expediente das 8h às 18h, como fazia na casa, espicaçada todo o tempo pela
ameaça de invasão do terreno.
Agora podia relaxar, dormir até mais tarde, apreciar
a vista e até mesmo distribuir um ou outro latido enfadado ao ver um desafeto
em especial cruzar a calçada, seis andares abaixo. Cada vez mais adaptada,
sentia-se confortável e no domínio de sua existência. Era, enfim, a rainha em
seu castelo.
Explicação
A
gente achava que a Baleia fosse sofrer com a mudança, depois de viver um ano e
meio na casa do Costa e Silva. Mas ela se adaptou bem e rápido à cobertura da
Rua Lages – acho que em parte pela existência da área externa, da piscina, e em
parte pelas sacadas, que garantiam um bom horizonte de visão.
O
curioso é que a salsicha assumiu um ar aliviado no isolamento confortável do
alto, livre da obrigação de vigiar o portão da casa o dia todo – parecia um
aposentado que para de trabalhar antes dos 50 anos e se dá conta de que tem
metade do caminho ainda pela frente.
Foi o começo da vida mansa de Lena.Olha a salsicha curtindo um blues...
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