Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A queda para cima

Tudo de novo! Os móveis fora do lugar, caixas de papelão pela sala, a casa em total desordem, até os homens de cheiro forte tinham voltado – não tinha certeza se eram os mesmos, mas cheiravam parecido. Dessa vez Lena não protestou, deixou-se ficar deitada sobre a caminha, a porta da mini despensa semiaberta, observando a movimentação em um estupor de apreensão e expectativa.

Já tinha visto isso antes e sabia o que estava para acontecer: mudança. Um arrepio de desgosto subiu pela espinha alongada da salsicha ao se lembrar do antigo apartamento, onde não tinha nem vista para a rua e passava os dias debaixo do cobertor quadriculado, tentando chegar a um acordo impossível com o tempo até os donos voltarem para ela. Será que ia ser levada de volta para aquele caixote hermético? Gostava tanto da casa, do gramado, o mundo passando diante do portão... Para onde iam?
Quando vieram buscá-la, no final da tarde, nem resistiu. Resignada, já dentro da jaulinha de plástico, ainda teve tempo de lançar uma olhada final para o gramado e o pesado portão de ferro, que ouviu fechar com o característico ruído metálico atrás do dono pela última vez.
O trajeto de carro foi curto e a salsicha estremeceu de tristeza ao se deparar com o prédio, visão confirmada pelo comprido, estreito e escuro corredor, terminando no cubículo que lentamente parecia se mover para cima – era mesmo um apartamento.
Mas, ao se ver livre da jaula, Lena se surpreendeu: o lugar era enorme, muito maior do que a claustrofóbica primeira moradia. Começou pelo reconhecimento da sala, dividida em dois ambientes, farejando o chão e identificando os móveis – sua antiga toca não estava entre eles, tinha sido substituída por uma peça mais macia e comprida, que se tornaria a preferida da salsicha.
Prosseguiu com a exploração por um extenso corredor, que ligava a sala a outros três cômodos, incluindo o do fundo, onde encontrou a cama dos donos. O ambiente terminava em uma porta de vidro, bem iluminado pela luz do final da tarde. Sentiu o coração disparar com a descoberta: do outro lado da superfície transparente havia uma sacada, e com vista! Uma rede que cobria a grade de metal limitava a visão da cachorrinha nos primeiros dias, mas depois foi retirada.
Lena descobriu que havia uma sacada em cada fachada do apartamento, o que lhe possibilitava um amplo ângulo de visão, do alto do sexto andar – as outras duas ficavam na cozinha e na sala. Seria aquilo tudo seu, lá embaixo?
Tinha mais. Conectada à sala por uma pequena escada de pedra havia uma área externa, parcialmente descoberta, com um profundo reservatório de água de que a princípio teve medo de se aproximar, mas logo transformaria em seu bebedouro. Lá fora, dentro de um apertado quarto escuro e todo coberto de madeira foi instalada sua caminha – na porta ao lado, com o chão forrado pelas folhas cinzentas de papel, descobriu que deveria fazer as necessidades. Logo aprendeu que naquele terraço batia sol do início da manhã ao meio da tarde, e passava horas aquecendo os ossos sob a luz dourada. No fim, a mudança saíra melhor que o esperado...
A questão do território Lena demoraria mais a solucionar. Nos primeiros dias resolveu aplicar o mesmo princípio que funcionou na casa: receber com raiva, ódio e rancor qualquer coisa que adentrasse seu campo de visão. Era preciso estabelecer uma reputação do zero na nova vizinhança e havia muito a defender - no seu entendimento, tudo o que podia enxergar do alto das sacadas era sua propriedade.
Nos primeiros dias latia para tudo e todos que via se movendo lá embaixo. Inicialmente decepcionada, notou que seus protestos não surtiam nenhum efeito. Carros, motos, bicicletas, skates, cachorros e até as odiadas crianças seguiam circulando pela sua rua, inabaláveis. Depois, mais conformada, percebeu que eles ofereciam pouco ou nenhum risco aos seus domínios mais diretos, e que protegida no alto da fortaleza não precisava mais dar expediente das 8h às 18h, como fazia na casa, espicaçada todo o tempo pela ameaça de invasão do terreno.
Agora podia relaxar, dormir até mais tarde, apreciar a vista e até mesmo distribuir um ou outro latido enfadado ao ver um desafeto em especial cruzar a calçada, seis andares abaixo. Cada vez mais adaptada, sentia-se confortável e no domínio de sua existência. Era, enfim, a rainha em seu castelo.

Explicação
A gente achava que a Baleia fosse sofrer com a mudança, depois de viver um ano e meio na casa do Costa e Silva. Mas ela se adaptou bem e rápido à cobertura da Rua Lages – acho que em parte pela existência da área externa, da piscina, e em parte pelas sacadas, que garantiam um bom horizonte de visão.
O curioso é que a salsicha assumiu um ar aliviado no isolamento confortável do alto, livre da obrigação de vigiar o portão da casa o dia todo – parecia um aposentado que para de trabalhar antes dos 50 anos e se dá conta de que tem metade do caminho ainda pela frente.
Foi o começo da vida mansa de Lena.

Olha a salsicha curtindo um blues...


Nenhum comentário:

Postar um comentário