Tão perto e tão longe... Do alto da sua fortaleza,
Lena podia observá-lo o dia todo. Vivia em uma das casas vizinhas do prédio,
perfeitamente visível da sacada lateral, que partia da cozinha.
Havia outros no campo de visão da salsicha, alguns
acompanhados, outros caminhando despreocupados e livres pela rua. Mas, aos
olhos de Lena, era o único. Ele também não vivia só, tinha a companhia
constante de um baixinho barbudo e grisalho, com pelos em um tom prateado que
para ela sempre parecera artificial demais para um cachorro.
Bob não... Tinha uma pelagem bege amarelada que
brilhava ao sol e sempre a atraía, além de um ar fagueiro e descompromissado,
sedutor até... Lá de cima Lena não se cansava de vê-lo patrulhando o terreno,
flutuando em um trote gracioso, enquanto o barbudinho o seguia por todo lado,
arrastando as patas peludas e levantando poeira.
Para se fazer notar, Lena chegava a colocar meio
corpo para fora da grade, sustentada pelas patas dianteiras sobre o parapeito
inferior da sacada. Empinava-se da melhor forma que a postura perigosa permitia
- assustando alguns vizinhos – e lançava o latido mais sonoro que conseguia.
Ele retribuía o chamado, sentado sob as patas traseiras, no que era logo
abafado pelos ganidos estridentes do barbudo, que faziam com que se distraísse
e desviasse a atenção dela.
Mesmo assim, não desistia. As expectativas se
renovavam diariamente, quando saía para a rua, levada pelos donos. Ao deixar o
prédio, puxava a guia com força para a esquerda e em poucos passos chegava onde
queria. Dali podia vê-lo, no fundo da casa, a uma breve corrida de distância.
Esse era o problema...
Forçava a guia, na tentativa de arrastar o dono para
dentro da casa de muro baixo – o portão de ferro da garagem vivia aberto, era
só entrar...
“Lena, aí não...”, escutava sempre.
Lá dentro, Bob raspava as unhas pela tela de metal
que o mantinha restrito aos fundos do terreno, ansioso. Sentindo a pressão
definitiva da coleira, a salsicha seguia caminhando, acompanhando o muro, mas
parava logo adiante, no portãozinho de pedestres que também dava vista para a
parte de trás da casa. Ali, com os olhinhos ainda fixos nele, deixava escapar
um choro de despedida antes de continuar o passeio. Tão perto e tão longe...
| No portão da casa do Bob |
Mas não era sempre assim e nisso se apoiava a grande
esperança de Lena. Lembrava bem daquele dia, quando encontrou Bob livre, solto
na parte da frente da casa. De perto era ainda mais bonito, mas parecia menor,
pouco mais alto do que ela. E só agora podia reparar, ele tinha um rabo
estranho, enrolado e virado para o lado – torto mesmo. Claro que isso não tinha
importância, reparando bem era até charmoso...
Naquela vez enfim teve a chance de se aproximar,
cheirá-lo e até trocar duas ou três lambidas rápidas no focinho, antes que o
dono a puxasse e fosse forçada a continuar o passeio, sob protestos e
choramingos.
De volta à cobertura, correu para a sacada da
cozinha, de onde pode vê-lo sentado, já olhando para cima. Um latido alegre
transbordou para fora da garganta da salsicha, prontamente respondido por Bob,
encoberto logo pelos ganidos ansiosos do barbudo acinzentado. Tão longe e tão
perto...
| Bob e o barbudo |
Explicação
A
Baleia sempre teve uma queda pelos cachorros de rua, especialmente aqueles de
pelo amarelo, no tom que não se vê em quase nenhuma raça pura.
Depois da mudança para o apartamento da Rua Lages, ela se fixou no Bob, um vira-lata dessa cor característica que vivia em uma casa a um lote de distância do nosso prédio.
Depois da mudança para o apartamento da Rua Lages, ela se fixou no Bob, um vira-lata dessa cor característica que vivia em uma casa a um lote de distância do nosso prédio.
Ela
passava horas na sacada da cozinha, olhando para baixo, acompanhando cada passo
dele e de um Schnauzer cinza que vivia no mesmo terreno. Quando ia passear, não
tinha uma vez em que não dobrasse automaticamente à esquerda e arrastasse a
gente até a frente da casa. Aí se seguiam instantes intensos de trocas de
olhares e algum chororô, até eu conseguir arrastá-la de lá para continuar o
passeio.
Foi o primeiro amor de Lena.Olha a Baleia à procura do Bob:
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