Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Bob, meu amor


Tão perto e tão longe... Do alto da sua fortaleza, Lena podia observá-lo o dia todo. Vivia em uma das casas vizinhas do prédio, perfeitamente visível da sacada lateral, que partia da cozinha.
Havia outros no campo de visão da salsicha, alguns acompanhados, outros caminhando despreocupados e livres pela rua. Mas, aos olhos de Lena, era o único. Ele também não vivia só, tinha a companhia constante de um baixinho barbudo e grisalho, com pelos em um tom prateado que para ela sempre parecera artificial demais para um cachorro.
Bob não... Tinha uma pelagem bege amarelada que brilhava ao sol e sempre a atraía, além de um ar fagueiro e descompromissado, sedutor até... Lá de cima Lena não se cansava de vê-lo patrulhando o terreno, flutuando em um trote gracioso, enquanto o barbudinho o seguia por todo lado, arrastando as patas peludas e levantando poeira.
Para se fazer notar, Lena chegava a colocar meio corpo para fora da grade, sustentada pelas patas dianteiras sobre o parapeito inferior da sacada. Empinava-se da melhor forma que a postura perigosa permitia - assustando alguns vizinhos – e lançava o latido mais sonoro que conseguia. Ele retribuía o chamado, sentado sob as patas traseiras, no que era logo abafado pelos ganidos estridentes do barbudo, que faziam com que se distraísse e desviasse a atenção dela.
Mesmo assim, não desistia. As expectativas se renovavam diariamente, quando saía para a rua, levada pelos donos. Ao deixar o prédio, puxava a guia com força para a esquerda e em poucos passos chegava onde queria. Dali podia vê-lo, no fundo da casa, a uma breve corrida de distância. Esse era o problema...
Forçava a guia, na tentativa de arrastar o dono para dentro da casa de muro baixo – o portão de ferro da garagem vivia aberto, era só entrar...
“Lena, aí não...”, escutava sempre.
Lá dentro, Bob raspava as unhas pela tela de metal que o mantinha restrito aos fundos do terreno, ansioso. Sentindo a pressão definitiva da coleira, a salsicha seguia caminhando, acompanhando o muro, mas parava logo adiante, no portãozinho de pedestres que também dava vista para a parte de trás da casa. Ali, com os olhinhos ainda fixos nele, deixava escapar um choro de despedida antes de continuar o passeio. Tão perto e tão longe...
No portão da casa do Bob
Mas não era sempre assim e nisso se apoiava a grande esperança de Lena. Lembrava bem daquele dia, quando encontrou Bob livre, solto na parte da frente da casa. De perto era ainda mais bonito, mas parecia menor, pouco mais alto do que ela. E só agora podia reparar, ele tinha um rabo estranho, enrolado e virado para o lado – torto mesmo. Claro que isso não tinha importância, reparando bem era até charmoso...
Naquela vez enfim teve a chance de se aproximar, cheirá-lo e até trocar duas ou três lambidas rápidas no focinho, antes que o dono a puxasse e fosse forçada a continuar o passeio, sob protestos e choramingos.
Bob e o barbudo
De volta à cobertura, correu para a sacada da cozinha, de onde pode vê-lo sentado, já olhando para cima. Um latido alegre transbordou para fora da garganta da salsicha, prontamente respondido por Bob, encoberto logo pelos ganidos ansiosos do barbudo acinzentado. Tão longe e tão perto... 

Explicação
A Baleia sempre teve uma queda pelos cachorros de rua, especialmente aqueles de pelo amarelo, no tom que não se vê em quase nenhuma raça pura.
Depois da mudança para o apartamento da Rua Lages, ela se fixou no Bob, um vira-lata dessa cor característica que vivia em uma casa a um lote de distância do nosso prédio.
Ela passava horas na sacada da cozinha, olhando para baixo, acompanhando cada passo dele e de um Schnauzer cinza que vivia no mesmo terreno. Quando ia passear, não tinha uma vez em que não dobrasse automaticamente à esquerda e arrastasse a gente até a frente da casa. Aí se seguiam instantes intensos de trocas de olhares e algum chororô, até eu conseguir arrastá-la de lá para continuar o passeio.
Foi o primeiro amor de Lena.

Olha a Baleia à procura do Bob:

 

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