Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O incidente do cocô

Lena abriu devagar os olhinhos na penumbra da sala. Piscou duas vezes e olhou ao redor – tudo quieto. Deitada em um dos cantos do sofá marrom de três lugares, mal dava para ver a salsicha, o pelo acobreado camuflado no tecido, com a ajuda da semiescuridão do começo de noite.
De repente, de uma vez, a lembrança veio forte. O que eu fiz? De novo? Por quê? Pra quê? De novo...
Levantou a cabeça e perscrutou o ambiente, tentando identificar o barulho do portão da garagem do prédio, o motor do Fusca ou o ruído das engrenagens do elevador, todos sinais da chegada iminente dos donos. Nada, tudo quieto. Só um ou outro carro passava lá embaixo, na rua.
A salsicha deitou a cabeça de novo e tentou dormir, mas não conseguiu. Agora era só uma questão de tempo... Quanto? Ah, como era difícil isso de tentar prever quando ou quanto as coisas demorariam para acontecer... O tempo era mesmo uma coisa muito confusa.
De um salto a cachorrinha levantou, sacudiu as orelhas e desceu do sofá, caminhando lentamente pelo corredor, as patinhas ressoando uma de cada vez ao contato com o assoalho laminado de madeira, no rebolado característico dos cães de pernas curtas.
Sem olhar para o lado, passou direto pelo quarto de hóspedes, sem coragem para entrar, chegando à sacada do quarto do casal. Com a cabeça entre as grades, tentou enxergar algum sinal dos donos, sem sucesso.
Nada a fazer, só esperar... Bom, melhor esperar no fofinho, então.... Voltou para o sofá da sala e se deitou, com os olhos fechados. O sono quase chegava quando o estrondo seco do elevador começando a se mover disparou uma corrente elétrica pelo corpinho alongado. São eles! E agora? Melhor fingir que não aconteceu nada e ficar quieta...
De olhos arregalados, a salsicha escutou o ruído da chave introduzida na fechadura, o ferrolho girando e a porta abrindo. Levantou a cabeça e viu o dono entrar na casa, encostar a porta e jogar a mochila no sofá.
“Lena... Leninha... Oi, Lena!”, chamou.
A cachorrinha permanecia imóvel, com os olhos bem abertos, debaixo do cobertor. O dono acendeu a luz, aproximou-se e acariciou suavemente a cabeça e as orelhas da salsicha, que retribuiu com duas lambidas delicadas nos dedos dele.
Até aqui, tudo bem...
Ele levantou e seguiu pelo corredor, entrando no quarto de hóspedes e depois no banheiro, ligado ao cômodo. Escutando os passos, Lena se encolheu, os olhos fechados, a mandíbula travada. O horror...
“Lena!”, o dono gritou, lá do banheiro.
Ai, ai, ai... A cachorrinha suspirou, já se levantando.
No banheiro, o cesto de lixo estava no seu lugar, só levemente destampado, o suficiente para ser esvaziado completamente da maçaroca de papel higiênico usado, agora espalhado pelo chão.
“Lena, de novo!”, gritou o dono, batendo a mão com força na porta do banheiro.
Voltou para a sala e olhou fixamente para a cadelinha, imóvel, no chão, já com a cabeça e as orelhas baixas, o corpo curvado, quase rastejando.
Eu não queria... Eu nem sei por que fiz isso... Desculpa... Se ele pudesse me ouvir...
“Já pra casinha!”, o dono gritou, apontando o dedo para a escada que dá acesso à área da piscina.
Passando colada ao sofá, Lena se arrastou pela sala e para fora, o rabo entre as pernas, o tronco penso para baixo, a barriga quase arrastando no piso de porcelana gelado que ela sempre tentava evitar.
Não tinha chegado nem ao terceiro degrau quando escutou o barulho da porta fechando atrás de si, isolando-a da sala. Entrou no quartinho e deslizou para debaixo do cobertor quadriculado, sobre a caminha acolchoada.
E agora, quanto tempo? Ah, o tempo... Os olhinhos quase fechavam. Sono...

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O estrondo da porta da rua se abrindo arrancou Lena do torpor. A Mama! Mama! Quanto tempo tinha dormido?
“Adivinha?”, diz o dono, antes mesmo de a mulher sentar-se no sofá.
“O quê?”, ela perguntou, colocando a bolsa sobre a mesinha no centro da sala. “De novo?”
“Não falei pra você fechar a porta do corredor quando sair?”, ele resmunga.
“Esqueci...”
No último degrau da escada, atrás da porta de vidro, Lena pode ver a dona se aproximando e começou a pular. Liberado o acesso, a salsicha correu para o meio da sala e deitou de barriga para cima.
“Ah, Lena...”, diz o dono, sem conseguir segurar o riso. A cachorrinha se contorcia no chão, caprichando no olhar de coitada.
“Tá bom, vem cá!”
Baleia saltou de imediato para o sofá, lambendo repetidamente as mãos do dono, que sorria, condescendente.
“É por isso que ela nunca aprende!”, reclama Fabi. 

Explicação
Não, não é todo dia que a Baleia faz isso. Mas se chegamos em casa e saímos pouco tempo depois, deixando ela sozinha, é certo que vai acontecer.
Às vezes espalha o lixo de um dos banheiros, às vezes até dos dois - sempre com delicadeza, sem derrubar o cesto. Mesmo baixinha como ela é, só destampa e retira cuidadosamente o que tem lá dentro.
É a pequena vingança de Lena.

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