Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O resgate de Obama

Já tinha visto ele antes, perambulando pelas redondezas. Aparecia de noite, como um fantasma prateado, brilhando debaixo da luz fraca e esbranquiçada dos postes. Desceu devagar a rua do terreno baldio, que se juntava à sua, mas não se aproximou. Ficou ali, sentado no meio do calçamento, observando-a à distância, enquanto Lena erguia as orelhas, atenta a qualquer ruído, farejando o ar parado, na esperança que um vento qualquer trouxesse mais informações do estranho. O impasse durou poucos segundos, o espectro cinzento retomou seu deslocamento lento na direção oposta à da casa da salsicha, rumo ao campo de futebol.
Hoje podia vê-lo melhor, iluminado pelo sol a pino da manhã de domingo. Vinha do mesmo lugar, caminhando penosamente pelas pedras ásperas que faziam as vezes de asfalto por ali, de cabeça baixa e olhos semicerrados, na tentativa de se proteger da claridade ofuscante do meio-dia.

Dessa vez não parou, seguiu com os passos cambaleantes em direção à casa, onde Lena montava guarda rente ao portão. À medida que foi se aproximando, a figura castigada foi ficando mais nítida aos olhos da salsicha. Tinha as patas curtas e o focinho alongado como ela – aliás, eram praticamente do mesmo tamanho. Quando chegou mais perto, Lena notou a triste situação do cachorro. O dorso alongado estava nu, mesma situação das orelhas e do rabo, coberto de sardas e sinais de queimaduras de sol – era o que lhe conferia o aspecto cinzento e espectral sob a luz noturna dos postes.
O cão aproximou o focinho do portão com humildade, cumprimento que Lena retribuiu com um misto de medo e piedade. Desviando o olhar da cabeça que pendia pesada dos ombros, onde se viam cicatrizes e pequenas feridas das escaramuças das ruas, a salsicha percebeu que ele respirava com dificuldade – as costelas pareciam querer rasgar a pele a cada ofegada, os olhos transfigurados de fome e de sede mal conseguiam se fixar nos dela.
Estavam nisso quando o dono apareceu no quintal, gritando em seguida para dentro da casa.
“Amore, vem só ver isso!”
A presença do homem tirou o cão do estupor, fazendo-o recuar alguns passos. O dono correu até o portão e deslizou-o para o lado, abrindo caminho e convidando, abaixando-se para parecer mais amistoso.
“Vem... Pode entrar...”
Ainda chocada com o estado do cachorro, Lena se limitou a assistir a cena, afastando-se da grade. A dona saiu para o quintal quando ele ultrapassava o limite do portão: “Meu Deus, coitado...”
“Pega água pra ele”, disse o dono.
Servido, ele não se fez de rogado e sorveu rapidamente a vasilha toda. O dono completou o vasilhame com a mangueira e pediu: “Comida, Amore!”
Sob o olhar de espanto de Lena, o visitante engoliu um pote cheio da insossa ração que ela sempre enrolava para comer. A surpresa só aumentou, ao vê-lo dar conta de outras duas porções do mesmo tamanho.
O alimento devolveu vida aos olhos do cão, que passou a abanar o rabo, a princípio timidamente, depois com mais confiança.
“Olha só, Amore, é igualzinho à Lena!”, disse a dona. “Só pode estar perdido...”
Pois é, mas não tem coleira nem nada...”, respondeu Lúcio, examinando o salsicha. “A cor dele é bonita, parece chocolate”, completou, passando a mão no peito do cachorro, onde a pelagem amarronzada ainda resistia. “A gente podia ficar com ele...”
“Amore, não inventa!”, a dona resmungou.
“Olha como é mansinho... Pelo menos vamos dar um banho nele.”
Contrariada, Lena viu o cachorro ser pego no colo pelo dono, sem resistir, e ser levado para o andar de cima da casa, pela escada cujo acesso era proibido a ela. Pouco tempo depois os dois voltaram, o cão cheirando bem melhor do que antes.
“Amore, ele podia chamar Obama!”, disse o dono, sorridente, depositando o salsicha sobre o sofá.
Lena pensou ter visto um olhar desafiador partindo do alto daquele focinho todo lanhado, mas preferiu acreditar ter sido só uma impressão equivocada, depois que a tarde transcorreu em paz. Esgotado, Obama ressonava em um canto do sofá, enquanto ela mantinha-se alerta no outro, sem pregar os olhos.
À noite, porém, a desconfiança da salsicha se mostrou justificada. Refeito, o despelado começou a por as garras – e os dentes – de fora, rosnando quando ela passava perto do sofá, de onde parecia querer dominar a sala.
A gota d’água viria depois, quando o dono serviu ração para os dois, em potes separados. Não satisfeito em devorar de uma vez a sua porção, o cinzento partiu para cima dela, com os caninos à mostra. Se ele queria tanto aqueles grãozinhos enjoativos era só pedir, não faria disso razão para briga. Além disso, aquelas cicatrizes na fuça e o olhar injetado de ódio tornavam o pelado bastante assustador. Recuando, Lena assistiu o orelha roída comer sua porção, lançando olhares ameaçadores e mais rosnados na direção dela.
Tristeza, mesmo, a salsicha sentiu na hora de dormir. Vendo o risco iminente do conflito, o dono decidiu separá-los. Para ela sobrou a velha caminha e o cobertor quadriculado na pequena despensa, fora da casa, sob o tradicional dever de vigiar o terreno. Já o recém-chegado rabo de rato ganhou o conforto da sala.
A salsicha sentia o peso da traição sobre o dorso alongado, enquanto observava, indignada, o pouco-pelo refastelado sobre o cobertor vermelho – seu preferido -, com um ar de vitória estampado na fuça remendada.
No dia seguinte veio o alívio. Logo cedo Lena viu o dono encaixotando o cor de brita molhada na sua jaula de plástico e levando-o para o carro. Não voltaria a vê-lo, mas aquele pelo de gambá velho lhe ensinara uma lição que não esqueceria mais. Nunca mais demonstraria compaixão ou sequer hospitalidade a outro cachorro dentro da própria casa – mesmo que fosse outro salsicha.

Explicação
À primeira vista, era de dar dó. Magro, sujo, despelado, lanhado de briga e queimado de sol, o cachorrinho se arrastava na frente do portão. Ainda assim, dava pra ver que era um salsicha – e parecia puro.
Claramente era um cachorro de casa, porque depois de comer e beber como se fosse um náufrago, a primeira coisa que ele fez foi pular para o sofá e deitar de barriga pra cima.
A Baleia recebeu ele muito bem, abanando o rabo, nem um pouco possessiva. Nossa ideia inicial era ficar com o bichinho – pelo menos a minha ideia inicial: já tinha até batizado de Obama. O problema é que, naquela mesma noite, o salsicha começou a querer tomar conta do território, rosnando e avançando sobre a Lena.
Enquanto a gente estava ali, tudo bem. Mas como íamos deixar os dois sozinhos na segunda-feira? Já dormiram separados e no dia seguinte o levamos para uma amiga da Fabi que queria adotar um cachorro.
O resgate estava garantido, mas o salsicha foi imediatamente rebaixado de Obama a Toninho.

3 comentários:

  1. Parabéns Lúcio!
    Adoro as histórias da Baleia!
    Mande um bjo pra Fabi, e outro pra vc!!
    Diz pra Baleia q ela já tem uma fã!
    Meline

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  2. As vezes é complicado fazer dois cachorros conviverem, né? Uma pena, seria uma companhia para a Lena. Mas o importante é que ele saiu das ruas e conseguiu uma dona!
    Agora, ser rebaixado de Obama pra Toninho realmente foi triste! hahaahahahahaha

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