No quarto
a situação era ainda pior, onde os três homens de cheiro forte faziam barulho
sem parar, pondo abaixo o enorme bloco de madeira que aos olhos dela sempre
parecera inexpugnável. Já tinha tentado espantá-los à base de corajosos latidos
e alguns rosnados discretos, mas o dono a afastara com uma bronca severa,
fechando a porta do corredor. Desde então permanecia ali, do outro lado,
acompanhando com atenção as batidas secas na madeira.
Nunca tinha visto uma confusão tão grande no apartamento. Sim, uma vez por semana a mulher gorda e barulhenta criava uma certa desordem - mas pelo menos ela fazia isso em um cômodo por vez, o que permitia a Lena escapar ilesa para outro ambiente. Dessa vez não, era tudo ao mesmo tempo agora.
Nunca tinha visto uma confusão tão grande no apartamento. Sim, uma vez por semana a mulher gorda e barulhenta criava uma certa desordem - mas pelo menos ela fazia isso em um cômodo por vez, o que permitia a Lena escapar ilesa para outro ambiente. Dessa vez não, era tudo ao mesmo tempo agora.
Desamparada
e dominada pela insegurança de ver seu pequeno mundo em convulsão, a salsicha
se acocorou a um canto da sala, encolhida e desorientada, sem nem poder
alcançar sua caminha. Perdida... Sentia-se totalmente perdida.
Depois de partir em pedaços o monolito do quarto, os três homens começaram a carregar as partes para fora do apartamento. Em seguida, passaram a recolher as caixas de papelão e, por último, os móveis da sala, incluindo seu preferido, onde laboriosamente construíra a toca.
Depois de partir em pedaços o monolito do quarto, os três homens começaram a carregar as partes para fora do apartamento. Em seguida, passaram a recolher as caixas de papelão e, por último, os móveis da sala, incluindo seu preferido, onde laboriosamente construíra a toca.
Quando a
porta se fechou atrás deles, só restaram Lena e a caminha no apartamento vazio.
Escorregou para baixo do cobertor quadriculado e, de olhos fechados, ficou
tentando reconstruir o cenário já inexistente da casa.
A espera
durou a tarde toda. Sentindo-se abandonada e já dominada pelo desespero, Lena
não conseguiu conter o choro – nem a bexiga – quando viu os donos entrando pela
porta da rua.
Começava
a anoitecer quando foi levada para o carro, no colo da mama. Dessa vez a viagem
foi curta – o que a salsicha já previa, uma vez que não havia sinal do cubículo
vazado de plástico em que era aprisionada quando ia longe.
Pouco
depois de o carro estacionar, Baleia ouviu pela primeira vez o característico
ruído metálico que se tornaria o sinal da chegada dos donos - ou de qualquer
um. Não esperou nem a pesada grade terminar de se abrir e saltou para dentro do
terreno, alcançando o pequeno gramado em declive. Babando de felicidade, a
cachorrinha corria em círculos e nem viu os donos seguindo para a parte de trás
da casa, carregando sua caminha.
Grama! Parecia até a casa do Tio Cris! Olhando pela grade, mal sabia onde fixar os olhinhos. Havia tanto para ver: a rua, o terreno baldio com mato baixo da frente, um ou outro carro passando.
Grama! Parecia até a casa do Tio Cris! Olhando pela grade, mal sabia onde fixar os olhinhos. Havia tanto para ver: a rua, o terreno baldio com mato baixo da frente, um ou outro carro passando.
Ainda não
tinha recuperado o fôlego quando escutou o dono chamar: “Lena! Vem, Leninha,
vem conhecer sua casa nova!”
Ela
seguiu as vozes e contornou a construção, chegando a uma sala grande, iluminada
no lusco-fusco do fim de tarde. Estava tudo ali! As caixas de papelão, os
móveis, sua caminha, até mesmo sua peça predileta, com a toca que esculpira no falso
couro do sofá.
| Baleia na casa nova |
Essa foi a primeira mudança de
Lena em Joinville (SC), do apartamento na Av. Beira-Rio, no Saguaçu, para a
casinha do Costa e Silva, onde vivemos por um ano e meio.
Mais do que a grama e o ar livre,
acho que a grande mudança para a Baleia foi a revelação do mundo exterior, com
que ela tinha contato só nos passeios. Na frente da casa havia uma grade que
permitia visão completa da rua e de uma série de novos personagens que entraram
no dia-a-dia da salsicha – mas essa é outra história.
Foram
dias felizes na vida de Lena.
Que delícia vê-la tão linda e saudável nestas fotos! bj VM
ResponderExcluir