A princípio, foi uma convivência pacífica. Nos
primeiros passeios, ainda desacostumada ao pedaço de couro que a puxava para lá
e para cá, era inevitável que a pequena salsicha chamasse a atenção por onde
passava – aliás, como qualquer filhote. Ainda que um pouco amedrontada, Lena se
limitava a se encolher junto ao chão e se deixar acariciar por aqueles pequenos
seres que pareciam a ela uma miniatura mal acabada dos donos.
Aos finais de semana, quando era levada a Balneário
Camboriú (SC), tinha até um amigo entre eles. Pensando bem, o serzinho tinha um
tamanho mais apropriado para as brincadeiras de correr, sem o perigo de
pisoteá-la, risco que sempre corria com aquelas patas enormes do dono.
Quando o menino chegava à loja, tudo o que se ouvia
era o repique acelerado das unhas da cachorrinha se chocando com o assoalho de
madeira laminada enquanto ela galopava pelo grande corredor cercado de amostras
de tecido, logo acompanhado de gostosas gargalhadas e de um ou outro latido
brincalhão, provocativo. Lena disparava e o garotinho - de pouco mais de três
anos - ia atrás, maravilhado pelo filhote saltitante.
A brincadeira era corriqueira e já tinha plateia
cativa: a avó do menino, embevecida pela criança, e Uca, mãe de Fabi,
encantada pelos dois. Sim, no princípio foi uma convivência pacífica.
Um dia, após a
correria usual, no lugar das gargalhadas ouviu-se um grito longo e agudo,
interrompido por uma saraivada de latidos fininhos, típicos de filhote, ao que
se seguiu a segunda etapa do alarido inicial. Encolhida num canto, a salsichinha tremia de raiva e de medo, ainda latindo, acuada. Em pé em cima de uma cadeira, o menino chorava com expressão aterrorizada, sacudindo os bracinhos, de onde foi resgatado pela avó.
Aproveitando a oportunidade, Lena passou correndo pelos dois e foi pedir colo para a dona, do outro lado da loja.
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De noite, aconchegada na caminha, a salsicha tentava entender o que tinha acontecido. Ainda dolorida, a orelha esquerda não
a deixava desviar o pensamento do que havia passado naquela manhã.
Por que ele tinha feito aquilo? Será que ele achava
que não doía? Por acaso nunca ninguém tinha puxado a orelha dele? E depois
aqueles gritos absurdos e o choro... Só porque ela tinha aplicado uma leve mordida
para se soltar! E a malvada era ela? Ah, não pode ser...
Para Lena, a conclusão era óbvia e definitiva: as
miniaturas não eram confiáveis. Nunca mais ia se deixar tocar por uma criatura
daquelas de novo, promessa!
Quando
era filhote, a Baleia não tinha problema nenhum com crianças – até o fatídico
dia do grito, na loja da mãe da Fabi, em Balneário Camboriú. Na verdade, não
sabemos o que exatamente aconteceu entre ela e o menino, mas a mudança de
comportamento foi radical dali em diante.
Não
era como a aversão normal de alguns cachorros rabugentos, que reagem com
latidos a uma tentativa inesperada de carícia. Lena simplesmente passou a não
suportar dividir o mesmo ambiente com uma criança – e por ambiente ela entendia
até a mesma calçada.
O
resultado em qualquer encontro é uma invariável descarga de protestos raivosos
disparados por ela em direção aos pequenos – Baleia chega a latir para crianças
do outro lado da rua, durante os passeios. Depois daquele dia, a relação dela
com as miniaturas se consolidou em uma mistura de raiva e medo. Foi a perda da inocência de Lena.


Essa "pequena" é mesmo muito cheia de opinião! E é linda! bj VM
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