Trazida a jaulinha, a salsicha fez o charme de sempre antes de ser posta para dentro e começar a mastigar o biscrok, a caminho do carro. Deitada com a cabeça sobre as patas, ela ainda tentava pegar no sono, embalada pelo balanço do veículo em movimento, até que tudo parou. Os donos saíram, abrindo a porta traseira para recolhê-la.
O que tinha acontecido? Dessa vez tinha certeza que não tinha dormido e a nenhum lugar que conhecia se chegava tão rápido assim... Curiosa, Lena farejava, o focinho encostado na grade da portinhola de entrada, tentando focar a vista no balançar sísmico da jaula sendo carregada pelo dono.
Uma campainha soou e logo em seguida uma porta se
abriu. Pela grade, a visão que se revelou fez correr um arrepio gelado pela
espinha da salsicha, até a ponta do rabo. De braços abertos, sorridente, a
enorme mulher de branco apareceu para recebê-la: “Baleia! Que bonitinha, na
jaulinha...”
Uma lufada de vento trouxe de dentro da casa a
odiosa mescla de cheiros de que se lembrava bem, uma mistura da substância
gelada que tinham lhe esfregado no lombo antes das picadas com odores de
diversos cachorros desconhecidos. Aquilo de novo? Toda aquela tortura outra
vez?
Aterrorizada, Lena se encolheu no fundo da caixa de plástico, nem um pouco disposta a sair, mesmo depois de aberta a portinhola e dos chamados do dono.
Aterrorizada, Lena se encolheu no fundo da caixa de plástico, nem um pouco disposta a sair, mesmo depois de aberta a portinhola e dos chamados do dono.
“Vem, Leninha, não faz charme...”, ele disse, enfiando o
braço dentro da jaula, agarrando-a pelo tronco e a puxando para fora.
A mulher de branco abriu uma das unidades térreas, oposta à porta da sala, e a dona colocou sua caminha e a vasilha de água lá dentro, o que ocupou quase todo o espaço interior. Em seguida o dono abaixou-se e delicadamente pousou-a sobre o cobertor, afagando-a na cabeça: “Fica bem, Leninha...”
Em choque, a cachorrinha viu a grade se fechar à sua
frente e mal teve tempo de soltar um choro sentido antes de todos terem ido
embora, fechando a porta. Estava só...
Estava só? Não, não estava só. A maioria das jaulas
estava vazia, mas na parede oposta à em que estava viu algo se mexer.
Estreitando os olhos, Lena pode identificar o estranho ser encarando-a. Era
pouco maior que ela, com uma forma atarracada, coberto de pelos de um bege bem
claro, quase brancos. Mas a cabeça... O que era aquilo? Quase não tinha
focinho, só um amontoado de rugas negras que terminavam em um pequeno nariz
preto e brilhante – resfolegava sem parar, com uma comprida língua rosada para
fora. Só percebeu que era um cachorro pelo latido que ouviu depois, um ruído
rouco e estrangulado.
Em uma das paredes laterais, Lena enxergou outro
cão. Minúsculo – tinha a cabecinha coberta por longos e finos pelos, numa
mescla de tons dourados, presos em duas ridículas chuquinhas -, saudou-a
produzindo um latido agudo.
O que significava aquilo? O que fazia ali? Por que
os donos a tinham deixado? Quanto tempo ficaria naquela jaula? A manhã se
arrastou lenta para Lena. Não conseguia dormir, a cabeça pesada de dúvidas.
Muito tempo depois, a porta da sala se abriu e a
grande mulher de branco entrou, carregando um cachorro branco não muito maior
que ela, de pelo bem crespo, que se avolumava em um estranho topete sobre a
cabeça e na ponta do rabo. Desesperado, ele se contorcia freneticamente, na
tentativa de escapar, enquanto gania sem parar.
Trancado na jaula ao lado do ser sem focinho,
começou a latir assim que a porta da sala se fechou. Vendo que o protesto não
surtia efeito, passou a roer nervosamente a placa de metal vazada que o
mantinha preso ali, causando um ruído irritante que se prolongou tarde adentro,
afastando qualquer possibilidade de Lena dormir.
Insone, a salsicha se revirava na cama, cada vez
mais preocupada. Será que tinha feito algo para estar ali? Seria culpa dela,
afinal? Será que a toca escavada no sofá... Mas isso já fazia tanto tempo...
A sala começava a ficar mais escura quando o
desesperado Poodle finalmente desistiu da tentativa de fuga, esgotado, sem
conseguir mais do que provocar uns poucos arranhões na porta da jaula.
Aliviada, Lena ajeitou-se para dormir. Mas não houve tempo - a porta da sala se
abriu, dando passagem novamente à grande mulher de branco.
“Hora do passeio!”
Lena foi a primeira a ser retirada da jaula, levada
para fora e solta no imenso jardim gramado em declive, na frente do casarão.
Apressada, disparou em uma longa volta em torno do terreno, à procura de um
ponto de escape, sem sucesso - tudo estava solidamente cercado por uma grade de
metal. Sem alternativa, fez as necessidades ao pé de uma roseira e passou os
minutos seguintes tentando manter distância do ser sem focinho que a perseguia.
De volta à jaula, havia ração na vasilha e água
fresca, mas não tinha fome. No escuro da noite, enquanto o Poodle retomava as
escavações e o sem focinho roncava sonoramente, Lena fazia força para conciliar
o sono, dominada pela tristeza. Só queria se deixar afundar no torpor, para
esquecer por alguns instantes que estava ali...
Cansada dos próprios pensamentos, a salsicha enfim
adormeceu. No dia seguinte, quando a porta da sala se abriu, uma outra mulher
apareceu para tirá-la da cela e franquear o acesso ao jardim. Dessa vez nem se
deu ao trabalho de tentar escapar, limitou-se a se aliviar e observar mais de
perto o sem focinho, que resfolegava atrás dela.
O dia passou devagar, irritante. Percebendo que não
conseguiria arrombar a jaula, o Poodle passou a chorar baixinho, em um gemido
que se arrastou pela tarde, até que a mesma mulher da manhã viesse soltá-los
para o passeio do crepúsculo.
Naquela noite finalmente o silêncio tomou conta do
salão. O Poodle dormia com a cabeça pressionada junto à grade, os tufos de pelo
do topete espremidos para fora, pelos vãos quadriculados. O sem focinho
ressonava pesadamente e não havia sinal do minúsculo cãozinho dourado,
absorvido pelas cobertas coloridas da própria cama.
Lena caiu em um sono profundo. Sonhou que andava no Fusca
do dono, sentindo o sol no focinho e um vento agradável jogando as orelhas para
trás. Olhou para o lado e se deu conta de que estava sozinha dentro do carro em
movimento, e ao volante! Lá fora, adiante, a dona esperava em uma esquina, com
sua caminha nas mãos. Para seu espanto, passou por ela sem conseguir parar.
Um pouco mais à frente enxergou o Tio Cris, com um suculento espeto de churrasco nas mãos, cercado por Branca e Totti. Os dois cachorros salivavam, olhos fixos na carne pingando. Deixou-os para trás também, sem poder fazer nada.
Um pouco mais à frente enxergou o Tio Cris, com um suculento espeto de churrasco nas mãos, cercado por Branca e Totti. Os dois cachorros salivavam, olhos fixos na carne pingando. Deixou-os para trás também, sem poder fazer nada.
O Fusca ganhava velocidade, contra a vontade de
Lena, que comprimia as patinhas sobre a direção, sem saber o que fazer.
Enxergou o dono no meio da rua, acenando para ela de braços abertos, com um
grande sorriso, mas em seguida viu-o obrigado a saltar para a calçada, para não
ser atropelado pelo carro desembestado.
Assustada, Lena se voltou para trás, mas o dono
tinha sumido. Olhando para baixo, percebeu que o banco do Fusquinha em que
estava em pé estava destruído, transformado em um amontoado de espuma mastigada
e tecido rasgado.
Em desespero, a salsicha virou-se novamente para
frente, a tempo de ver uma imensa parede formada por jaulas, para onde se
dirigia em alta velocidade. Não sabia o que fazer, ia bater, ia...
Acordou de um salto, soltando um gemido abafado.
Suando, ainda escutava o ruído do Fusca acelerando em direção ao desastre.
Chacoalhou com força a cabeça, fazendo as orelhas estalarem, para despertar por
completo. Ainda assim, continuava a ouvir o característico barulho do motor,
cada vez mais forte. Não era possível... Ou era?
A porta da sala se abriu e a grande mulher de branco
entrou, seguida pelo dono. Sem conter a alegria, Lena saltava dentro da jaula,
jogando as patas contra a porta de metal, que foi aberta em seguida. Chorando
baixinho, aproximou-se rastejando do dono e passou a lamber carinhosamente suas
mãos, depois o nariz e os olhos, ao ser erguida no colo.
Teve tempo de lançar um último olhar pelo salão antes de ser apresentada à caixa de plástico. Os três companheiros de cela observavam a saída dela, o Poodle com olhar de inveja, o cãozinho dourado sem expressão e o sem focinho passando a língua rosada pelo minúsculo nariz brilhante.
Teve tempo de lançar um último olhar pelo salão antes de ser apresentada à caixa de plástico. Os três companheiros de cela observavam a saída dela, o Poodle com olhar de inveja, o cãozinho dourado sem expressão e o sem focinho passando a língua rosada pelo minúsculo nariz brilhante.
Não fez charme nenhum, entrou correndo na jaulinha
assim que a portinhola foi aberta. Carregada para o Fusca, Lena foi chorando
até em casa – mas desta vez de alegria.
Explicação
Sempre
evitamos ao máximo deixar a Baleia em hoteizinhos para cachorro – ela sempre ia
com a gente nos finais de semana, para onde fossemos. Mas daquela vez ia ser
difícil, o casamento era em São Paulo (SP) e a viagem era de avião.
Foi
a primeira vez que a deixamos no canil – entre sábado de manhã e as primeiras horas de segunda-feira. Acho que foi a vez em que vi a Baleia mais feliz por me ver, quando
fui resgatá-la. Ela me lambia sem parar e continuou a fazer isso por uns dois
ou três dias, sempre que me encontrava.
Depois, voltou a ser a Lena diaba de sempre.
Lena, coisa rica do "papai"! bj VM
ResponderExcluir