Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O som da pizza e outros ruídos


Lena aprendia rápido. Poucas semanas depois da mudança para a casa no Costa e Silva, ela já sabia identificar uma série de sinais e ruídos úteis no novo ambiente. Essa foi a forma que a pequena salsicha encontrou para manter o controle do território – percebera logo cedo que não poderia contar com muita ajuda, já que os donos saíam pouco depois do amanhecer e voltavam só de noite. Assim, conseguiu estabelecer uma rede de informações sonoras que permitiam a ela saber o que se passava na frente da casa, mesmo estando nos fundos, e vice-versa.
Baleia no portão
Um dos primeiros ruídos que Lena aprendeu a identificar foi o arrastar enferrujado do portão de metal correndo sobre o próprio trilho, alerta de que ele estava sendo aberto ou fechado e alguém entrava ou saía do quintal. O barulho metálico era semelhante a outro integrante da lista de prioridade máxima da cachorrinha: o da grade pantográfica que a impedia de entrar na casa, nos fundos, quando os donos não estavam em casa, ou à noite, na hora de dormir. Neste, porém, a fricção terminava em um guincho agudo que no início alfinetava os ouvidos da salsicha, mas depois se tornou um sinal de alegria, ao anunciar a presença dos donos no quintal, toda manhã.
Quanto mais sonoro, mais facilmente o ruído era assimilado pela cachorrinha. O acionar do motor do Fusca do dono, por exemplo, assustava-a e a fazia correr para o fundo da casa nas primeiras vezes em que viu o carrinho arredondado sendo posto em funcionamento. Agora, já não tinha mais medo e podia adivinhar a chegada dele ao ouvir o bravo Volkswagen de longe, dobrando a esquina, a duas quadras de distância. Talvez por isso sentisse certa simpatia pelo velho Fusquinha branco – ele não se escondia em ruídos traiçoeiros e sem personalidade como o brilhante carro da dona, igual a todos os outros, que Lena só conseguia escutar quando embicava no portão.
Baleia e o Fusca 1968
A salsicha aprendeu, porém, que alertas menos ruidosos tinham potencial igualmente relevante. O som que as pessoas faziam ao bater uma mão na outra - que durante o dia podiam ser confundidas com as marteladas ritmadas da obra na esquina – indicavam a ela que havia uma ameaça no portão. Podia ser o odiado homem vestido de amarelo que vivia cheio de pacotes nas mãos ou uma daquelas mulheres cobertas por saias até as canelas e longas crinas presas em uma espécie de rabo, que escorria da cabeça até abaixo da cintura. Eram as mais insistentes, batiam palmas sem cansar, por vezes observadas pelo dono escondido detrás da cortina – essas ele não atendia nunca.
A ameaça mais sorrateira, porém, exigia de Lena uma atenção constante, porque o sinal sonoro de sua presença era discreto, difícil de escutar, especialmente quando estava ocupada patrulhando a parte da frente do terreno. Só prestando muita atenção conseguia discernir os ruídos secos e ritmados das pancadas seguidas, encorpadas em um batuque sinistro aos ouvidos da salsicha.
Quando os identificava, parava o que estivesse fazendo e rumava para os fundos da casa, pata ante pata, tomando cuidado para não denunciar sua posição pelo deslocamento inadvertido de uma pedra de brita qualquer, das que cobriam as laterais do quintal. Cautelosa, adotava a postura de ataque que aprendera com o velho Gaúcho e disparava o bote contra o odioso emplumado de peito amarelado, que insistia em vir roubar sua ração.
Droga, como era rápido! Irritada, Lena tentava pela milésima vez entender o que fazia de errado, observando o voo do pássaro, que calmamente pousava sobre o muro e engolia o último grão marrom surrupiado da vasilha da salsicha, antes de soltar o grito vitorioso: “Bem te vi!”
Baleia vigilante
Mas, de todos, o ruído preferido de Lena era noturno. Ao ouvir os estouros do motor da moto se aproximando, a salsicha levantava as orelhas, à espera da senha que confirmava a expectativa: uma buzinada estridente ao portão.
Tomada por um misto de alegria pelo que chegava e raiva por quem o trazia, a cachorrinha se antecipava e disparava para fora da casa, para saudar devidamente o intruso e ao mesmo tempo apreciar o cheiro fascinante que partia do embrulho passado às mãos do dono.
Eufórica, a salsicha já antecipava os prazeres da noite perfeita: a noite de pizza. Seguia saltitante o dono até a cozinha, atraída pelo aroma inconfundível. Para ela só sobravam as bordas meio queimadas, mas não se importava – na maioria das vezes os pedaços vinham com algum resto de mussarela, cebola, presunto, calabresa e o que mais gostava, aquele molho de tomate semicarbonizado. Lena adorava escutar aquela buzina no portão...

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