Lá estava ela de novo, encerrada dentro da jaula,
chacoalhando no interior do carro. Tinha um mau pressentimento sobre aquilo –
não havia sinal dos cubos de tecido que apareciam a cada viagem, antes de sair
de casa. E, pior, tinham trazido sua caminha e o cobertor quadriculado...
Quando o carro parou e foi carregada para fora,
constatou resignadamente que estava certa: encontrava-se em frente aos domínios
da grande mulher de branco. Foi levada para dentro do casarão e rapidamente
transladada para um dos cubículos gradeados que já conhecia. Os donos se foram
e se viu sozinha, de novo na prisão.
Não teve tempo para se lamentar. Mal se ajeitara
sobre a caminha e a grande mulher de branco apareceu, agachando-se em frente à
jaula térrea.
“Vamos lá, Baleia? Chegou a hora...”
Ela abriu a porta da cela e a carregou para outra
sala, colocando-a sobre a gelada mesa prateada da qual não tinha sequer uma boa
lembrança. Para piorar, desta vez havia uma forte luz branca sobre a maca, que
a obrigava a estreitar os olhos, na tentativa de enxergar alguma coisa.
Ofuscada, conseguiu identificar uma outra mulher, um pouco menor, avançando na
sua direção. Não havia sinal do dono, que sempre estava do seu lado quando
recebia as desagradáveis picadas. Mais de medo do que de frio, começou a
tremer.
“Calma, Baleia, não vai doer nada...”, disse a
grande mulher de branco, segurando-a com firmeza.
Quando a outra se aproximou, pode ver que ela também
estava toda de branco. Então era isso? Devia desconfiar de todo mundo que aparecesse
na sua frente nessa cor? Ou não... A dona tantas vezes usava aquele avental
branco e nunca lhe fizera mal...
Antes de chegar a uma conclusão sentiu a picada
aguda no lombo. Já antecipava a sensação do líquido gelado se espalhando sob a
pele quando foi surpreendida por uma quentura perfurante. Tentou se debater,
mas as mãos que a seguravam não davam chance. Ensaiava a segunda tentativa de
escapar ao sentir as patas fraquejarem, o calor se espalhando dos quartos
traseiros pela espinha, preenchendo a barriga e subindo pelo pescoço, indo
bater nas orelhas.
Sem forças, fechou os olhos e se deixou afundar
naquele torpor convidativo – era quase como adormecer abraçada pela luz
calorosa do sol sobre o lombo, só que ainda mais quente...
Lena sentiu-se escorregar por um canal apertado em
que não conseguia distinguir mais do que formas desfocadas, reflexos do que
parecia existir além das suas paredes. Quando chegou ao final do túnel se deu
conta de que estava na casa do Tio Cris. Sim, era isso, mas diferente... O
babão e a gigante desengonçada não estavam à vista – aliás, nem os donos, nem
ninguém.
Ainda assim, sentia que não estava sozinha... Olhou
ao redor e se deparou com outra salsicha, sentada, de frente para ela. Não era
possível... Era... Era ela mesma! Viu-se em uma encruzilhada, de onde partiam
quatro caminhos pavimentados de concreto no meio do gramado, formando um grande
X. Confusa, Lena soltou um latido, respondido instantaneamente pelo seu par.
Irritada, deu um bote em direção à outra salsicha,
na esperança de afugentá-la. Foi aí que as coisas começaram a ficar mais
estranhas. Ao avançar sobre a encruzilhada, sua projeção sumiu e Lena
atravessou uma espécie de membrana luminosa. Do outro lado não havia trilha
pavimentada – encontrava-se de novo sozinha, afundada em uma grama muito alta,
onde caminhar era dificílimo. Por mais esforço que fizesse para abrir caminho
em meio à floresta verde, enroscava as patinhas em raízes e ramos gigantes,
derrubando-a seguidas vezes.
Cansada, Lena fechou os olhos por um instante. Só
queria sair dali, voltar para a tranquilidade da própria casa... Ao abri-los de
novo, o cenário tinha mudado por completo. Aliviada, viu-se sobre o sofá marrom
de que tanto gostava. Era ele, sim, mas também estava diferente... O formato
era outro. A peça se transformara em um quadrado com um buraco no meio.
Ao se inclinar para olhar o que havia no centro, não
conseguiu enxergar o fundo. A fraca luz da sala iluminava as paredes do túnel
até certa altura – daí para baixo só se viam sombras e um abismo negro.
Ao olhar ao redor, Lena deparou-se de novo com
aquela salsicha. Aquela não, era ela mesma! Apertou os olhinhos entre as patas,
na esperança de que tudo sumisse novamente. Quando ergueu a cabeça e se propôs a
enxergar, notou que estava no mesmo lugar – só que tinha diminuído! Voltou-se
para a almofada em que estava encostada e viu que agora ela parecia umas quatro
vezes maior. Tinha voltado a ser uma pequena salsicha arredondada, como nos
seus primeiros dias...
Miniaturizada, Lena se descobriu em uma prisão –
antes simples obstáculos, as almofadas do sofá tinham se transformado em
muralhas intransponíveis. Não havia outra coisa a fazer... Aproximou-se da
borda do fosso central e mergulhou no abismo.
Para sua surpresa, parou de cair assim que atingiu a
zona de sombra do túnel. Passou a flutuar confortavelmente, tomada por uma
sensação de relaxamento – era tão agradável que podia ficar assim por um bom
tempo...
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Quando Lena abriu os olhos estava tudo escuro. A
cabeça doía e ondas de náusea acompanhavam o torturante latejar que se
espalhava pelo crânio da salsicha, ao ritmo da própria pulsação. Sentia uma
sede terrível, mas um torpor ainda mais forte desencorajava qualquer movimento.
Acostumando a vista à penumbra, pode perceber que
estava de volta à sala das jaulas. Uma luz tênue escorregava por debaixo da
porta, fornecendo claridade suficiente para deixar ver os reflexos prateados da
grade que delimitava sua cela. Então não tinha sido tudo um pesadelo, ainda se
encontrava na prisão...
O silêncio era total - parecia estar sozinha desta
vez. Deitada de lado sobre a caminha, Lena limitou-se a fechar os olhos e
deslizar de volta para o sono.
Ao acordar, no dia seguinte, o mal estar tinha
passado, embora um resto de dor de cabeça permanecesse. Foi ao se espreguiçar
para desentorpecer os músculos que veio a dor. Pondo-se em pé lentamente,
sentiu como se lhe tivessem encurtado os movimentos do tronco. Tentou se
esticar de novo, mas desistiu, dominada por uma nova pontada na barriga.
Voltou a cabeça para ver o que a atrapalhava e só
então notou que estava envolta por um macacão branco, parecido com aqueles que
a dona lhe enfiava cabeça abaixo nos dias de frio intenso, mesmo contra sua
vontade. E, pior, esse envolvia até as pernas traseiras – não parecia fácil de
escorregar para fora, como as outras roupas que conhecia.
Arrastou-se até a vasilha de água e bebeu com
vontade, para matar a sede que a atormentava desde a noite anterior. O pote do
lado estava cheio de ração, mas nem tocou nos grãos insossos – não tinha a
menor fome. Não demorou para a grande mulher de branco vir vê-la. E, pouco
depois, os donos apareceram para leva-la para casa.
Chegando ao apartamento, depois de libertada da
caixa de transporte, Lena se dirigiu na velocidade que seus movimentos
permitiam para o terraço, para patrulhar o território. O que tinham feito com
ela? O macacão branco a impedia de ver, mas a sensação era de que tinham amarrado
algo dentro da sua barriga. Além da dificuldade em andar, era como se as
entranhas tivessem sido remexidas, sem encontrar de novo a posição de origem. E
isso doía!
Não conseguiu passar do terceiro degrau da escada
que ligava a sala à área externa – uma pontada mais forte forçou-a a se
encurvar, deixando escapar um choro sentido. Deu meia volta e capengou até a
caminha, deixada ao lado do sofá, sob o olhar compadecido do dono.
“Que foi, Leninha... Tá com dor?”, ele perguntou,
acariciando-lhe a cabeça e as orelhas. “Já vai passar...”
O que tinham feito com ela? Sabia que um dia aquelas
visitas à mulher de branco ainda iam acabar mal. Agora não conseguia nem mais
subir uma escada!
Não, não era mais a mesma. E se perguntava se algum
dia voltaria a ser...
Explicação
Apesar
de ter ficado meio xôxa no primeiro dia depois da cirurgia, a recuperação da
Baleia pós-castração foi tranquila. Foram dois ou três dias de convalescença,
tomando sol deitada no tapete - mas em seguida ela voltou a ser a salsicha de sempre.
| A Baleia e eu |
A
gente - e especialmente eu - relutava bastante em castrar a Baleia. No final, a
idade (cinco anos), as tentativas frustradas de fazê-la ter filhotes e as
recomendações veterinárias falaram mais alto.
Só
que, apesar de estar convencido de que era a coisa certa a fazer, bate uma
tristeza em saber que definitivamente a Baleia acaba aqui. Claro que um dia ela
vai morrer, mas sempre restava a esperança de um filhote para dar continuidade
à saga. Agora não. De certa forma, a castração decreta um ponto final, mesmo
que futuro.
Para
mim, a sensação que ficou depois da operação foi a do começo do fim de Lena...

Lu, ficou maravilhosa esta história da Lena! Você foi perfeito descrevendo as sensações dela depois da anestesia! As fotos distorcidas estão demais! bjs querido, VM
ResponderExcluirContinua a portar!!!! Tenho uma fofurinha dessa em casa e qdo vou lendo seu blog fico olhando pra imaginando as mesma cenas com ela!!!!
ResponderExcluirAmei o blog!!!
Essa Lena é muito linda!
ResponderExcluirFaço minhas as palavras da Lizandra!!! Cadê você que não posta mais?
Lembro das minhas duas salsichinhas, que ficaram na casa da minha mãe quando me mudei.. morro de saudades!!
bjão