Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Viagem

A sensação de estar chacoalhando dentro do carro sem saber por quanto tempo ficaria ali ou para onde estava sendo levada não era estranha a Lena. Desde a primeira vez que experimentara aquilo, quando ainda era uma bolinha gorda de pelos amarronzados que mal denunciava a salsicha garbosa em que se transformaria, pelo menos uma vez por mês passava por situação semelhante.

Não que fizesse a mínima ideia do que significava um mês, ou uma semana. A única unidade de tempo que fazia sentido para ela era o dia, claramente delimitado pelo surgimento e sumiço do pequeno e ofuscante círculo dourado - para o qual não conseguia olhar diretamente, mas de onde parecia vir a luz quente e revigorante de que sentia a necessidade inexplicável de receber no lombo sempre que tinha chance.
Uma vez dentro do carro, a salsicha já tinha desistido de tentar descobrir para onde ia e quanto ia demorar. Embalada pelo movimento do veículo, acabava sempre por pegar no sono e isso a desorientava – a cada despertar era como se tivesse acabado de entrar naquele ambiente apertado, cercado de vidros transparentes.
Em casa, porém, Lena se esforçava para pelo menos aprender a identificar a proximidade do momento de partida. Não era difícil, até por que os donos não faziam questão de esconder dela o que estava prestes a acontecer.
O maior sinal era o aparecimento daqueles cubos de tecido resistente que a dona colocava no chão do quarto e começava a encher das peças que usava sobre o corpo. Ela também era envelopada com uma daquelas nos dias mais gelados, que causava uma sensação angustiante de coceira e aprisionamento. Por mais que sentisse frio, assim que a dona se distraía dava um jeito de escorregar para fora da roupinha, contorcendo-se como uma cobra sofrendo de indigestão.
Enquanto isso, o dono percorria os quartos, fechando as janelas e desconectando os fios que ligavam os objetos falantes às paredes. Lena acompanhava tudo atenta, à espera da pista definitiva que confirmava tudo, quando sua caminha era trazida para a sala e colocada no chão, ao lado das vasilhas de comida e água e do saco de ração. Nessa hora a salsicha disparava e saltava sobre o cobertor quadriculado, para garantir que não seria deixada para trás.
Antes aquilo era bem mais divertido. Nas primeiras vezes ela era presa à guia, como se fosse passear, e levada para dentro do carro, no banco traseiro. Claro que não ia ficar ali, sozinha – começava a chorar até ser puxada para o colo da dona, no banco da frente.
Mas aquela posição também era insatisfatória, o balanço do carro não deixava que ela se acomodasse, e, além disso, queria ver lá fora, pelo vidro – nessa época ainda tinha a ilusão de que conseguiria identificar para onde estava indo. Não via nada demais naquilo, mas sua movimentação invariavelmente resultava em discussões ásperas entre os donos, que evoluíam em broncas ainda mais raivosas para que ela ficasse parada, no banco de trás. Será que eles não viam que isso era impensável?
A solução um dia se materializou no centro da sala, ao lado da caminha. Mesmo depois de farejar cuidadosamente os quatro cantos da coisa, Lena não conseguia chegar à conclusão do que era aquilo, até que o dono magicamente abriu uma das extremidades, agarrou-a e a colocou dentro da jaula de plástico, à sorrelfa e à socapa. Dali para frente passou a sofrer um duplo enclausuramento – primeiro na caixa, depois colocada no banco traseiro do cubo móvel e balouçante.
Assim, o quadrado alaranjado se tornou, ao lado da caminha posta na sala, o sinal inequívoco do deslocamento iminente. O dono até tentou adotar uma tática mais delicada. Com seu passe de mágica, abria um dos lados da jaula – Lena já tinha tentado de tudo para conseguir o mesmo efeito e escapar dali, batendo as patas nas grades, mordendo as extremidades e até aplicando bravas cabeçadas contra as paredes, sem sucesso. Depois ele a convidava, gentilmente:
“Vem, Leninha, vem...”
Desconfiada e relembrando os longos momentos de reclusão, a salsicha recuava e olhava de lado, disfarçando.
Em uma segunda tentativa, o dono colocava um daqueles biscoitinhos crocantes e deliciosos no fundo da caixa de plástico e caprichava na doçura da voz:
“Olha só o que tem lá dentro, Lena... Biscrok!”
Ela se aproximava da entrada, hesitante e indecisa, farejando o interior. Não é que não gostasse de viajar, mas o tempo que passava no cubículo era muito chato...
Mais cedo ou mais tarde, o dono perdia a paciência, segurava-a com firmeza e a empurrava – delicadamente, mas sem deixar margem à dúvida – para dentro da jaula. Pronto... Agora só restava mastigar o biscrok e tentar pegar no sono, torcendo para acordar só na chegada, de preferência na casa do Tio Cris.

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