Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Tio Cris e Tia Pilar


Parecia que não ia chegar nunca. Dentro daquela jaulinha vazada, balançando ao ritmo das curvas da BR-101, Lena sempre buscava farejar o caminho e descobrir para onde ia, numa tentativa de espantar o tédio e satisfazer a curiosidade, mas acabava por pegar no sono. Nunca dormia a viagem toda, acordava principalmente quando sentia que tudo parava de se mover, o que aumentava a agonia de estar presa no cubo de plástico e levava a salsicha a emitir um chorinho sentido.
O problema é que, quando acordava, não sabia o quanto tinha dormido, invariavelmente fazendo com que perdesse as referências de tempo e espaço. Assim, só descobria mesmo onde tinha chegado no destino final.
Mas havia pistas. O duplo ruído metálico dos portões se abrindo – primeiro o do condomínio, seguido pelo da casa - fazia a cachorrinha tremer de satisfação e alegria antecipada, ao ter a confirmação de que estava a poucos passos do seu lugar preferido.
Baleia e Totti
A primeira coisa a fazer era dar uma boa corrida pelo jardim da frente da casa, com paradas estratégicas para xixis demarcatórios, até ouvir o chamado do Tio Cris.
Lena adorava aquela casa, a começar pelo cheiro – ninguém cheirava como o Tio Cris, sempre com algum aroma de comida nas mãos. Até a ração ali era melhor, vinha em grãos duas vezes maiores que os da dela, e coloridos! Não entendia por que aqueles grandalhões desprezavam tamanha iguaria, tão mais apetitosa que as insignificantes bolinhas monocromáticas que era obrigada a aturar todos os dias.
Nenhum dos dois parecia bater bem, mesmo. O gorducho malhado e de olhos caídos latia por qualquer coisa – de tanto correr ao longo da cerca tinha acabado com a grama, transformada em uma trilha poeirenta. E o pior: babava sem parar.
Baleia e Branca
A outra gigante - bem magra e de pelo branco salpicado por pintas - era até simpática, mas totalmente desajeitada. Já a tinha visto tropeçar e derramar a própria vasilha de água mais de uma vez.
O que mais irritava Lena era a falta de noção de espaço dos dois. Tanto lugar para ir naquela casa e eles insistiam em segui-la, cheirando cada movimento que fazia. Eram claramente mal acostumados, queria ver se tivessem que viver na sala apertada em que passava os dias, especialmente a gigante. Mas já aprendera a impor limites e alguma distância, à base de ganidos raivosos, arreganhar de dentes e contra-ataques repentinos.
Mas o melhor de tudo podia ser resumido em uma palavra que Lena aprendeu logo a identificar: churrasco. Era um momento mágico, todo mundo parecia tão feliz! E o cheiro... Ah, o cheiro era denso - quase dava para sentir o sabor da gordura que caía sobre as brasas e se espalhava quando um restinho da fumaça aspirada se condensava no fundo da garganta da salsicha. E não era só o cheiro, sempre havia as sobras.
Submissão estratégica...
Até nesse momento a reação dos grandões parecia estranha a Lena. Mesmo sendo bem maiores, eram desatentos e reagiam com lerdeza às guloseimas que por vezes caíam no chão – ela sempre dava um jeito de chegar primeiro e abocanhar o petisco na frente deles.
Isso só não valia na hora da iguaria principal, quando Tio Cris avisava: “Não quero saber de briga, é uma costelinha para cada um.”
Em seguida ele distribuía os ossinhos suculentos, ainda quentes e lambuzados de uma gordura perfumada que fazia a cachorrinha salivar.
Lena aprendeu a driblar essa dificuldade também. Enquanto os grandalhões mastigavam calmamente os ossos que tinham acabado de ganhar, ela abocanhava com pressa o seu e o levava para trás de uma moita, na lateral da piscina. Depois era só voltar lambendo os beiços, em busca de uma nova costelinha.
Desse jeito, no final do churrasco tinha acumulado uma pilha de ossinhos, acabando por despertar a cobiça dos grandões, a quem tentava afastar do esconderijo com rosnados raivosos.
E contra-ataque
No final, o esforço foi todo em vão. Atraída pelos latidos da salsicha, a dona se deparou com o estoque de Lena e recolheu tudo, para evitar briga. Aquela estraga-prazeres...

Explicação
A casa do Cris e da Pilar, em Floripa (SC), é o lugar preferido da Baleia. Mais do que o espaço, a grama, as árvores e o ar livre, o que parece deixá-la mais feliz é a comida, especialmente quando tem churrasco.
Depois das rusgas iniciais costumeiras, ela até que passou a se entender bem com os cachorros, um Beagle (o Totti) e uma perdigueira misturada (a Branca), com quem ganha de longe a disputa por qualquer guloseima.
A Baleia come tanto na casa do Cris que, quando volta para Joinville (SC), passa um ou dois dias quase em jejum. A readaptação à rotina é sempre traumática, ela fica amuada, triste, desconsolada mesmo pelo retorno à realidade.
É a pequena depressão de Lena.
Tio Cris e a matilha

Abaixo, um mau dia no Tio Cris... Para a Baleia, claro.

 

2 comentários:

  1. Mas é muito folgada! Só ela da matilha participando da pizzada! E com direito a cama e tudo, no salão da festa!!! bj VM

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  2. Mau dia até começarem a servir as pizzas!!! A Lena fica na cola de todos os convidados tentando filar um pedacinho.

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