Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sente a maresia

O dia começou frio. Chegara a ter que se encolher na caminha para conseguir se manter aquecida, debaixo do cobertor quadriculado. Era a temperatura perfeita para passar a manhã toda dormindo, preguiçosa, mas os donos tinham outros planos. Logo cedo foi acordada, colocada na guia e levada para fora.
Lena esperava mais um passeio pelas ruas cheias de muralhas altíssimas, que mal deixavam ver o céu, varridas por um vento frio que arrepiava os pelos da salsicha – pelo menos era o que acontecia quando dormia naquele apartamento.

Baleia e Uca
Adorava ficar por ali, onde identificava um cheiro familiar, talvez por ter sido o primeiro ambiente fechado em que entrou, quando ainda era uma bolinha amedrontada pela separação da mãe, horas atrás.
 Ganhava guloseimas e era acariciada até adormecer no colo da mulher cheirosa, de unhas coloridas que passeavam gostosamente pelas suas orelhas, afagando a cabeça e massageando o pescoço, escorregando depois ao longo do dorso. Só tinha que ficar atenta ao homem grisalho que não gostava de vê-la sobre o sofá e insistia em tentar agarrá-la pelo focinho, chamando-a por um nome que, de início, compreendia apenas pela metade, torcendo para não ser com ela: “Balena! Olha que eu te pego, Balena!”
Ao saírem do prédio, a salsicha dirigiu-se instintivamente para a direita, seguindo o caminho usual, mas foi puxada para o lado contrário da rua e colocada dentro do carro. Aliviada por não ver sinal da jaula de plástico, imaginou que o percurso prometia ser curto.
Quando enfim pararam, depois de uma viagem bem mais longa do que ela previa, foi tirada do carro pelo dono e, ainda suspensa no ar, atingida em cheio pelo aroma úmido, que entrava pelas narinas compridas da salsicha e parecia se expandir no céu da boca, revelando um universo de sabores desconhecidos, vivos e mortos.
Colocada no chão, Lena se deparou com a imensidão de água de azul bem escuro, que mudava de cor muito longe, onde assumia um tom mais claro, espalhando-se por tudo ao redor e dando a volta por cima da cabeça da salsicha e dos donos.
Já tinha visto aquilo antes, nos passeios em meio a uma multidão de gente, pela calçada sem fim de pedras pretas e brancas – mas nunca de tão perto. Ali era bem diferente, a água se movia sem parar, criava montanhas que desmoronavam umas sobre as outras com força, em estrondos surdos confundidos com o vento, desmanchando-se na massa branca e fervilhante que logo sumia no ar.
Maravilhada, permaneceu estática enquanto o dono livrava-a da guia. Eles já estavam vários passos à sua frente quando o chamado despertou-a da letargia: “Lena, vem!”
A salsicha disparou, eufórica pela liberdade de correr sem arreios, e em poucos segundos alcançou-os. Só então se deu conta de que corria em um terreno diferente. Fofa, mas não muito, a areia poupava as almofadas de couro das patas e permitiam que as unhas penetrassem nela, ampliando o impulso – era bom demais!
Empolgada, ultrapassou os dois e seguiu a toda velocidade, até ser forçada a dosar o esforço pelo ritmo do coração, que sentia quase arrebentar de tão acelerado. Voltou-se para trás e viu os donos, lá longe, pequenos, confundidos com os morros verdes que cercavam toda aquela imensidão.
Parando e olhando ao redor, a cachorrinha se deu conta de que não havia mais ninguém à vista, além deles. O dia que começara frio já atingia uma temperatura agradável, iluminado a pleno pela luz quente e dourada vinda de cima.
Relaxando, Lena passou a farejar pela areia, atraída pelo cheiro de matéria orgânica que para ela se traduzia por comida. Não teve dificuldades em encontrar o que parecia uma requintada seleção de petiscos diversos: pedaços de estrelas do mar, pequenas lulas mortas, bolachas do mar e até algumas cabeças de camarão frito. Foi mandando tudo para dentro, apenas tomando o cuidado de reduzi-los a bocados que pudesse engolir em mastigadas rápidas, sempre a uma distância segura da barulhenta massa de água.
Na volta para casa, com areia até dentro das orelhas, a salsicha viajava acomodada sobre o colo da dona, cansada e satisfeita, tomada por uma desconhecida moleza. O balançar do carro, o calor dos vidros fechados e as curvas da estrada, no entanto, aos pouco começaram a despertar uma sensação desagradável. Tinha início na barriga, onde algo parecia se mover, e evoluía em ondas de mal estar que atingiam a cabeça, querendo sair pelos olhos. Tinha a certeza de ter mastigado cada um daqueles bichos... Será que algum deles ainda estava vivo dentro dela?
A ideia fez correr um arrepio pela espinha de Lena, potencializando o enjoo. Arfando em busca de um pouco mais de ar, na tentativa de aliviar a sensação horrível, começou a ter engulhos, o estômago se contorcendo.
“Que é isso, Lena?”, assustou-se a dona, a tempo de empurrar a cachorrinha para frente, entre as pernas, antes que ela se livrasse do que a atormentava sobre o tapete de borracha.
“Meu Deus! Onde você comeu isso tudo?”, Fabi se espantou, acariciando a cabeça da salsicha, que se voltou com os olhos cheios de pavor.
No chão do carro, jazia uma massa de restos marinhos não identificados, cobertos por uma boa quantidade de areia. Lena voltou a se deitar sobre as coxas da dona, aliviada. Agora se sentia bem melhor. 

Explicação
A Baleia enxergava sempre o mar nos passeios pelo calçadão, em Balneário Camboriú (SC), quando íamos visitar os pais da Fabi nos finais de semana. Mas ela nunca tinha pisado na praia, até essa vez, em Mariscal, que fica em Porto Belo (SC).
Mais impressionante do que a quantidade de porcarias que ela comeu na praia, longe da gente, foi o volume de areia engolido junto, que saiu quando ela botou tudo para fora.
Naquele dia Lena conheceu a maresia.

2 comentários:

  1. Que história linda! Me senti passeando com vocês e com a Baleia nessa praia. As fotos com a Uca estão maravilhosas! bj VM

    ResponderExcluir
  2. Que Lena linda!!! Tenho duas salsichas!!!
    Vou acompanhar as histórias!!!
    bjão pra vocês.

    ResponderExcluir