Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Descobrindo os prazeres da vida

O objeto inanimado amanhecera no meio da sala, encostado à parede. Lena não se recordava direito do que tinha acontecido no meio da noite, mas tinha a vaga lembrança de ter reencontrado o dono, que nem imaginava mais ver.
A recordação era de ter sido acordada na madrugada, tirada do meio das cobertas da caminha no escuro e levantada no ar, ainda meio dormindo, quando sentiu o cheiro característico e os carinhos do dono. A lembrança era tão agradável que parecia mesmo real, mas a salsicha ainda não sabia diferenciar os sonhos de uma memória verdadeira.

O barulho da porta do quarto se abrindo sacudiu a cachorrinha da dúvida, seguido pela visão do dono. Então tinha sido real!
A alegria em rever o papa e os pedacinhos de pão regalados durante o café da manhã distraíram a atenção de Lena, mas depois que os donos saíram para o trabalho os sentidos da salsicha se voltaram para o que havia de diferente no ambiente quase sempre tedioso do apartamento - só aí o objeto se fez notar aos olhos dela.
Baleia se aproximou devagar, farejando o chão em volta do cubo de tecido, que ainda carregava traços do cheiro do dono. Com cautela, colocou as patas dianteiras sobre ele, focinhando uma das suas várias reentrâncias.
Um aroma adocicado que nunca tinha sentido atraiu a cadelinha, que afundou o focinho pelo orifício de tecido, à procura da fonte daquele cheiro desconhecido e apetitoso. Com meio corpo dentro do buraco, bem lá no fundo, Lena conseguiu encostar a ponta da fuça no que seu olfato indicava ser a origem de tudo.
Com um último esforço, a salsicha abocanhou a rodela embalada em papel alumínio e a puxou para a luz. Ansiosamente, descascou com habilidade a embalagem, usando só os dentinhos da frente, sem causar maiores danos ao conteúdo. No centro do papel laminado, Lena admirou por alguns segundos o cheiroso círculo marrom, antes de aplicar uma lambida caprichada.
Concluiu depois, sem dúvida, que o prazer maior estava no aroma, mas mastigar a massa crocante e o recheio cremoso era diferente de qualquer coisa que já tinha experimentado.
Consumida a rodela, Baleia voltou a investigar o grande cubo em busca de novas surpresas ocultas. Mais confiante dessa vez, subiu sem medo em cima dele, enfiando o focinho nas várias reentrâncias, farejando sem parar.
Em uma delas, um cheiro profundo e complexo deteve a atenção da filhote. Localizado pela intensidade do aroma, o cilindro amarronzado do tamanho da cabeça da cachorrinha foi abocanhado e trazido para fora.
As primeiras lambidas despertaram novas sensações desconhecidas, provocando primeiro ardência, depois formigamento, seguido de um amortecimento agradável na língua de Lena. Animada, a salsicha passou a aplicar leves mordidas ao cilindro macio, liberando níveis crescentes de satisfação pela boca, o que redobrou o vigor das mastigadas.
A tarde passou rápido para a cadelinha, flutuando em um torpor reconfortante, livre do tédio e da solidão dos dias comuns, até adormecer sobre o sofá. Só despertou com o ruído da chave na porta da rua, que precedeu a chegada do dono e uma longa gargalhada, a que ela reagiu abanando o rabinho, languidamente.
A dona chegaria mais tarde, avisada pelo marido antes mesmo de se deparar com a cena:
“Amore, a Lena descobriu os prazeres da vida!”
Sobre o sofá, ele deixara tudo como havia encontrado, por achar que a mulher não ia acreditar se contasse. Do lado da embalagem dourada do alfajor Havanna, cuidadosamente desembrulhado, e dos restos mastigados de um charuto Montecristo número 4, Lena relaxava, de barriga para cima.

Explicação
Esta foi a primeira, mas não a última vez em que a Baleia se aproveitou do nosso mau hábito de deixar malas sem desarrumar na volta das viagens. Por outras duas ou três vezes – até hoje – ela pescou guloseimas nos bolsos: chocolates, biscoitos e alfajores incluídos.
O charuto, porém, foi um prazer único na vida de Lena.

Um comentário:

  1. Essa Baleia, já nasceu pensando "naquilo": comer, comer, comer! bj VM

    ResponderExcluir