A recordação era de ter sido acordada na madrugada, tirada do meio das cobertas da caminha no escuro e levantada no ar, ainda meio dormindo, quando sentiu o cheiro característico e os carinhos do dono. A lembrança era tão agradável que parecia mesmo real, mas a salsicha ainda não sabia diferenciar os sonhos de uma memória verdadeira.
O barulho da porta do quarto se abrindo sacudiu a
cachorrinha da dúvida, seguido pela visão do dono. Então tinha sido real!
A alegria em rever o papa e os pedacinhos de pão
regalados durante o café da manhã distraíram a atenção de Lena, mas depois que
os donos saíram para o trabalho os sentidos da salsicha se voltaram para o que
havia de diferente no ambiente quase sempre tedioso do apartamento - só aí o
objeto se fez notar aos olhos dela.
Baleia se aproximou devagar, farejando o chão em
volta do cubo de tecido, que ainda carregava traços do cheiro do dono. Com
cautela, colocou as patas dianteiras sobre ele, focinhando uma das suas várias
reentrâncias.
Um aroma adocicado que nunca tinha sentido atraiu a
cadelinha, que afundou o focinho pelo orifício de tecido, à procura da fonte
daquele cheiro desconhecido e apetitoso. Com meio corpo dentro do buraco, bem
lá no fundo, Lena conseguiu encostar a ponta da fuça no que seu olfato indicava
ser a origem de tudo.
Com um último esforço, a salsicha abocanhou a rodela
embalada em papel alumínio e a puxou para a luz. Ansiosamente, descascou com
habilidade a embalagem, usando só os dentinhos da frente, sem causar maiores
danos ao conteúdo. No centro do papel laminado, Lena admirou por alguns
segundos o cheiroso círculo marrom, antes de aplicar uma lambida caprichada.
Concluiu depois, sem dúvida, que o prazer maior
estava no aroma, mas mastigar a massa crocante e o recheio cremoso era
diferente de qualquer coisa que já tinha experimentado.
Consumida a rodela, Baleia voltou a investigar o grande
cubo em busca de novas surpresas ocultas. Mais confiante dessa vez, subiu sem
medo em cima dele, enfiando o focinho nas várias reentrâncias, farejando sem
parar.
Em uma delas, um cheiro profundo e complexo deteve a
atenção da filhote. Localizado pela intensidade do aroma, o cilindro
amarronzado do tamanho da cabeça da cachorrinha foi abocanhado e trazido para
fora.
As primeiras lambidas despertaram novas sensações
desconhecidas, provocando primeiro ardência, depois formigamento, seguido de um
amortecimento agradável na língua de Lena. Animada, a salsicha passou a aplicar
leves mordidas ao cilindro macio, liberando níveis crescentes de satisfação
pela boca, o que redobrou o vigor das mastigadas.
A tarde passou rápido para a cadelinha, flutuando em
um torpor reconfortante, livre do tédio e da solidão dos dias comuns, até
adormecer sobre o sofá. Só despertou com o ruído da chave na porta da rua, que
precedeu a chegada do dono e uma longa gargalhada, a que ela reagiu abanando o
rabinho, languidamente.
A dona chegaria mais tarde, avisada pelo marido antes mesmo de se deparar com a cena:
“Amore, a Lena descobriu os prazeres da vida!”
Sobre o sofá, ele deixara tudo como havia encontrado, por achar que a mulher não ia acreditar se contasse. Do lado da embalagem dourada do alfajor Havanna, cuidadosamente desembrulhado, e dos restos mastigados de um charuto Montecristo número 4, Lena relaxava, de barriga para cima.
Explicação
A dona chegaria mais tarde, avisada pelo marido antes mesmo de se deparar com a cena:
“Amore, a Lena descobriu os prazeres da vida!”
Sobre o sofá, ele deixara tudo como havia encontrado, por achar que a mulher não ia acreditar se contasse. Do lado da embalagem dourada do alfajor Havanna, cuidadosamente desembrulhado, e dos restos mastigados de um charuto Montecristo número 4, Lena relaxava, de barriga para cima.
Explicação
Esta
foi a primeira, mas não a última vez em que a Baleia se aproveitou do nosso mau
hábito de deixar malas sem desarrumar na volta das viagens. Por outras duas ou
três vezes – até hoje – ela pescou guloseimas nos bolsos: chocolates, biscoitos
e alfajores incluídos.
O charuto, porém, foi um prazer único na vida de
Lena.
Essa Baleia, já nasceu pensando "naquilo": comer, comer, comer! bj VM
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