Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O primeiro dia

O ruído metálico do portão arrastado contra o chão de concreto queimado foi o sinal para a correria. Os seis filhotes se atropelaram, tropeçando uns nos outros, caindo, embolados em direção à entrada da garagem.
Do lado de dentro da modesta casa térrea de bairro, um casal conversava com a dona do imóvel.
 “Vieram buscar o chocolate?”, a senhora de uns quarenta e poucos anos pergunta, com um sorriso aberto.
“Isso”, respondeu o homem, estendendo a mão para o cumprimento.
No chão, os cachorrinhos já se debatiam nos pés das três pessoas, cambaleando como só os filhotes com pouco mais de 40 dias sabem fazer.
“Fiquem à vontade”, completa a senhora, caminhando para o fundo da garagem. Lá de trás uma salsicha marrom, bem magra, levanta do amontoado de trapos que ocupava um dos cantos, com os olhos fundos, a cabeça baixa, o focinho colado no chão.
“Vem aqui, vem...”, o homem chama, acocorando-se em um esforço de parecer mais amistoso ao bichinho.
A cadela vem lentamente na direção dele, cheirando primeiro o cimento, depois a mão estendida, abaixando a cabeça à espera de agrado.
“Amore, vem cá um pouquinho”, cochicha Fabiana, agachando-se para poder falar ainda mais baixo. “Não tem nenhum chocolate...”
“Pois é... Mas na foto eram seis, lembra? Estão todos aí”, Lúcio respondeu, olhando por baixo da barriga para identificar o sexo de cada um e contando os pequenos de novo. Eram três pretos (dois machos e uma fêmea), dois marrom-avermelhados (duas cadelinhas) e um sexto elemento acinzentado (macho).
“E agora?”, ela pergunta.
Sentindo a tensão no ar, a dona da casa se aproxima e recolhe o cachorrinho cinza do chão. “Viram que bonito?”
“Mas ele não era chocolate?”, Fabiana pergunta, com uma expressão que misturava decepção e descrédito.
“E vai ficar, depois ele troca o pelo...”, apressou-se para explicar a senhora.
“Não sei, não...”, desconfiou Fabiana.
“Se não quiserem esse, podem escolher qualquer um”, a mulher responde.
Ainda agachado, Lúcio observava os filhotes, quatro deles entretidos em morder sem parar o vizinho mais próximo, em meio a ganidos e latidos desafinados. Com o acinzentado nas mãos da dona, só uma das marronzinhas se aproximou dele, primeiro tímida, depois lambendo de leve os dedos estendidos.
Ele ergueu a salsichinha do chão e a examinou com atenção. Gordinha, ela mal parecia um filhote de Daschund - aliás, como todos os seis cachorrinhos. Iguais aos da mãe, os olhos expressivos da pequena permaneciam fixos no chão, com medo. Nas costas da cadelinha, uma listra de um marrom mais escuro ia do pescoço ao rabo, este coberto pela metade por uma mancha preta.
“É essa, Amore...”, Lúcio disse.
“Mas você não queria um machinho?”, Fabiana pergunta, sorrindo.
“Eu sei, mas é que...”
Não completou a frase. Limitou-se a mirar os olhinhos da cachorrinha de perto, de um jeito que faria outras centenas de vezes depois. O nome viria nas horas seguintes: Baleia.

O Achado
Explicação
Os planos de ter um cachorro começaram tristes. Eu sempre quis um salsicha (ou Dashund para os entendidos), não sei bem por que. Daí surgiu o Achado, comprado em um petshop de Joinville (SC).
Marrom e bem magrinho, no segundo dia de casa ele começou a ter vômitos e diarreia, deixando de comer nos dias seguintes. Levado ao veterinário, a recomendação foi dar soro caseiro, remédio e suspender a ração, alimentando-o com peito de frango, cozido e desfiado.
Mais alguns dias se passaram e tudo o que ele comia, vomitava, fraco até para andar. De volta ao veterinário, o diagnóstico foi de cinomose, uma doença para a qual há vacina, mas não há cura. Solução: sacrificar o pobre salsichinha, que já começava a ter as primeiras convulsões da fase terminal. Esse é um dos graves problemas ocultos dos petshops, os filhotes entram em contato com animais de procedências variadas ainda muito novos para receber as vacinas que lhes garantiriam imunidade.
Depois da despedida traumática e toda a tristeza, há uma quarentena necessária de pelo menos seis meses para ter outro animalzinho, tempo que leva para o vírus desaparecer por completo do ambiente.
Quase um ano depois, superado o trauma da perda, a Fabi e eu decidimos ir atrás de outro salsicha. Contatada, uma tia dela descobriu uma ninhada em Lages (SC), nascida em uma casa, longe dos petshops, exatamente como queríamos, e nos enviou uma foto dos filhotes.
Na ninhada havia um lindo cachorrinho cor de chocolate, mas quando chegamos lá para buscá-lo estava cinza! O resultado foi a Baleia, que no mesmo dia trouxemos para Joinville, para viver com a gente ainda no apartamento alugado da Rua Fortaleza, no Saguaçu. Mas isso já é outra história.


8 comentários:

  1. Lageana como eu... só podia ser especial...rsrsrs.

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  2. Ficou bem Legal Velho!!!..... abs... Pig

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  3. Adorei o blog !
    Priscila (Ferreira)

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    1. Obrigado, Priscila!
      Salsichas sempre rendem boas histórias.... rs

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  4. Adorei.. alías, estou adorando.... bjs

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  5. Salsichas são incríveis!!!
    Adorei a ideia do blog, de contar as histórias da Lena!
    bjão

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