Do lado de dentro da modesta casa térrea de bairro,
um casal conversava com a dona do imóvel.
“Isso”, respondeu o homem, estendendo a mão para o
cumprimento.
No chão, os cachorrinhos já se debatiam nos pés das
três pessoas, cambaleando como só os filhotes com pouco mais de 40 dias sabem
fazer.
“Fiquem à vontade”, completa a senhora, caminhando
para o fundo da garagem. Lá de trás uma salsicha marrom, bem magra, levanta do
amontoado de trapos que ocupava um dos cantos, com os olhos fundos, a cabeça
baixa, o focinho colado no chão.
“Vem aqui, vem...”, o homem chama, acocorando-se em um
esforço de parecer mais amistoso ao bichinho.
A cadela vem lentamente na direção dele, cheirando primeiro
o cimento, depois a mão estendida, abaixando a cabeça à espera de agrado.
“Amore, vem cá um pouquinho”, cochicha Fabiana, agachando-se
para poder falar ainda mais baixo. “Não tem nenhum chocolate...”
“E agora?”, ela pergunta.
Sentindo a tensão no ar, a dona da casa se aproxima
e recolhe o cachorrinho cinza do chão. “Viram que bonito?”
“Mas ele não era chocolate?”, Fabiana pergunta, com
uma expressão que misturava decepção e descrédito.
“E vai ficar, depois ele troca o pelo...”, apressou-se
para explicar a senhora.
“Não sei, não...”, desconfiou Fabiana.
“Se não quiserem esse, podem escolher qualquer um”,
a mulher responde.
Ainda agachado, Lúcio observava os filhotes, quatro
deles entretidos em morder sem parar o vizinho mais próximo, em meio a ganidos
e latidos desafinados. Com o acinzentado nas mãos da dona, só uma das
marronzinhas se aproximou dele, primeiro tímida, depois lambendo de leve os
dedos estendidos.
“É essa, Amore...”, Lúcio disse.
“Mas você não queria um machinho?”, Fabiana
pergunta, sorrindo.
“Eu sei, mas é que...”
Não completou a frase. Limitou-se a mirar os
olhinhos da cachorrinha de perto, de um jeito que faria outras centenas de
vezes depois. O nome viria nas horas seguintes: Baleia.
Os
planos de ter um cachorro começaram tristes. Eu sempre quis um salsicha (ou Dashund
para os entendidos), não sei bem por que. Daí surgiu o Achado, comprado em um
petshop de Joinville (SC).
Marrom
e bem magrinho, no segundo dia de casa ele começou a ter vômitos e diarreia,
deixando de comer nos dias seguintes. Levado ao veterinário, a recomendação foi
dar soro caseiro, remédio e suspender a ração, alimentando-o com peito de
frango, cozido e desfiado.
Mais
alguns dias se passaram e tudo o que ele comia, vomitava, fraco até para andar.
De volta ao veterinário, o diagnóstico foi de cinomose, uma doença para a qual
há vacina, mas não há cura. Solução: sacrificar o pobre salsichinha, que já
começava a ter as primeiras convulsões da fase terminal. Esse é um dos
graves problemas ocultos dos petshops, os filhotes entram em contato com
animais de procedências variadas ainda muito novos para receber as vacinas que
lhes garantiriam imunidade.
Depois
da despedida traumática e toda a tristeza, há uma quarentena necessária de pelo
menos seis meses para ter outro animalzinho, tempo que leva para o vírus
desaparecer por completo do ambiente.
Quase
um ano depois, superado o trauma da perda, a Fabi e eu decidimos ir atrás de
outro salsicha. Contatada, uma tia dela descobriu uma ninhada em Lages (SC),
nascida em uma casa, longe dos petshops, exatamente como queríamos, e nos enviou
uma foto dos filhotes.
Na ninhada havia um lindo cachorrinho cor de
chocolate, mas quando chegamos lá para buscá-lo estava cinza! O resultado foi a
Baleia, que no mesmo dia trouxemos para Joinville, para viver com a gente ainda
no apartamento alugado da Rua Fortaleza, no Saguaçu. Mas isso já é outra
história.

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Lageana como eu... só podia ser especial...rsrsrs.
ResponderExcluirFicou bem Legal Velho!!!..... abs... Pig
ResponderExcluirValeu, Pig!!!
ExcluirAdorei o blog !
ResponderExcluirPriscila (Ferreira)
Obrigado, Priscila!
ExcluirSalsichas sempre rendem boas histórias.... rs
Adorei.. alías, estou adorando.... bjs
ResponderExcluirObrigado, Andrea!
ExcluirQuarta tem história nova da Baleia.
Salsichas são incríveis!!!
ResponderExcluirAdorei a ideia do blog, de contar as histórias da Lena!
bjão