Histórias da Baleia

O mundo visto através dos olhos da Baleia. Leia aqui as crônicas de Lena

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Xixi esperto

Primeiro eram só broncas. Bastava ouvir o ruído da chave na fechadura da porta da rua para a pequena salsicha correr para debaixo das cobertas da caminha acolchoada, que ocupava permanentemente um dos cantos da sala do apartamento. Aí era só esperar...
“De novo, Baleia!”
O grito era quase sempre esse.
O que será que tinha feito? Nunca fazia nada... A cadelinha olhava com ar de abandono nos olhinhos negros.
“Ah, não aguento mais limpar xixi!”, a dona bufava.
“Já falei pra você que não adianta só dar bronca...”, Lúcio tentava explicar, recolhendo a filhote de pouco mais de quatro meses e levando-a para a sacada, onde ficava a pequena churrasqueira do apartamento, de frente para a Avenida Beira-Rio, depositando-a sobre o quadrado de jornal preso por dois pedaços de granito. “Assim ela só entende que fez alguma coisa errada, mas não aprende o certo.”
Semanas mais tarde, depois de fazer um xixi sobre o jornal – por acaso, só tinha saído para a sacada para investigar um latido estranho e a vontade veio -, a satisfação! Baleia não entendeu bem logo de cara, mas o sabor daquele bifinho seco era muito melhor que o da ração.
“Viva, Lena!”, ouviu o dono comemorar, erguendo-a no ar, os olhos arregalados de susto e excitação, surpreendida pela reação inesperada e ainda mastigando os últimos pedaços do prêmio.
“Viu, é assim que ela aprende!”, Lúcio se exibiu, provocando a mulher com um ar de superioridade indisfarçável.
“Ah, é?”, Fabiana duvidou. “Vamos ver se ela aprendeu mesmo...”
Claro que aquele não foi o xixi definitivo no jornal – alguns ainda tiveram que ser esfregados do piso de cerâmica da sala pela dona –, mas aos poucos isso se tornou cada vez mais raro.
Agora, em vez de se esconder debaixo das cobertas ao ouvir o barulho dos donos à porta, Baleia esperava saltitando na entrada do apartamento, antecipando o sabor do bifinho. E, não muito tempo depois de um dos dois chegar, a salsichinha saia à sacada, se agachava na posição clássica e invariavelmente garantia um segundo prêmio.
Mesmo ao chegar de um passeio na rua, após marcar o que ela achava ser seu território com inúmeros xixis, a primeira coisa que Lena fazia ao entrar no apartamento era se abaixar sobre o quadrado de jornal do lado de lá da porta de vidro que separava a sacada da sala e voltar saltitante, exigindo a recompensa.
Baleia e Fabi
Quem desconfiou foi Fabiana. Um dia, depois de libertar a cadelinha da guia de passeio, seguiu-a até a sacada – aí veio a surpresa.
“Lena, não acredito...”, disse, sem conter a gargalhada.
Sem nem disfarçar, a salsicha tinha acabado de agachar sobre o jornal, na frente da dona, e ao se levantar o papel estava seco. Já do lado de lá da porta de vidro, na sala, a filhote saltitava, à espera do bifinho.
Daquele dia em diante não bastava mais ver a salsicha sair para a sacada, cumprir o ritual do agachamento e voltar ofegante para a sala: a recompensa só era entregue após a observação da prova molhada.
Essa foi a primeira trapaça de Lena.

3 comentários:

  1. Que saudades de quando ela era essa gorduchinha!!

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  2. Ela era muito lindinha, quando pequeninha!!!

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  3. hahahaha que espertinha!!!!
    quando você falou em posição clássica de fazer xixi eu lembrei das minhas duas!! hahahahahaha

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