No início era o tédio. Depois que os donos saíam
para o trabalho, logo cedo, o apartamento ficava silencioso, nada se movia. Os
únicos ruídos vinham dos carros, distantes, na Av. Beira-Rio, nada que
justificasse mais do que um levantar de orelhas descompromissado.
Deitada na caminha no canto da sala, Lena observava
com desânimo os brinquedinhos espalhados pelo chão: o mordedor de borracha
dura, uma bolinha de plástico verde e o pequeno cachorrinho de pelúcia
semidestruído, já sem os olhos.
Sem grandes expectativas, a salsicha se levantou e
caminhou pelo corredor, em direção ao quarto, procurando algo para fazer. Nada,
nenhum objeto de interesse. De volta à sala, continuou a ronda, só para passar
o tempo.
Não havia nada de mais naquele ambiente. Em frente
ao móvel baixo que servia de apoio para a tela mágica, ficava o grande
monolito. Parecia feito de um material semelhante ao da sua caminha – afinal, era
fofo na parte de cima, onde Lena não conseguia subir sozinha, só com a ajuda de
um dos donos.
A salsichinha deu a volta no sofá velho de três
lugares, em uma investigação mais criteriosa. Na parte de trás, uma pequena
parte da costura começava a se soltar, em um dos cantos de baixo. Com uma
mordida, ela puxou o pedaço de couro falso com força, afrouxando um pouco os
pontos. Ah, diversão!
Depois de algumas horas de trabalho dedicado,
conseguiu abrir um pequeno buraco na cobertura detrás da peça, grande o
suficiente para enfiar o focinho por dentro e começar a roer o couro, rasgando
aos poucos.
Ao final do dia, quando os donos chegaram, Lena
estava tranquilamente deitada na caminha, com os olhinhos inocentes de sempre e
uma prazerosa sensação de cansaço. O buraco, na parte baixa e traseira do velho
sofá, passou despercebido.
Na manhã seguinte, segundos após a porta da rua se
fechar atrás dos donos, retomou os trabalhos. Com vontade, a cachorrinha
exercitava a mordida no couro macio, primeiro desgastando o material com os
dentinhos da frente e depois rasgando o tecido com vigorosos movimentos da
cabeça, preso entre os molares.
Assim Lena passou mais um dia divertido, em uma
atividade febril, com breves momentos de descanso.
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Naquela noite os donos chegaram juntos em casa,
depois de se encontrarem no supermercado para fazer as compras. Ao entrar no
apartamento carregados de sacolas, não encontraram a cachorrinha deitada na
caminha, como de costume.
Largando as compras na cozinha, Lúcio entrou
corredor adentro, chamando a pequena: “Lena... Lena....Cadê a minha Leninha?”
Nada se movia no quarto.
“Amore, ela não tá aqui!”
Na sala, Fabi começou a escutar o barulho do rabo da
filhote batendo no couro, abanando de alegria.
“Lena, cadê você?”, perguntou, dando a volta no
sofá, sem perceber de onde vinha o som, que parecia próximo.
No interior da peça, a salsichinha rebolava
contente, só os olhinhos visíveis dentro do buraco que ela tinha aberto na
parte de trás do móvel, através do couro falso.
“Não acredito... Amore, vem cá ver o que a Lena
aprontou!”, a dona disse, rindo.
“Meu Deus... Como ela conseguiu fazer isso?”,
espantou-se o dono, ajoelhado, examinando de perto o estrago.
Dentro do sofá, Lena ainda abanava o rabinho,
satisfeita com o trabalho bem feito e com o sentimento de dever cumprido.
Explicação
Explicação
Claro
que a Baleia levou uma boa bronca neste dia, mas na verdade aquele sofá era
quase um sobrevivente de guerra. Vindo de Lages (SC), ele já tinha feito parte
de moradias da Fabi em Floripa (SC) e em São Paulo (SP), e agora quebrava o
galho no apartamento alugado do Saguaçu, em Joinville (SC), que também era para
ser provisório.
O
tecido era de um couro falso emborrachado, com um padrão de cores, digamos, pouco
usual: combinava vários tons de rosa, bege e marrom claro, sobrepostos por uma
sequência vertical de desenhos diversos – um arqueólogo identificaria símbolos
marajoaras, sânscritos, etruscos e até da maçonaria. Em resumo, não era nada
bonito.
Lena
não parou no primeiro buraco. Não satisfeita em construir uma toca dentro do
sofá, ela começou a roer o móvel por dentro, abrindo uma passagem interna que
dava acesso direto à parte de cima da peça.
Por sorte, o que parecia um início de carreira
promissor nas artes da destruição – afinal, ela só tinha seis meses de vida -
mostrou-se apenas um hobby passageiro. Depois desse, a Baleia nunca mais causou
estragos significativos em casa, nem mesmo a chinelos ou sapatos, casos
clássicos em se tratando de filhotes.
Vai ver a Lena também não gostava do sofá.

Nesse tempo nós chamávamos ela de "Diaba Lena"!!
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